A partir deste 1º de agosto, abastecer com gasolina comum no Brasil significa colocar no tanque uma mistura com 32% de etanol — dois pontos percentuais a mais do que a proporção anterior. A decisão, publicada pelo Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) em meados de julho, pegou muitos motoristas de surpresa e acendeu o alerta nas oficinas mecânicas de todo o país. A medida tem como pano de fundo o incentivo à produção nacional de cana-de-açúcar e a redução das emissões de carbono, mas seus efeitos práticos recaem diretamente sobre quem dirige.
O coração do problema está na compatibilidade. Veículos fabricados com tecnologia flex estão preparados para operar com qualquer proporção de etanol, pois seus sistemas de injeção, sensores e materiais de vedação foram desenvolvidos para suportar o combustível em sua forma pura. Já os carros a gasolina fabricados antes da popularização da tecnologia flex — especialmente os produzidos até o início dos anos 2000 — possuem componentes pensados para uma concentração menor de álcool. Com a nova mistura, peças como juntas do sistema de combustível, mangueiras de borracha e vedações plásticas ficam mais expostas ao desgaste acelerado causado pela ação corrosiva do etanol em concentrações elevadas.
Mecânicos relatam que os primeiros sinais de incompatibilidade costumam aparecer no sistema de alimentação de combustível. Bicos injetores, bombas e filtros de combustível podem apresentar entupimento ou deterioração precoce quando expostos continuamente a uma mistura mais alcoólica do que aquela para a qual foram calibrados. Em motores carburados, o problema é ainda mais delicado: os carburadores originais dessas gerações de veículos são especialmente sensíveis à variação na composição do combustível, podendo apresentar dificuldade na partida a frio, perda de potência e consumo irregular.
A recomendação dos especialistas para quem possui um veículo mais antigo é redobrar a atenção com a manutenção preventiva. Inspecionar mangueiras e vedações do sistema de combustível com maior frequência, trocar filtros dentro do prazo e observar qualquer comportamento anormal do motor — como engasgos, dificuldade para pegar ou aumento no consumo — são medidas que podem evitar danos maiores. Para quem tem dúvidas sobre a compatibilidade do próprio carro, consultar um mecânico de confiança antes que os sintomas apareçam é sempre a escolha mais econômica.
Vale lembrar que a mudança não afeta apenas os carros antigos: proprietários de veículos importados que não foram homologados para o mercado brasileiro também devem ficar atentos, já que esses modelos frequentemente chegam ao país sem a mesma tolerância ao etanol presente nos nacionais. Em qualquer caso, a nova composição da gasolina é mais um capítulo na complexa relação entre a política energética brasileira e o bolso do motorista — e quem sair na frente com informação tem mais chance de sair no lucro.
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