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Há muito alarde em torno da perimenopausa. Não caia nessa.

Redação Recifes
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Há muito alarde em torno da perimenopausa. Não caia nessa.
Foto: Malcoln Oliveira / Pexels

A perimenopausa entrou na conversa.

A perimenopausa e sua parente mais conhecida, a menopausa, costumavam ser consideradas um tabu. Isso não acontece mais, graças, pelo menos em parte, a médicos da televisão e influenciadores das redes sociais. Talvez seja por causa da minha idade, mas, hoje em dia, tanto meu algoritmo quanto minhas conversas com amigos se voltam cada vez mais para a perimenopausa.

A menopausa é definida como a fase da vida que ocorre um ano depois de a pessoa ter tido sua última menstruação. A perimenopausa é o período, que às vezes dura anos, anterior a esse momento e que também pode apresentar todos os sintomas que normalmente associamos à menopausa.

Hoje, as informações sobre a perimenopausa são mais difundidas e acessíveis do que nunca. Se você é uma mulher na faixa dos 40 anos e não está se sentindo 100%, é provável que haja alguém na Internet pronto para dizer que você está na perimenopausa. E que talvez seja uma boa ideia começar a gastar seu dinheiro com exames de sangue, aplicativos e suplementos ou exigir terapia de reposição hormonal. Mas, como os leitores assíduos talvez já tenham percebido a esta altura, não é tão simples assim.

A perimenopausa tende a começar por volta dos 46 ou 47 anos. É durante esse período que muitas mulheres começam a apresentar alguns sintomas, como ondas de calor, menstruações irregulares ou anormalmente intensas ou ansiedade, por exemplo. E pode ser uma fase difícil. “Muitas vezes, os sintomas atingem seu pior nível durante a perimenopausa”, diz Mary Ann Lumsden, ex-presidente da Sociedade Internacional de Menopausa.

Isso acontece porque os hormônios podem oscilar drasticamente. Os níveis de estrogênio, progesterona, hormônio luteinizante e hormônio folículo-estimulante podem passar por altos e baixos antes de se estabilizarem após a menopausa. E é por isso que, apesar do que alguns profissionais de marketing afirmam, não existe um exame para detectar a perimenopausa.

“Não é possível interpretar as dosagens hormonais porque elas mudam demais”, diz Lumsden. “E isso é perfeitamente normal.”

Isso não significa que as mulheres devam ter de suportar os sintomas. Mas a forma exata de tratá-los é outro tema que tem sido obscurecido pela desinformação.

Na semana passada, contei a uma amiga sobre uma dor pélvica excepcionalmente forte que eu havia sentido. Seu conselho imediato foi descobrir se eu estava na perimenopausa e, em caso afirmativo, solicitar terapia de reposição hormonal, TRH, o mais rápido possível. Se meu médico não quisesse prescrevê-la, continuou ela, eu deveria simplesmente procurar outro médico que o fizesse.

Essa linha de raciocínio tem sido fortemente promovida nas redes sociais, diz Paula Briggs, ex-presidente da Sociedade Britânica de Menopausa e atual responsável pelo serviço de menopausa do Hospital da Mulher de Liverpool. Mas ela não ajuda.

A TRH é essencialmente concebida para complementar ou repor hormônios como o estrogênio e a progesterona, cujos níveis diminuem naturalmente por volta da menopausa. Há muitos medicamentos diferentes, que podem ser administrados de diversas formas e em várias dosagens.

Embora envolva alguns riscos e não seja adequada para todas as pessoas, a TRH pode ser extremamente útil para muitas mulheres na menopausa. Além de ajudar a aliviar muitos dos sintomas comuns da menopausa, ela também pode contribuir para a prevenção da osteoporose e a manutenção da força muscular.

Mas esses medicamentos foram testados e aprovados para mulheres na menopausa, diz Lumsden. Eles não terão os mesmos efeitos em mulheres na perimenopausa. “Se você administrar uma TRH padrão, é bem possível que ela seja neutralizada pela própria produção hormonal da mulher”, afirma.

A TRH também pode causar sangramentos anormais em mulheres na perimenopausa, diz Briggs.

Ela está preocupada com as mensagens sobre a perimenopausa que vêm sendo promovidas nas redes sociais. Segundo ela, é particularmente preocupante a forma como mulheres mais jovens são incentivadas a presumir que estão na perimenopausa e a buscar tratamento com TRH.

“É quase como um culto, essa ideia de que todo mundo precisa fazer TRH”, afirma.

E há também os suplementos. Houve uma explosão na divulgação de vitaminas e suplementos voltados especificamente para mulheres de meia-idade e na menopausa. Mas as evidências a favor desses produtos também são limitadas ou inexistentes. “Não consigo enxergar um mecanismo de ação para muitos deles”, diz Lumsden.

As mulheres que tomam esses suplementos nem sempre sabem o que estão recebendo. Algumas pacientes de Lumsden lhe disseram que tomam suplementos de testosterona para controlar os sintomas. Mas exames de sangue não revelaram nenhum aumento nos níveis de testosterona. “Seja lá o que estiverem recebendo, não é testosterona”, afirma.

De qualquer forma, nem todos os sintomas que as mulheres apresentam na meia-idade podem ser atribuídos aos hormônios. As longas listas de sintomas da perimenopausa compartilhadas nas redes sociais incluem fadiga, névoa mental, dores pelo corpo, problemas digestivos e muito mais. “Esses sintomas não estão estreitamente ligados às mudanças evidentes no ciclo menstrual e às alterações hormonais […] ao longo da menopausa”, diz Nanette Santoro, professora de obstetrícia e ginecologia da Universidade do Colorado Anschutz que estuda a menopausa.

Caso você apresente algum sintoma, vale a pena procurar uma avaliação médica para se certificar de que ele não está sendo causado por outra coisa. Minha própria dor pélvica, por exemplo, é quase certamente resultado da endometriose, uma condição que pode ser agravada pela TRH, diz Lumsden.

De qualquer forma, quando chegam aos 40 anos, muitas mulheres já conciliam os cuidados com os filhos e com os pais idosos, muitas vezes enquanto mantêm um emprego, e lidam com as pressões de sociedades que parecem não valorizar as mulheres mais velhas. É uma fase exaustiva, e nem todo esse esgotamento pode ser atribuído aos hormônios.

Como resume Santoro: “Atribuir à perimenopausa tudo de desagradável que acontece com uma mulher depois dos 35 anos não se baseia em nenhuma evidência científica.”

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Artigo originalmente publicado em mittechreview.com.br
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