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IA é uma ferramenta poderosa, mas o protagonista continua sendo você

Redação Recifes
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IA é uma ferramenta poderosa, mas o protagonista continua sendo você

*Por Daniel Galante, CEO da Claranet Brasil

Sempre que leio ou escuto opiniões sobre inteligência artificial (IA), encontro o mesmo roteiro: de um lado, os IApocalípticos, convencidos de que a IA vai destruir profissões e jogar milhões de pessoas no desemprego; de outro, os FanAIticos, que enxergam na IA uma tecnologia capaz de transformar o mundo para melhor, quase de forma romântica. Os dois lados cometem o mesmo erro: colocam a IA no centro da história e tratam o ser humano como coadjuvante. É aí que a conversa se perde. A posição que de fato importa exige sustentar duas verdades ao mesmo tempo: a IA é poderosíssima e transformacional, e ainda assim é uma ferramenta. Nada mais do que isso. E, por ser uma ferramenta, ela não tem agenda própria, quem tem agenda é quem a opera.

O que a história das tecnologias já nos ensinou

Sou do tempo do antes e do depois do computador pessoal. Vi gerações inteiras tratarem o PC como um alienígena, enquanto outras correram atrás do conhecimento e usaram aquela ferramenta para escalar o que já sabiam fazer. Depois veio a internet, o smartphone, e o roteiro se repetiu a cada nova onda. Em nenhum desses ciclos a tecnologia, sozinha, garantiu vantagem a alguém. O que separou os dois grupos foi sempre a postura diante dela. Com a IA não será diferente. A diferença é de escala e de velocidade, não de natureza. Fugir disso seria intelectualmente desonesto: a IA está facilitando atividades operacionais de baixo valor agregado, e vai substituir humanos nelas.

Um estudo do Banco Mundial, citado pelo ITS Rio, estima que até 37% dos postos de trabalho no Brasil, cerca de 37 milhões de pessoas, poderão ser impactados pela tecnologia. Não é novidade: o elevador automático aposentou o ascensorista, a telefonista deu lugar à discagem direta. Ninguém sente falta dessas funções hoje, mas a angústia de quem as exercia foi real e merece respeito. O que muda é o trabalho, não o valor das pessoas, só que a IA roda esse filme em velocidade muito maior, atingindo inclusive trabalho intelectual qualificado.

O humano continua no centro da decisão

A outra face da mesma moeda é que a IA vai potencializar enormemente quem a abraçar cedo. A tecnologia não escolhe vencedores. Ela apenas aumenta a distância entre quem a domina e quem a ignora. E aqui chego ao ponto mais importante desta discussão: o humano sempre será a peça central. É ele quem comanda, filtra, avalia e adapta qualquer resultado entregue pela IA. A máquina propõe. Mas o humano decide se aquilo presta, em que contexto se aplica e o que precisa ser ajustado. Tirar o humano dessa equação não é eficiência, é abdicar do julgamento. E julgamento é justamente o que nenhum modelo entrega pronto. Por isso, quem entende o jogo para de fazer a pergunta errada. Não é “a IA vai me substituir?”, e sim “o que eu consigo construir com ela que não conseguiria sozinho?”. São perguntas que levam a lugares completamente diferentes: a primeira paralisa, a segunda mobiliza.

O desafio de formar a próxima geração

Existe uma reflexão que costuma ficar de fora do debate barulhento. As empresas vão precisar redesenhar seus pipelines de talentos. A IA está corroendo justamente os degraus iniciais de muitas carreiras, aquelas tarefas operacionais que serviam de aprendizado para o profissional júnior, por exemplo. Se a máquina assume o trabalho de base, surge uma pergunta incômoda “como formamos o sênior de amanhã?”.

Um estudo da Universidade de Stanford, com dados de folha de pagamento de milhões de trabalhadores, mostra que o emprego de jovens entre 22 e 25 anos nas ocupações mais expostas à IA caiu cerca de 13% desde o lançamento do ChatGPT, enquanto o emprego dos profissionais mais experientes se manteve estável ou cresceu.

O efeito mais comum, por ora, não é demissão em massa, é a empresa simplesmente parar de abrir a porta de entrada. Adaptar o pipeline de talentos deixou de ser tema de RH e virou tema de sobrevivência do negócio. Há ainda uma segunda inquietação: talvez as novas gerações não tenham o mesmo poder de uso da IA que as anteriores. Nós, os mais velhos, fomos educados a formular perguntas e a validar criticamente as respostas, porque elas não vinham mastigadas.

A IA é, no fundo, uma máquina de responder a quem não sabe perguntar, e quem não sabe distinguir uma boa resposta de uma resposta convincente, porém errada, fica refém da ferramenta.

A diferença está em quem segura a ferramenta

Quem não embarcar nessa transformação vai ficar para trás. Mas o diferencial nunca esteve na ferramenta em si. Todos terão acesso à mesma IA, ao mesmo modelo, ao mesmo prompt. A ferramenta, sozinha, é commodity. O diferencial está em quem a segura na capacidade de fazer a pergunta certa, filtrar o ruído, avaliar criticamente o resultado e adaptá-lo ao contexto que só um humano enxerga por inteiro.

Por isso, o convite que faço é simples: não espere para ver como essa história termina, faça parte dela. Comece hoje a aprender, a experimentar, a errar e a ampliar suas capacidades com a IA ao lado, pois é aí que se constrói a próxima carreira profissional de destaque no mercado de trabalho. A diferença entre protagonizar essa transformação e ser arrastado por ela está na decisão de embarcar e em quão cedo você a toma. A IA não é a protagonista desta história. Nunca foi. Ela é a melhor ferramenta que já colocamos nas mãos. E ferramenta nenhuma, por mais poderosa que seja, decide para onde quer ir. Quem decide é você.

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Artigo originalmente publicado em startups.com.br
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