Marilyn Shuler dedicou 39 anos de sua vida profissional ao mesmo hospital. Cada manhã no Montefiore, no Bronx, ela analisava prontuários, conversava com seguradoras e garantia que os pacientes recebessem a cobertura que mereciam. Era um trabalho invisível, técnico e essencial — até que, numa tarde de domingo, chegou a notícia: ela e mais onze colegas estavam demitidas. No lugar delas, um software de inteligência artificial.
O caso expõe uma tensão crescente nos sistemas de saúde ao redor do mundo: a sedução da automação diante de funções que, por fora, parecem mecânicas, mas carregam décadas de julgamento humano. As chamadas enfermeiras de revisão de utilização — especialidade que avalia se determinado tratamento é clinicamente justificado perante as seguradoras — são peças-chave na engrenagem hospitalar. Substituí-las por algoritmos pode reduzir custos operacionais no curto prazo, mas levanta questões sérias sobre quem, afinal, defende o paciente quando a máquina nega uma internação.
O sindicato que representa as trabalhadoras vai além do debate ético: afirma que o hospital violou um acordo trabalhista conquistado duramente, após uma greve recente. Para os representantes sindicais, a demissão não é apenas uma tragédia individual — é uma afronta a uma conquista coletiva. 'Deveria preocupar todo paciente que se importa com a qualidade do cuidado', declarou um porta-voz da entidade, resumindo o temor de que a lógica financeira esteja sendo colocada acima da segurança clínica.
O Montefiore não é caso isolado. Hospitais nos Estados Unidos e na Europa têm testado IA para triagem, diagnóstico auxiliar e, agora, revisão administrativa. Os defensores da tecnologia argumentam que os sistemas são mais rápidos e consistentes. Os críticos lembram que algoritmos cometem erros sistemáticos, especialmente com populações sub-representadas nos dados de treinamento — e que, ao contrário de uma enfermeira experiente, uma IA não percebe o que não foi digitado no prontuário.
O episódio no Bronx serve de alerta para o Brasil, onde o debate sobre automação na saúde ainda engatinha. Antes de adotar soluções tecnológicas como substitutas de profissionais, hospitais e gestores precisam responder uma pergunta fundamental: quando o sistema errar, quem assumirá a responsabilidade — e quem arcará com as consequências?