Inflação da IA: Por que o iPhone 18 deve ficar (bem) mais caro
A conta da inteligência artificial (IA) chegou para o consumidor de eletrônicos. E o próximo alvo é o iPhone 18. Quem está de olho no mercado mundo afora já notou aumentos recentes de centenas de dólares em modelos recentes de MacBook e iPad. Para o CEO da Apple, Tim Cook, esse movimento é “inevitável” diante da escassez de componentes. Esse reajuste generalizado é o prenúncio do que deve acontecer em setembro, quando a nova linha de smartphones deve estrear com aumentos estimados em até US$ 200 nas versões Pro.
O motivo por trás disso é o fenômeno da “inflação da IA”. A explosão dos serviços de inteligência artificial fez com que grandes data centers garfassem chips de memória, canibalizando a produção que antes ia para smartphones. Com menos componentes disponíveis no mercado e custos de fabricação até 25% mais altos, eletrônicos de consumo perderam a prioridade na fila da indústria. E o preço dessa disputa global deve começar a ser cobrado na etiqueta do novo celular da Apple.
A inflação da IA e o ‘RAMaggedon’
O mundo enfrenta uma nova forma de inflação, impulsionada diretamente pelo boom da IA generativa. Para que os modelos de IA funcionem e aprendam, eles dependem de supercomputadores em data centers que exigem quantidades massivas de memórias DRAM e NAND flash.
Como as grandes empresas de tecnologia estão dispostas a pagar valores altíssimos por esses componentes para não ficarem para trás na corrida da IA, fabricantes de chips como Micron mudaram suas prioridades: o mercado corporativo agora é o cliente “VIP”. Leia-se: recebe a maior parte da produção.
Essa mudança de foco criou um desequilíbrio para o consumidor comum. No passado, gigantes como Apple e Samsung eram a prioridade absoluta dos fabricantes, mas hoje os servidores de IA tomaram esse protagonismo. Com a produção voltada para as empresas, sobraram menos componentes para a fabricação de celulares, notebooks e consoles de videogame, por exemplo.
O “RAMageddon” descreve o que muitos consideram um “apocalipse” no mercado de hardware – Imagem: wutianzeri/Shutterstock
Ou seja, é a lei básica da oferta e da procura: com poucas peças disponíveis e uma demanda global altíssima, o custo para colocar memória em qualquer eletrônico disparou. E isso forçou as marcas a repassarem esse prejuízo para o preço final.
Esse cenário caótico de escassez e preços nas alturas foi apelidado por especialistas de “RAMageddon“. O termo é uma junção de “memória RAM” com “Armagedom”. E descreve o que muitos consideram um “apocalipse” no mercado de hardware. Especialistas alertam que essa falta de componentes e a consequente alta de preços podem durar anos, já que aumentar a oferta de chips é um processo lento e extremamente caro que não acontece da noite para o dia.
As consequências reais desse fenômeno já estão nas prateleiras. No caso da linha iPhone 18, o aumento estimado de até US$ 200 nos modelos Pro considera o custo que a empresa paga pelas memórias internas deve quadruplicar em comparação a 2025. O próprio Tim Cook preparou o terreno ao afirmar, em entrevista ao Wall Street Journal, que a empresa tentou proteger os clientes o máximo que pôde, mas que a situação atual tornou-se insustentável.
Por que o iPhone 18 Pro deve ficar mais caro
A matemática por trás do iPhone 18 Pro traz um salto nos custos de produção, puxado diretamente pela crise das memórias. Segundo dados da TechInsights enviados ao Wall Street Journal, o custo da memória DRAM de 12GB deve disparar de US$ 39 (aproximadamente R$ 202) para US$ 145 (R$ 751), enquanto o armazenamento flash de 256GB pode aumentar de US$ 13 (R$ 67) para US$ 51 (R$ 264). No total, o custo de fabricação do aparelho deve subir 25%, passando de US$ 582 (R$ 3 mil) para US$ 726 (R$ 3,7 mil). Seria uma das transições de custo mais agressivas da história da Apple.
Para não ver seus lucros minguarem, a Apple deve repassar esse peso para o consumidor final. Segundo cálculos do Wall Street Journal, para manter sua margem de lucro histórica de 47%, a empresa precisaria cobrar cerca de US$ 1.371 (R$ 7,1 mil em conversão direta) pelo novo modelo. No entanto, o WSJ aposta que a Apple buscará um equilíbrio em US$ 1.299 (R$ 6,7 mil) para manter seu padrão de preços. Mas ressalta que avanços extras, como novos sistemas de câmeras, podem empurrar o valor do modelo Pro para US$ 1.399 (R$ 7,2 mil).
Essa percepção de alta é reforçada por Nabila Popal, diretora sênior de dados e analytics da IDC (International Data Corporation), que projeta o iPhone 18 Pro chegando a US$ 1.299 e o modelo Pro Max atingindo o patamar de US$ 1.399.
Matemática por trás do iPhone 18 Pro traz um salto nos custos de produção puxado pela crise das memórias – Imagem: PixieMe/Shutterstock
Essa estratégia de preços também serve para blindar a saúde financeira da Apple num ano de incertezas. Como explica o especialista em tecnologia e inovação Arthur Igreja ao Olhar Digital, a empresa já prevê uma queda no volume de vendas. “A tendência é que vejamos as pessoas usando os aparelhos por mais tempo, e isso pode se refletir diretamente no volume de vendas, em número de unidades”, disse Igreja.
“Até por isso, aqui nós temos um efeito meio de ‘ovo e galinha’. Ou seja, a Apple já pode antever volumes menores e, por isso, precisa recuperar em faturamento total para preservar os seus resultados”, acrescentou o especialista. “O reajuste é construído de uma maneira em que, mesmo podendo haver uma queda no volume de vendas, ainda assim seja possível preservar os resultados.”
O reajuste é, portanto, uma manobra bem calculada: ao aumentar o valor de cada unidade, a Apple consegue preservar seu faturamento total mesmo vendendo menos iPhones. A ideia é garantir que o resultado final da companhia permaneça estável apesar do cenário de escassez global.
Impacto no Brasil
No Brasil, o cenário é mais desafiador devido ao chamado por Igreja de “efeito cascata”. Quando o custo de fabricação sobe cerca de US$ 200 no exterior, esse valor não chega aqui de forma direta; ele é aumentado pela carga tributária e custos de importação. Como o mercado brasileiro não é o foco principal da Apple para sustentar seu faturamento global, a empresa tem menos flexibilidade para absorver esses custos. Isso deve empurrar os preços dos novos modelos Pro para patamares recordes no país.
Para piorar a situação, o lançamento do iPhone 18 em setembro de 2026 ocorrerá num momento de instabilidade interna: o auge do “estresse eleitoral”. Segundo o especialista em inovação, as eleições presidenciais no Brasil historicamente pressionam o câmbio, o que faz o dólar subir quando os novos produtos da Apple são anunciados.
Encontro entre “inflação da IA” lá fora e enfraquecimento do real no Brasil deve criar barreira financeira que pode dificultar o acesso à nova geração de iPhones – Imagem: Evolf/Shutterstock
Devemos ter os novos lançamentos em meados de setembro, logo no auge do estresse eleitoral, que tende a pressionar o câmbio. Esses fatores acontecendo de forma concomitante não ajudam em nada.
Arthur Igreja, especialista em tecnologia e inovação, em entrevista ao Olhar Digital.
Esse encontro entre a “inflação da inteligência artificial” lá fora e o enfraquecimento do real por aqui cria uma barreira financeira que pode dificultar o acesso à nova geração de aparelhos. Em outras palavras: o resultado prático dessa combinação é que o consumidor brasileiro deve demorar ainda mais para trocar de celular.
De acordo com Igreja, a fidelidade à marca continuará existindo, mas ela se manifestará de forma diferente: “O efeito de as pessoas levarem mais tempo para trocar de aparelho vai se esticar ainda mais”. Ou seja, a expectativa é que a compra de um novo iPhone vire um investimento de longuíssimo prazo.
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Artigo originalmente publicado em
olhardigital.com.br