Enquanto a maioria das grifes aposta em bordados, plumas e cristais para impressionar na Semana de Alta-Costura de Paris, a holandesa Iris van Herpen prefere recorrer à física, à biologia e à arquitetura. Não por acaso, seu desfile costuma ser um dos mais aguardados do calendário da moda.
Na temporada de outono-inverno 2026/27, realizada entre os dias 6 e 9 de julho na capital francesa, a estilista voltou a monopolizar as conversas. Ela apresentou, na última segunda-feira, 6, o Helix Nebula, considerado o primeiro vestido de alta-costura a incorporar plasma. O elemento é conhecido como o quarto estado físico da matéria.
Batizada de Sonic Starquakes, a coleção buscou inspiração em fenômenos cósmicos, como as vibrações emitidas pelas estrelas, as nebulosas e os campos eletromagnéticos do universo. O vestido, construído com duas estruturas de vidro sopradas à mão preenchidas com plasma, reage ao toque humano. Quando a modelo aproxima as mãos da peça, o corpo funciona como um condutor do campo elétrico, fazendo com que filamentos luminosos se movimentem dentro do vidro.
"Quando a moda permanece dentro da própria bolha, ela deixa de responder ao mundo", afirmou a estilista em entrevista à Vogue America durante a abertura de sua retrospectiva no Brooklyn Museum, em maio deste ano. Para ela, a moda deve dialogar constantemente com a ciência, a natureza e a tecnologia.
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Quem é Iris van Herpen?
Nascida em 1984, na pequena cidade de Wamel, nos Países Baixos, Iris van Herpen cresceu cercada pela natureza. Ainda criança, observava insetos, plantas e o movimento da água, elementos que mais tarde se transformariam em uma das maiores fontes de inspiração de suas coleções.
Antes de estudar moda, dedicou anos ao balé clássico. A experiência desenvolveu seu olhar para o movimento do corpo, aspecto que continua presente em praticamente todas as suas criações. Em vez de desenhar roupas apenas para serem observadas, Iris busca criar peças que se transformam conforme a pessoa caminha, gira ou respira.
Ela se formou pela ArtEZ University of the Arts, uma das principais escolas de design da Holanda, e, logo depois, estagiou no ateliê do estilista britânico Alexander McQueen. A passagem foi breve, mas decisiva.
Em 2007, aos 23 anos, Iris abriu sua própria maison, em Amsterdã. Quatro anos depois, tornou-se membro convidada da Chambre Syndicale de la Haute Couture, entidade responsável pelo calendário oficial da alta-costura em Paris, um reconhecimento reservado a um grupo bastante restrito de estilistas.
Iris van Herpen tem 42 anos - Imagem: Wendelien Daan
A pioneira da impressão 3D na moda
Se hoje tênis, bolsas e acessórios produzidos por impressão 3D já aparecem com frequência na indústria da moda, há quinze anos essa tecnologia ainda era praticamente restrita à engenharia. Foi Iris van Herpen quem ajudou a mudar esse cenário.
Na coleção Crystallization, por exemplo, apresentada em 2010, a estilista levou para a passarela vestidos produzidos com impressão 3D. Em vez de utilizar a tecnologia para acelerar a fabricação das peças, ela a empregou para construir formas impossíveis de serem reproduzidas manualmente.
Desfile Crystallization, Iris van Herpen, em 2010 - Imagem: Divulgação
Desfile Sympoiesis, Iris van Herpen, 2025 - Imagem: Divulgação
Os vestidos pareciam crescer sobre o corpo como esqueletos e estruturas de cristal. O feito colocou seu nome definitivamente no mapa da moda internacional.
Apesar da fama de "estilista da impressão 3D", Iris costuma fazer uma ressalva importante: a tecnologia nunca substituiu o trabalho artesanal. Ela, inclusive, já explicou que cerca de 80% do trabalho realizado em seu ateliê continua sendo feito à mão. Algumas peças, inclusive, levam mais de seis meses para ficarem prontas.
Um laboratório em vez de um ateliê
Diferente de muitas maisons, o estúdio de Iris van Herpen funciona quase como um centro de pesquisa. Ao longo da carreira, a estilista, inclusive, trabalhou com profissionais de diferentes áreas em suas coleções. Entre eles, arquitetos, matemáticos, engenheiros, físicos, artistas digitais, especialistas em robótica e pesquisadores do CERN, o maior laboratório de física de partículas do mundo.
Essas parcerias deram origem a vestidos feitos com fibras de carbono, resinas, silicone, ímãs, vidro soprado, tecidos ultraleves e materiais biotecnológicos.
"Arte e moda sempre dialogaram ao longo da história. Precisamos continuar esse diálogo. Precisamos desse espaço dentro da moda para experimentar, ampliar os limites e trazer a ciência e a inovação para a criação", afirmou a estilista em entrevista ao WWD antes da apresentação de sua coleção deste ano.
Celebridades como Beyoncé, Lady Gaga, Björk e Naomi Campbell, por exemplo, também ajudam a popularizar seu trabalho vestindo peças em tapetes vermelhos.
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Moda que termina nos museus
Em vez de chegar às vitrines, muitas de suas criações acabam incorporadas aos acervos de museus. Entre eles o Metropolitan Museum of Art, o Victoria and Albert Museum e, mais recentemente, o Brooklyn Museum, que inaugurou neste ano uma grande retrospectiva dedicada à trajetória da estilista.
Quem deseja comprar um vestido Iris van Herpen não o encontrará em lojas físicas pois a marca não possui boutique própria. Ela produz todas as peças sob encomenda em seu ateliê, em Amsterdã, onde sua equipe confecciona cada criação de acordo com as medidas da cliente.
Peça de Iris van Herpen em exibição no Brooklyn Museum, em Nova York - Imagem: On White Wall/Paula Abreu Pita/ Brooklyn Museum
Algumas peças também aparecem em plataformas especializadas na revenda de artigos de luxo. Os preços, para um vestido Iris van Herpen pode começar em US$ 30 mil a mais de US$ 100 mil dólares (cerca de R$ 150 mil a R$ 516 mil).
Diferentemente de gigantes do luxo, como Hermès e Dior, a Iris van Herpen não divulga seu faturamento. O modelo de negócios da maison também foge do padrão do setor. A alta-costura responde pela maior parte das vendas, enquanto a marca não mantém linhas permanentes de prêt-à-porter nem de acessórios.
A plataforma de inteligência comercial Prospeo.io estima uma receita anual de US$ 3,6 milhões (cerca de R$ 20 milhões) para a grife. Segundo a empresa, a maison conta com uma equipe de 21 a 50 funcionários. Como a Iris van Herpen não divulga resultados financeiros, os números são apenas estimativas. The post Iris van Herpen: conheça a estilista que transformou impressoras 3D em máquinas de alta-costura appeared first on Seu Dinheiro.