Astrônomos do Observatório Europeu do Sul (ESO) identificaram novos indícios sobre a origem do cometa interestelar 3I/ATLAS após analisar sua composição química com o Very Large Telescope (VLT), no Chile, e identificar sinais de que sua idade é superior à do nosso Sol.
A pesquisa, publicada na revista Nature Astronomy, examinou proporções de isótopos presentes no gás ao redor do objeto e indicou que o cometa provavelmente nasceu nas regiões externas de um antigo sistema estelar com baixa quantidade de elementos pesados.
Os resultados sugerem que o visitante cósmico, terceiro objeto interestelar já identificado, pode ter mais que o dobro da idade do Sol. A descoberta amplia o conhecimento sobre corpos formados fora do Sistema Solar e sobre ambientes planetários muito antigos.
Análise química revela pistas sobre a origem de um visitante de outra estrela
O cometa interestelar 3I/ATLAS visto por meio dos filtros vermelho (exibido em laranja) e violeta (em azul) da câmera JANUS. No filtro vermelho, o núcleo é mais compacto e revela duas caudas; já no violeta, o brilho se expande, mas apenas uma cauda se destaca. A diferença visual ocorre porque partículas de gás e poeira refletem a luz em diferentes comprimentos de onda. – ESA / Divulgação
O 3I/ATLAS chamou a atenção dos pesquisadores por ser o objeto interestelar mais brilhante já observado, condição que permitiu uma investigação detalhada de sua composição. Diferentemente dos dois primeiros objetos desse tipo encontrados, o 1I/ʻOumuamua e o 2I/Borisov, esse cometa ofereceu condições favoráveis para medições mais precisas.
A equipe liderada por Cyrielle Opitom, pesquisadora da Universidade de Edimburgo, no Reino Unido, utilizou o instrumento UVES, instalado no VLT do ESO, para medir a relação entre diferentes formas de carbono e nitrogênio presentes em moléculas de cianeto no material liberado pelo cometa.
Essas proporções isotópicas funcionam como registros das condições existentes no local onde um cometa se formou. Como tendem a permanecer estáveis durante sua viagem pelo espaço, elas permitem comparar a origem de diferentes corpos celestes.
De acordo com Aravind Krishnakumar, pesquisador do Instituto STAR da Universidade de Liège e integrante do estudo, o 3I/ATLAS apresenta características químicas incomuns quando comparado aos cometas conhecidos do Sistema Solar. “Ao contrário dos cometas do nosso Sistema Solar, este visitante interestelar apresenta proporções isotópicas de carbono e nitrogênio excepcionalmente elevadas”, afirmou o pesquisador.
Outra investigação, conduzida por uma equipe ligada ao Centro de Voo Espacial Goddard da NASA e publicada na revista Nature, encontrou sinais semelhantes ao analisar dados do Telescópio Espacial James Webb. O trabalho também identificou uma quantidade elevada de deutério, uma forma de hidrogênio conhecida como hidrogênio pesado.
Sol do Sistema Solar – (Crédito da imagem: NASA/SDO)
As análises reunidas indicam que o 3I/ATLAS pode ter se formado em uma região distante de um sistema associado a uma estrela antiga de baixa metalicidade. Esse tipo de estrela possui poucos elementos mais pesados que o hélio em sua composição e é relacionado a períodos em que o Universo era menos enriquecido quimicamente.
Segundo Rosemary Dorsey, pesquisadora da Universidade de Helsinque e coautora do estudo, o cometa representa uma oportunidade para investigar a composição de outro sistema planetário, formado antes do surgimento do Sol e da própria estrutura planetária conhecida pela humanidade. “O 3I/ATLAS é uma oportunidade realmente empolgante para estudar a composição de outro sistema planetário, um que se formou muito antes do nosso Sol e do Sistema Solar existirem”, declarou a pesquisadora.
Os pesquisadores afirmam que as evidências obtidas por diferentes grupos apontam para uma idade superior a duas vezes a do Sol. A observação desse objeto, porém, está se tornando mais difícil à medida que ele se afasta da estrela e perde brilho.
O ESO informou que o VLT está próximo do fim das observações do 3I/ATLAS, mas destacou que o futuro Telescópio Extremamente Grande (ELT) poderá permitir estudos semelhantes em novos objetos interestelares, inclusive aqueles menos luminosos.
Para Cyrielle Opitom, o campo de pesquisa sobre objetos vindos de outros sistemas ainda está em fase inicial e cada nova descoberta pode revelar características inesperadas. A pesquisadora destacou que os cientistas ainda não sabem completamente o que esperar desses visitantes cósmicos. O post Lembra do 3I/ATLAS? Visitante interestelar tem novos segredos revelados apareceu primeiro em Olhar Digital.