A cerca de 100km de Curitiba, a Lions Startups aposta que inovação também pode nascer fora dos grandes centros. Longe do circuito tradicional de hubs como São Paulo e Rio de Janeiro, a venture builder sediada em Ponta Grossa (PR) projeta reunir ao menos 100 startups sob seu guarda-chuva nos próximos cinco anos.
Segundo André Paixão, CEO da Lions Startups, o primeiro ano de operação, em 2023, foi dedicado a testar o modelo de negócio por meio de um programa de capacitação. Em seguida, a empresa concentrou esforços na estruturação da governança e, em 2026, entrou em uma nova fase, voltada à expansão.
A prioridade agora é ampliar o portfólio de startups — um desafio que, segundo André, passa por superar as limitações de estar fora dos principais polos de inovação do país. “Nossa posição geográfica não é tão favorável”, afirma o executivo, referindo-se à distância entre Ponta Grossa e a capital paranaense.
Para fortalecer o ecossistema local, a Lions vem ampliando parcerias com instituições de ensino, como a Universidade Federal do Paraná (UFPR), e apostando na participação em eventos para ampliar sua visibilidade. Nos últimos meses, André representou o Brasil em uma feira de inovação na Índia e participou de encontros sobre cibersegurança em Dubai.
De acordo com o CEO, apesar de estar fora dos principais polos de inovação do país, Ponta Grossa reúne características que favorecem o desenvolvimento de novos negócios. O município abriga operações de multinacionais, é um dos principais polos cervejeiros do país e mantém forte tradição no agronegócio da região dos Campos Gerais.
A estrutura física da Lions comporta até 200 startups incubadas. A meta é ocupar ao menos metade dessa capacidade em cinco anos. Entre os desafios para acelerar esse crescimento, André cita o cenário macroeconômico. Com a Selic em patamar elevado, investimentos de renda fixa permanecem mais atrativos do que aplicações em negócios de inovação. “Qualquer negócio que envolva inovação tem grau de risco”, afirma. Para o executivo, a falta de incentivos governamentais também limita o desenvolvimento do setor.
Modelo de negócio
Para André, o diferencial da Lions em relação às incubadoras tradicionais está no modelo de remuneração. Em vez de cobrar aluguel pelo uso da estrutura, a empresa oferece quatro frentes de apoio — infraestrutura física e tecnológica, banco de talentos, programa de mentoria e conexão com investidores-anjo e fundos de investimento — em troca de 10% de participação societária nas startups incubadas.
“Se nós funcionássemos como corretora imobiliária, seria muito mais fácil manter esse espaço”, afirma o CEO. Para ele, parte dos ambientes de inovação acaba operando apenas como locação de escritórios. Na Lions, as startups passam por uma avaliação baseada em um “tripé de viabilidade” — jurídica, econômica e tecnológica — antes de ingressarem no programa.
Como, em regra, a empresa não realiza aportes financeiros nas startups, André afirma que a participação de 10% busca equilibrar risco e alinhamento de interesses. “Nosso propósito realmente é crescer e arriscar juntos”, diz. A venture builder opera exclusivamente com capital privado.
Um dos pilares do modelo é o Lions Dev, programa gratuito e presencial de formação em tecnologia criado para abastecer as startups incubadas com profissionais qualificados. O curso, batizado de Zero ao Herói do Código, seleciona cerca de 56 alunos por turma, distribuídos nos períodos da manhã, tarde e noite, totalizando aproximadamente 170 participantes por edição.
A formação dura seis meses, com aulas presenciais de segunda a quinta-feira, quatro horas por dia, e inclui assistência psicológica gratuita. Segundo André, a proposta vai além do ensino de programação. “A gente trabalha negócio, mapa de empatia, persona e inteligência emocional”, afirma. Para o executivo, mesmo com os avanços da inteligência artificial, a combinação entre habilidades técnicas e comportamentais continuará sendo um diferencial para os profissionais.
Construindo o portfólio
Entre as empresas mais maduras da carteira está a Vida Exames, rede de análises clínicas que já comercializou 140 unidades em diferentes regiões do país e projeta encerrar 2026 com faturamento anual de R$ 100 milhões. Outro destaque é a Acerte Aqui, plataforma de autonegociação de dívidas que conecta consumidores a mais de 2 mil empresas e instituições credoras.
Também fazem parte do portfólio a System Face, plataforma de gestão para clínicas de estética e saúde; a Sauvvi Tech, voltada à conexão de pacientes com redes de atendimento; a ION Brasil, especializada em marketing, automação e inteligência digital; e a Hulp Aulas, plataforma de aulas particulares sob demanda.
Além da incubação, a Lions promove iniciativas para fortalecer o ecossistema empreendedor da região, como edições do Startup Weekend realizadas em Ponta Grossa. Com capital totalmente privado e um modelo ainda em consolidação, a venture builder aposta que a distância dos grandes centros de inovação pode ser compensada pelo fortalecimento do ecossistema regional, que, para o CEO, ainda tem amplo espaço para crescer.
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