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Macacos também sentem o 'vale da estranheza' diante de avatares quase reais

Redação Recifes
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Macacos também sentem o 'vale da estranheza' diante de avatares quase reais

Um fenômeno há muito estudado na psicologia humana acaba de ganhar um capítulo inesperado na ciência animal. Pesquisadores da Universidade de Tübingen, na Alemanha, em parceria com colegas da KU Leuven, na Bélgica, demonstraram que macacos rhesus também são afetados pelo chamado "vale da estranheza" — a sensação de desconforto provocada por representações visuais que se aproximam do real, mas não chegam lá. O estudo foi publicado na revista PLOS Biology e abre um novo campo de investigação sobre a percepção social em primatas.

Para chegar a essa conclusão, os cientistas desenvolveram uma ferramenta inédita capaz de gerar animações tridimensionais completas de macacos, incluindo movimentos corporais detalhados. Os avatares criados variavam em grau de realismo — de versões claramente estilizadas até representações altamente fiéis à anatomia real dos animais. Ao exibir essas animações para os macacos, os pesquisadores monitoraram o comportamento dos primatas para identificar sinais de atração ou evasão diante de cada tipo de avatar.

Os resultados foram reveladores: os animais demonstraram preferência por avatares estilizados ou por imagens de macacos reais, mas apresentaram reações de esquiva e inquietação justamente diante das animações mais realistas, porém imperfeitas. Esse padrão de comportamento espelha exatamente o que acontece com seres humanos quando expostos a robôs ou personagens digitais que parecem quase vivos — uma resposta instintiva de estranhamento que os especialistas chamam de "uncanny valley", ou vale da estranheza em português.

A importância científica da descoberta está no fato de que ela amplia nossa compreensão sobre a origem evolutiva dessa resposta perceptual. Até então, acreditava-se que o fenômeno fosse exclusivo da cognição humana, possivelmente ligado à nossa capacidade de reconhecimento facial sofisticada. Agora, com evidências de que macacos compartilham essa sensibilidade, os pesquisadores sugerem que o mecanismo pode ter raízes muito mais antigas na evolução dos primatas, funcionando talvez como um sistema de alerta para identificar indivíduos doentes, mortos ou comportamentos sociais anômalos.

Para as ciências do comportamento animal, o avanço metodológico também é significativo. A ferramenta de animação 3D desenvolvida no estudo poderá ser usada em pesquisas futuras sobre comunicação entre animais, dinâmicas sociais em grupos de primatas e até no desenvolvimento de tecnologias de monitoramento comportamental em ambientes controlados. Compreender como diferentes espécies processam informações visuais sobre seus semelhantes é um passo fundamental para aprimorar tanto o bem-estar animal quanto as práticas de manejo em contextos científicos e zootécnicos.

Artigo originalmente publicado em phys.org
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