Existe uma distância considerável entre os valores que declaramos ter e os comportamentos que adotamos no dia a dia. No campo da educação infantil, essa contradição se torna especialmente visível: uma pesquisa recente conduzida pelo Instituto Futuro é Infância Saudável (Infinis), em parceria com a Quaest, revelou que 91% dos brasileiros apontam a conversa como a principal estratégia para corrigir comportamentos de crianças. Apesar disso, práticas como gritos e violência física seguem presentes no cotidiano de muitas famílias.
O fenômeno não é novo, mas os dados dão concretude a algo que especialistas em desenvolvimento infantil vêm alertando há décadas: saber o que é ideal não garante que conseguiremos colocar em prática. Fatores como estresse, exaustão, ausência de suporte emocional e a repetição de padrões herdados da própria criação influenciam diretamente a forma como adultos respondem aos desafios cotidianos com crianças. O resultado é que a violência — mesmo quando não intencional — acaba sendo utilizada como atalho diante da sobrecarga.
Do ponto de vista do desenvolvimento, as consequências são bem documentadas. Crianças expostas a ambientes marcados por gritos frequentes ou punições físicas tendem a apresentar maiores índices de ansiedade, dificuldades de regulação emocional e prejuízos na relação de confiança com os cuidadores. O paradoxo é cruel: os mesmos adultos que desejam o melhor para seus filhos acabam, em muitos momentos, reproduzindo experiências que sabem ser prejudiciais.
O caminho para reduzir esse abismo passa, necessariamente, pela educação dos próprios educadores. Programas de parentalidade positiva, redes de apoio comunitário e acesso a serviços de saúde mental são pilares fundamentais para que o discurso do diálogo deixe de ser apenas intenção e se transforme em prática consistente. Enquanto a sociedade tratar a violência doméstica como um problema privado, dificilmente conseguiremos avançar de forma estrutural.
Pesquisas como esta têm um papel essencial: tiram do silêncio um problema que persiste justamente porque é vivido entre quatro paredes. O Brasil que defende o diálogo em pesquisas precisa, com urgência, criar as condições reais para que esse diálogo aconteça — com escuta, com paciência e, sobretudo, com o suporte que famílias vulneráveis ainda esperam receber.