Quem já estudou geografia no ensino médio provavelmente aprendeu que o Brasil é um país de planaltos, planícies e chapadas — sem montanhas de verdade. Essa visão, enraizada nos livros didáticos há gerações, acaba de ser oficialmente revisada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A mudança pode parecer técnica à primeira vista, mas carrega implicações profundas para a forma como entendemos o próprio território nacional.
O nó da questão está na definição. Por muito tempo, o conceito de montanha adotado pela geografia brasileira exigia que um relevo apresentasse altitude absoluta superior a 1.000 metros e, ao mesmo tempo, uma diferença de altura em relação ao entorno — a chamada altitude relativa — que superasse os 300 metros. Com esse critério restrito, formações como a Serra da Mantiqueira, a Serra do Mar e até o Pico da Neblina, ponto culminante do Brasil com quase 3.000 metros de altitude, acabavam sendo classificadas de forma imprecisa ou encaixadas em categorias inadequadas. Geógrafos e geólogos discordavam entre si, e o país ficava, no papel, sem montanhas.
A nova classificação do IBGE flexibiliza e moderniza esses parâmetros, incorporando critérios mais alinhados com os padrões internacionais e com a diversidade geomorfológica real do território brasileiro. A revisão reconhece que o relevo do Brasil é mais complexo e variado do que a categorização tradicional permitia expressar. Isso significa que conjuntos como a Mantiqueira e trechos da Serra Geral passam a ser oficialmente reconhecidos como montanhas — uma realidade que qualquer pessoa que já visitou essas regiões percebe instintivamente ao contemplar os picos envoltos em névoa.
A importância dessa decisão vai além da semântica. A classificação oficial do relevo impacta diretamente políticas públicas de uso do solo, preservação ambiental, planejamento urbano e até estratégias de turismo. Regiões montanhosas demandam cuidados específicos quanto ao risco de deslizamentos, manejo de bacias hidrográficas e proteção de biodiversidade. Reconhecê-las formalmente como o que são é o primeiro passo para tratá-las com a devida atenção científica e institucional.
O episódio também serve de lição sobre como o conhecimento científico funciona: não como um conjunto fixo de verdades, mas como um processo contínuo de revisão e refinamento. Durante décadas, uma definição importada e mal adaptada à realidade local moldou a percepção coletiva sobre a própria terra. Agora, com critérios mais precisos e culturalmente coerentes, o Brasil pode, finalmente, olhar para suas serras e dizer, sem reservas: sim, temos montanhas.