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O novo sistema elétrico já começou

Redação Recifes
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O novo sistema elétrico já começou
Foto: Claiton Conto / Pexels

Introdução 

O Brasil já não enfrenta apenas o desafio de produzir energia suficiente. O novo dilema é garantir que essa energia chegue ao lugar certo, no momento necessário e na quantidade adequada para manter o sistema elétrico em equilíbrio. 

A expansão da geração distribuída, das fontes renováveis intermitentes, dos sistemas de armazenamento e dos novos padrões de consumo está mudando a forma como a eletricidade circula pela rede. O consumidor deixou de ser apenas o destino final da energia: passou a produzi-la, armazená-la e, em alguns casos, devolvê-la ao sistema. Com isso, uma infraestrutura concebida para fluxos previsíveis e unidirecionais precisa lidar com uma operação muito mais dinâmica e descentralizada. 

Ampliar a geração e construir novas redes continuam sendo tarefas essenciais, mas já não bastam. O setor passa a depender da capacidade de coordenar geração, consumo, armazenamento e recursos distribuídos, respondendo rapidamente às oscilações entre oferta e demanda. 

Nesse contexto, a flexibilidade energética ganha relevância. Mais do que uma tecnologia específica, ela representa a capacidade de adaptar o sistema elétrico às mudanças na geração e no consumo sem comprometer a segurança, a eficiência e a qualidade do fornecimento. 

O sistema elétrico mudou: da geração centralizada à rede distribuída 

Durante décadas, a rede elétrica brasileira foi estruturada sobre uma lógica relativamente linear: grandes usinas concentravam a geração, redes de transmissão transportavam eletricidade em larga escala, distribuidoras realizavam sua entrega e o consumidor ocupava o papel de destino desse fluxo. Esse desenho unidirecional, baseado em uma divisão clara entre geração, transmissão, distribuição e consumo, garantiu previsibilidade à operação do setor por muito tempo. 

A partir da regulamentação da micro e minigeração distribuída pela ANEEL, em 2012, e da redução dos custos da energia solar, esse modelo começou a mudar de forma acelerada. Em julho de 2026, segundo a Agência, o Brasil já contava com 4,53 milhões de sistemas de micro e minigeração distribuída conectados à rede, somando mais de 50 GW de potência instalada. A dimensão desse crescimento mostra que a descentralização deixou de ser um fenômeno pontual e passou a integrar a operação cotidiana do sistema elétrico. 

Essa transformação altera não apenas a origem da energia, mas também a forma como ela circula pela rede. Consumidores podem produzir eletricidade, armazená-la, ajustar seu consumo e, em determinadas condições, devolvê-la ao sistema. Essa nova dinâmica amplia sua capacidade de escolha e introduz novas variáveis na relação entre clientes, distribuidoras e infraestrutura elétrica. 

Para Letícia Dantas, diretora de Inovação do Grupo Energisa, essa evolução altera a própria lógica de gestão do setor: “Historicamente, o setor energético brasileiro se constituiu olhando para um modelo de geração centralizado. Na última década, o cenário mudou. O desafio agora é administrar um sistema construído numa lógica de fluxo unidirecional em um contexto totalmente complexo, dinâmico, diverso e distribuído.” 

Essa transformação também muda a forma de planejar e operar a rede. Se antes a principal resposta ao crescimento da demanda era ampliar fios, transformadores, alimentadores e capacidade instalada, agora se torna igualmente estratégico utilizar melhor a infraestrutura existente. Mais do que expandir a rede, será preciso coordenar, em tempo real, os diferentes recursos conectados a ela. 

A inteligência por trás do novo sistema elétrico 

Coordenar milhões de recursos distribuídos exige novas capacidades operacionais. Entre elas, a mais importante é a flexibilidade energética: a capacidade de manter oferta e demanda em equilíbrio em uma rede cada vez mais distribuída, variável e complexa. 

Como explica Letícia Dantas: “A flexibilidade energética é sobre como conseguimos equilibrar oferta e demanda dentro do sistema energético, para evitar que exista oferta sem uma demanda capaz de acompanhá-la, o que pode comprometer o funcionamento do sistema.” 

O armazenamento é um dos mecanismos mais diretos para alcançar esse equilíbrio, pois permite deslocar a energia no tempo. Baterias armazenam eletricidade em momentos de alta geração e baixo consumo e a devolvem ao sistema quando a demanda aumenta, contribuindo para aliviar congestionamentos, integrar fontes renováveis variáveis e reduzir a necessidade de acionar recursos mais caros nos horários de pico. 

Mais do que uma solução de backup, o armazenamento pode substituir ou complementar praticamente todos os componentes do sistema elétrico. O relatório The Future of Energy Storage, do MIT Energy Initiative, aponta que ele pode atuar na geração, na transmissão e na flexibilidade da demanda. O estudo também defende que sua expansão seja planejada em conjunto com geração limpa, redes de transmissão e estratégias capazes de recompensar consumidores por tornar seu consumo de eletricidade mais flexível. 

O equilíbrio do sistema, porém, não depende apenas do armazenamento. A própria demanda pode atuar como um recurso operacional da rede. Programas de resposta da demanda permitem, por exemplo, que uma indústria seja incentivada a deslocar parte de seu consumo de um horário de congestionamento para outro. 

Segundo Letícia: “A distribuidora pode emitir um incentivo para essa indústria deslocar o seu consumo daquele horário para outro e fazer um pagamento, dar uma bonificação, um prêmio, para ela ajudar a rede.” 

Tarifas inteligentes seguem a mesma lógica, utilizando sinais econômicos para distribuir melhor o consumo ao longo do dia. 

Quando armazenamento, geração distribuída e cargas flexíveis passam a operar de forma integrada, essa capacidade ganha escala. É nesse ponto que entram os agregadores e as Virtual Power Plants (VPPs), estruturas digitais capazes de reunir eletropostos, painéis solares, fazendas solares, baterias e outros recursos distribuídos, coordenando-os como uma única capacidade operacional. Em vez de atuarem de forma isolada, esses recursos passam a responder a comandos capazes de definir quando carregar, descarregar, consumir, reduzir demanda ou despachar energia conforme as necessidades da rede. 

Na definição de Letícia: “Você começa a dar comandos inteligentes para esses ativos funcionarem da melhor forma, buscando equilibrar oferta e demanda, reduzir congestionamentos e melhorar a qualidade da operação.” 

O diferencial das VPPs está justamente em transformar milhares de pequenos ativos, antes isolados, em uma capacidade coordenada e útil ao sistema elétrico. 

Ao integrar armazenamento, gestão da demanda, sinais econômicos e inteligência digital, a flexibilidade energética transforma oscilações de geração e consumo em decisões operacionais. À medida que essa arquitetura ganha escala, também muda o papel de quem planeja, monitora e coordena a rede elétrica. 

Da operação à coordenação do sistema 

A incorporação da flexibilidade energética amplia o papel das distribuidoras. A infraestrutura física continua sendo sua principal responsabilidade, mas já não basta para responder à complexidade de um sistema cada vez mais descentralizado. 

Como explica Letícia Dantas: “A distribuidora sempre vai ter o papel elementar de cuidar do fio, cuidar da rede, garantir qualidade e garantir o funcionamento pleno dos seus ativos. O que acontece é que, nesse novo contexto, começam a surgir novas capacidades.” 

Essa transformação acompanha uma tendência observada internacionalmente. No relatório Electricity 2026, a Agência Internacional de Energia (IEA) afirma que a nova era da eletricidade exige não apenas a expansão das redes, mas também maior flexibilidade para integrar, de forma segura e eficiente, um conjunto cada vez mais diverso de geração, armazenamento e consumo. A agência alerta que mais de 2.500 GW de projetos de geração renovável, armazenamento e grandes cargas, como data centers, aguardam conexão às redes elétricas em todo o mundo. O volume evidencia que o desafio deixou de ser apenas ampliar a oferta e passou a incluir a capacidade de operar redes aptas a acomodar essa transformação. 

Nesse contexto, as distribuidoras passam a coordenar recursos energéticos distribuídos conectados às suas redes, integrar baterias, geração distribuída, eletropostos e outros recursos flexíveis, além de desenvolver capacidades para despachá-los e apoiar o equilíbrio operacional do sistema. Como resume Letícia: “Orquestrar esses recursos energéticos distribuídos que estão se plugando na rede.” 

Essa nova função exige monitoramento em tempo real, automação, plataformas digitais e sistemas avançados de gestão da distribuição (ADMS), capazes de processar dados continuamente e apoiar decisões operacionais. A rede deixa de funcionar apenas como meio de transporte da eletricidade e passa a operar como uma infraestrutura inteligente, na qual dados, algoritmos e ativos físicos atuam de forma integrada para aumentar eficiência, confiabilidade e resiliência. 

A mudança alcança também o planejamento. Em vez de considerar apenas a expansão física da rede, passam a ser avaliados diferentes cenários de operação e alternativas capazes de combinar infraestrutura convencional com armazenamento, resposta da demanda, sensorização e outros recursos flexíveis. 

Como observa Letícia Dantas: “A distribuidora começa a ter que planejar não só esses ativos físicos, mas também cenários alternativos.” 

Essa mesma visão aparece nos estudos da Empresa de Pesquisa Energética (EPE). O Roadmap Tecnológico de Recursos Energéticos Distribuídos, elaborado em parceria com o Itaipu Parquetec, analisa as perspectivas tecnológicas e regulatórias para a difusão desses recursos no Brasil até 2055. A empresa também vem desenvolvendo estudos, metodologias e análises de custos e benefícios para incorporá-los ao planejamento setorial e viabilizar uma integração mais eficiente dos recursos energéticos distribuídos. 

A combinação entre infraestrutura física, inteligência digital e recursos flexíveis redefine a forma de operar e planejar a rede. Transformar essa nova arquitetura em realidade dependerá, porém, não apenas de tecnologia, mas também de inovação, coordenação entre agentes e modelos regulatórios capazes de dar escala a essas soluções. 

Inovação aberta no mercado: como transformar flexibilidade em realidade 

Se as tecnologias necessárias à flexibilidade energética já estão em diferentes estágios de desenvolvimento, o próximo passo é conectá-las aos problemas concretos da rede e acelerar sua transformação em soluções aplicáveis. Isso exige mais do que pesquisa interna: depende da combinação entre conhecimento técnico, experimentação, modelos de negócio e competências distribuídas entre empresas, startups, universidades e centros de pesquisa. 

É nesse contexto que a inovação aberta ganha relevância. Em vez de buscar soluções apenas com recursos internos, esse modelo leva os desafios da empresa ao ecossistema externo, reunindo startups, universidades, empreendedores e outros agentes na construção das respostas. 

Para a flexibilidade energética, essa abordagem permite incorporar conhecimentos e tecnologias já desenvolvidos em outros mercados e acelerar sua aplicação ao setor elétrico. “Quando você convida o ecossistema externo, traz países que já estão mais desenvolvidos na pauta de flexibilidade e soluções que já amadureceram seus produtos, você consegue inovar muito mais rápido”, afirma Letícia Dantas. 

No Reino Unido, essa lógica já chegou às residências. O Demand Flexibility Service, operado pelo National Energy System Operator (NESO), permite que consumidores recebam avisos e incentivos para reduzir ou deslocar o consumo nos períodos em que a rede precisa de maior suporte. Em vez de responder aos picos apenas com o aumento da geração, o sistema passa a coordenar também a demanda, transformando decisões cotidianas de consumo em recursos para o equilíbrio da rede. Experiências com tarifas horárias, medidores inteligentes e usinas virtuais na Austrália e nos Estados Unidos seguem a mesma direção. Mais do que replicar soluções, esses casos mostram como informação, infraestrutura digital e incentivos econômicos podem ser combinados para acelerar a participação ativa do consumidor na operação do sistema. 

Essa aceleração, entretanto, depende também de um ambiente econômico e regulatório capaz de sustentar esse mercado. No Brasil, muitos mecanismos de flexibilidade ainda não contam com sinais econômicos claros ou formas consolidadas de remuneração. Agregadores, baterias, programas de resposta da demanda e outros recursos podem prestar serviços relevantes à rede, mas ainda precisam ter seu valor reconhecido. 

Como observa Letícia: “O mercado de flexibilidade energética no Brasil ainda não está dado. Para esses mecanismos funcionarem, eles precisam ter sinais econômicos; o ativo ou o agregador precisa ser remunerado por prestar esse serviço de ajudar a rede.” 

Mais do que desenvolver novas soluções, o desafio passa a ser definir como serviços ancilares e outras contribuições à operação do sistema serão reconhecidos e remunerados. 

Foi nesse contexto que a Energisa criou, em janeiro de 2026, o Energisa Flex Lab, um ambiente de inovação aberta voltado à flexibilidade energética. Sua primeira chamada recebeu 296 propostas de 13 países; 230 foram qualificadas, 20 avançaram para o pitch day e, a partir dessa seleção, entre cinco e dez soluções seriam escolhidas para receber investimentos e participar do processo de aceleração. 

O laboratório reúne ambientes de experimentação em Palmas e Uberlândia. Em Palmas, baterias, geração fotovoltaica e clientes comerciais são integrados a uma VPP para testar funções de deslocamento de carga e redução de picos. Em Uberlândia, eletropostos conectados a painéis solares e armazenamento utilizam algoritmos de otimização para conciliar custo ao consumidor, utilização dos carregadores e demanda sobre a rede. 

Esses projetos mostram que transformar flexibilidade em mercado exige mais do que desenvolver tecnologias isoladas. É preciso validá-las em condições reais, compreender como consumidores e recursos respondem a novos estímulos e produzir evidências capazes de orientar produtos, modelos de negócio e decisões regulatórias. 

“Inovação é uma ideia boa, que foi bem executada e que gerou resultado. Sem esses três elementos, ela ainda não é inovação”, comenta Letícia. 

A consolidação da flexibilidade energética dependerá não apenas da evolução das baterias, dos algoritmos ou das plataformas digitais, mas também da capacidade de criar incentivos econômicos, reconhecer o valor dos serviços prestados à rede e transformar experiências bem-sucedidas em soluções escaláveis. É nesse encontro entre inovação, regulação e modelos de negócio que se definirá o ritmo de evolução do novo sistema elétrico. 

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Artigo originalmente publicado em mittechreview.com.br
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