Existe uma ironia quase poética no que aconteceu com a economia dos Estados Unidos nos últimos anos: o país que protagonizou boa parte da instabilidade global — com tarifas agressivas, rupturas diplomáticas e políticas econômicas imprevisíveis — foi justamente o que menos sofreu com as consequências. Enquanto Europa, China e economias emergentes cambalearam diante dos abalos, os EUA seguiram em frente com uma resiliência que desafiou as previsões mais pessimistas dos analistas.
Parte da explicação mora em algo que raramente aparece nos noticiários: o tamanho descomunal do mercado consumidor interno americano. Diferente de países como Alemanha ou China, que dependem fortemente das exportações para sustentar o crescimento, os EUA têm uma economia que se alimenta, em grande medida, de dentro para fora. Quando o comércio externo trava, o americano médio ainda vai ao shopping, ainda assina serviços de streaming, ainda compra carro. O motor interno não para.
Há também o papel quase mágico do dólar. Ser a moeda de reserva global é um privilégio que poucos economistas conseguem mensurar com precisão, mas cujos efeitos são concretos: mesmo em tempos de turbulência interna, o mundo continua comprando títulos americanos como porto seguro. Isso significa que os EUA podem financiar déficits com uma facilidade que qualquer outro país invejaria. É como ter um cheque especial que os credores nunca cancelam — e com juros que o mercado global, não Washington, acaba subsidiando.
O setor de tecnologia também funcionou como um escudo invisível. Enquanto tarifas complicavam a vida de fábricas e importadores, gigantes como Nvidia, Apple, Microsoft e uma constelação de startups continuaram acumulando valor e criando empregos bem remunerados. A economia digital americana é tão dominante que opera em uma espécie de dimensão paralela, imune a boa parte das disputas comerciais físicas. Chips, softwares e serviços em nuvem cruzam fronteiras sem precisar de contêiner.
Mas talvez o dado mais curioso seja este: a própria imprevisibilidade do governo Trump pode ter, paradoxalmente, estimulado certos setores. A ameaça de novas tarifas acelerou decisões de investimento que estavam na gaveta, e alguns fabricantes estrangeiros anteciparam compras nos EUA com medo do que viria pela frente. O caos, nesse caso, funcionou como um acelerador acidental. É o tipo de desfecho estranho que a economia — ciência que adora surpreender — adora produzir quando ninguém está esperando.