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À primeira vista, esta edição parece falar de dragões e super-heróis (de novo!). Mas, curiosamente, os dois principais assuntos da semana acabaram levando para lugares bem diferentes. Um deles fez pensar sobre guerra. O outro, sobre pertencimento.
Nesta edição, te convidamos a prestar atenção aos subtextos das histórias que acompanha, seja em filmes, seja em séries. Entre batalhas em Westeros, uma kryptoniana tentando encontrar seu lugar no Universo e algumas estreias para colocar na lista do fim de semana, reunimos histórias que dizem muito mais do que parece à primeira vista.
A mensagem sombria na guerra de A Casa do Dragão
No universo criado por George R. R. Martin, dragões servem como metáfora de armas nucleares – Imagem: Reprodução
“Se isso foi uma vitória, espero não ver outra”. É a primeira coisa que ouvimos Corlys Velaryon (Steve Toussaint) dizer após ser encontrado. Sentado em cima de um baú numa praia, rodeado de escombros, cadáveres, sua neta Baela Targaryen (Bethany Antonia) e seus filhos bastardos Addam (Clinton Liberty) e Alyn de Casco (Abubakar Salim), ele encara seu castelo em chamas no horizonte. E decide dar o que lhe resta aos irmãos: seu sobrenome. Para Alyn, isso vale mais do que uma montanha de ouro.
O custo da vitória deve permear os episódios da terceira temporada de A Casa do Dragão. Ouso apostar que será o “tema geral” desta parte da adaptação do livro Fogo & Sangue, de George R. R. Martin, para as telas. Mas não, este não é, ao meu ver, o subtexto desta série. É o tema do subtexto. Vamos por partes.
De maneira bem sucinta, subtexto é a mensagem por trás de coisas que acontecem numa história. Podem ser falas, olhares, atitudes. Subtextos também são explorados pelas decisões criativas de quem conta a história – por exemplo: no jeito que compuseram as cenas, que enquadraram os envolvidos, que encadearam os acontecimentos na edição (se você quiser mergulhar nesse assunto, recomendo esse vídeo publicado pelo editor Gaveta no YouTube).
A Casa do Dragão, como toda boa obra, tem muitos subtextos. Eu poderia escrever, talvez, 15 textos explorando eles. Mas, por questões de tempo e espaço, vou focar no subtexto que, para mim, é o maior da série: guerra nuclear. Neste spin-off de Game of Thrones, os dragões servem como alegoria para bombas nucleares.
Para quem não sabe: alegoria é quando algo serve como metáfora de alguma faceta da realidade. Em A Casa do Dragão, dois “times” estão em guerra: os Verdes e os Pretos. Ambos têm dragões no seu arsenal.
Se você chegou até aqui neste texto, talvez esteja pensando que eu viajei na análise. Na verdade, estou apenas puxando sua atenção para o que cabeças pensantes por trás da série disseram. “Você apenas perde ao usar armas nucleares”, disse Loni Peristere, em entrevista ao podcast oficial da série (esse “episódio bônus” você encontra na HBO Max, Spotify e Apple Podcasts). Ele dirigiu o primeiro episódio da terceira temporada de A Casa do Dragão. E falou isso justamente ao comentar sobre a Batalha da Goela, onde tantos morreram – inclusive, Jacaerys Targaryen, filho mais velho de Rhaenyra. No time dos Pretos, Jace era o herdeiro do Trono de Ferro.
O showrunner da série, Ryan Condal, também comentou sobre isso. “Algo que a série aborda (…) é a ideia de que existem armas nucleares em jogo”, disse Condal, durante um painel no ATX TV Festival, ocorrido em Austin, no Texas, em 28 de maio – 24 dias antes da estreia da terceira temporada. “E armas nucleares dos dois lados.”
“É um impasse clássico de Guerra Fria, com garantia de destruição mútua”, acrescentou o showrunner. No caso do período histórico, os países não dispararam suas armas nucleares um contra o outro. Apenas ameaçaram fazer isso. Já na história escrita por Martin (e adaptada por Condal para TV), as armas foram disparadas algumas vezes. E muita gente morreu carbonizada. Eis o subtexto de guerra nuclear.
Rhaenyra Targaryen chega ao trono deixando pegadas de sangue – Imagem: Divulgação
Emma D’Arcy, que interpreta Rhaenyra Targaryen, também falou sobre isso recentemente. Quando o jornalista James Cimino perguntou se D’Arcy concordava que Game of Thrones servia como metáfora para uma guerra nuclear, a reposta recebida por ele foi: “Algumas ideias estratégicas são bem parecidas [a uma guerra nuclear].”
“Me refiro a pensar no armamento extremo como um fator de dissuasão e nas questões que, de certa forma, assombram a série, como o momento em que se decide usar esse armamento”, continuou Emma. “Será que ele serve apenas como ferramenta diplomática, no contexto da destruição mútua assegurada? Sim, acho que essa análise faz todo o sentido.”
Em seguida, Emma D’Arcy levanta o seguinte ponto: “Acredito que uma pergunta que a série levanta é o quanto uma população civil deve sofrer durante uma campanha militar.”
“É uma questão que me parece extremamente pungente nos dias de hoje”, finaliza. E recomendo você deixar essa observação ali no cantinho da sua mente quando assistir aos próximos episódios da série. Se revisitar o segundo, repare na sutileza de Rhaenyra encarar o Trono de Ferro enquanto está com os dois pés numa poça de sangue com formato parecido a um mapa (de Westeros?). Em seguida, ela anda até a bendita cadeira. Atrás de si, pegadas de sangue. Na poça vermelha e viscosa, o reflexo da sua retomada do trono.
(E sim, George R. R. Martin já confirmou que os dragões em seu universo são uma metáfora direta para armas nucleares.)
Supergirl e o peso de um lar perdido
No filme, Clark Kent (Superman) insiste para que Kara fique na Terra, mas ela diz não ter um povo – Imagem: Divulgação
Uma das pequenas metas que coloquei para mim neste ano foi voltar a ir ao cinema com mais frequência. No último domingo (28), a escolha foi Supergirl. Saí da sessão com a sensação de que o filme fala menos sobre os poderes da Kara e mais sobre o que acontece quando alguém perde tudo aquilo que a definia.
Boa parte dessa construção acontece por causa dos flashbacks. Para mim, eles são o grande acerto do filme. Não estão ali apenas para mostrar Krypton ou contextualizar a destruição do planeta. Eles ajudam a construir uma personagem. Kara (Milly Alcock) lembra da família, da infância, da língua que falava, do lugar onde cresceu e das pessoas que perdeu.
Essa escolha muda completamente a forma como enxergamos a protagonista. Quase toda história de origem de super-herói acompanha alguém descobrindo quem é. A de Kara faz o caminho contrário. Quando ela chega à Terra, já sabe quem é. O problema é que o lugar onde essa identidade foi construída deixou de existir.
É uma diferença importante em relação ao Superman. Clark (David Corenswet) cresceu na Terra. Para ele, este planeta sempre foi casa. Kara chega depois, carregando lembranças de um lugar que nunca deixou de considerar seu lar. Talvez seja por isso que ela nunca consiga enxergar este mundo da mesma forma que o primo.
Essa diferença aparece em vários momentos, mas gosto especialmente da conversa entre os dois logo no começo do filme. Clark insiste para que Kara fique na Terra. Ela responde que não tem um povo. Inclusive, o trailer do filme escolheu destacar esse momento. A frase ficou na minha cabeça durante toda a sessão porque o filme inteiro parece lembrar que Kara não perdeu apenas um lugar. Ela perdeu a família, a cultura e o futuro que imaginava para si.
A atuação de Milly Alcock ajuda muito a vender essa ideia. A Kara dela está longe da heroína impecável que costuma aparecer em adaptações de super-heróis. Ela bebe, toma decisões impulsivas, guarda ressentimentos e passa boa parte do filme tentando esconder a própria dor atrás de sarcasmo. Em vez de suavizar essas características, o roteiro faz questão de abraçá-las.
A relação com Ruthye (Eve Ridley) também funciona por esse motivo. As duas perderam praticamente tudo e passam boa parte da história discutindo o que fazer com essa dor. Kara tenta convencer a garota de que a vingança não vai trazer sua família de volta. Só que, quando chega a hora da decisão final, é Ruthye quem consegue seguir em frente. Kara, não. Achei uma escolha bastante corajosa do roteiro. Ela não transforma a protagonista num exemplo moral. Apenas aceita que essa personagem ainda tem feridas que talvez nunca cicatrizem.
Nem tudo funciona tão bem. A trama envolvendo Krem (Matthias Schoenaerts) e o tráfico de mulheres me pareceu exagerada em alguns momentos. Isso acaba tornando o vilão menos interessante do que poderia ser. Ruthye também segue um caminho relativamente previsível e, em boa parte do tempo, existe mais para provocar mudanças na Kara do que como uma personagem com conflitos próprios. Já o Lobo (Jason Momoa) é divertido, mas às vezes parece entrar em cena mais para preparar o futuro da DC do que por necessidade da história sendo contada. Do presente deste universo cinematográfico, portanto.
Ainda assim, saí do cinema pensando muito mais na protagonista do que nas cenas de ação. Faz tempo que um filme de super-herói não me fazia querer acompanhar uma personagem simplesmente porque achei interessante passar mais tempo com ela. E acho que esse é o maior acerto de Supergirl. O filme entende que Kara não precisa ser parecida com o Superman para funcionar. Pelo contrário: ela fica muito mais interessante justamente quando abraça tudo aquilo que a torna diferente.
Otras cositas más sobre filmes e séries
Falando em Supergirl, sua estreia foi o primeiro grande baque da versão repaginada do universo cinematográfico da DC. O filme passou longe de decolar nas bilheterias, abrindo com magros US$ 37,1 milhões (aproximadamente R$ 193 milhões) na América do Norte e US$ 62,6 milhões (R$ 326 milhões) mundo afora. O grande problema (para os donos do dinheiro, pelo menos) aparece quando olhamos para a conta: a produção custou US$ 170 milhões (R$ 885 milhões) e exigiu mais US$ 120 milhões (R$ 625 milhões) de investimento em marketing. Para você ter ideia, isso significa que o longa precisaria faturar entre US$ 300 milhões (R$ 1,5 bilhão) e US$ 375 milhões (R$ 1,9 bilhão) só para se pagar. Com esse começo morno, a projeção é de um prejuízo amargo que pode chegar a US$ 100 milhões (R$ 521 milhões), o que deixa os planos de James Gunn e Peter Safran numa situação bem delicada (e me lembra essa célebre frase do cineasta veterano do DCU, Zack Snyder).
Agora, uma notícia completamente oposta à anterior: a cinebiografia Michael, dirigida por Antoine Fuqua, se tornou a maior bilheteria de uma cinebiografia na história do cinema. Arrecadando US$ 977 milhões (pouco mais de R$ 5 bilhões) globalmente desde sua estreia em abril, o longa desbancou o antigo campeão Oppenheimer, que sustentava o recorde com US$ 975 milhões (também pouco mais de R$ 5 bi). Além de garantir o posto de maior sucesso de todos os tempos para a distribuidora Lionsgate, o estouro nas bilheterias foi tão grande que Hollywood já dá como certo o anúncio de sequências muito em breve.
Para fechar, um pouco de tecnologia misturada com cinema. A caótica novela corporativa do Vale do Silício ficou mais perto de chegar às telonas com Artificial, novo filme do diretor Luca Guadagnino (Rivais) sobre a OpenAI. Em negociações avançadas para ser comprado pela distribuidora Neon (a mesma de O Agente Secreto), o longa de US$ 40 milhões (R$ 208 milhões) vai focar no famoso episódio em que Sam Altman foi demitido e recontratado da empresa num piscar de olhos. Mas o que está chamando a atenção são os bastidores do roteiro: fontes que já leram o texto dizem que Altman (interpretado por Andrew Garfield) é retratado como desonesto, enquanto Elon Musk (vivido por Ike Barinholtz) aparece como alguém antipático. Pelo visto, a produção não vai poupar ninguém.
Cinema, investigação e literatura se encontram nas estreias de quinta-feira (02) nos cinemas. Tem homenagem inusitada à sétima arte; um novo olhar para um período traumático na história do Brasil e do mundo; e, para fechar, um mergulho numa mente brilhante, mas perturbada. Confira abaixo três destaques entre filmes que chegaram às telonas nesta semana:
Os ajudantes mais caóticos da cultura pop estão de volta com uma carta de amor inesperada à Era de Ouro de Hollywood. Em Minions & Monstros, o criativo James sonha em dirigir seus próprios filmes na transição do cinema mudo para o falado. Mas liberta, acidentalmente, uma gangue de criaturas dispostas a destruir o mundo. Para salvar o dia (e a própria sétima arte, diga-se), os Minions precisam capturar os monstros enquanto encenam o roteiro de James. Codirigido e coescrito pelo veterano Pierre Coffin, que também dubla os Minions, o longa tem potencial para fisgar crianças e adultos. Os pequenos em férias escolares provavelmente vão se divertir com as trapalhadas dos ajudantes amarelos. Já os acompanhantes adultos podem acabar prestando atenção (e rindo) “demais” em paródias de clássicos como Cidadão Kane e Tempos Modernos.
Ok, vamos falar sério agora. Para quem busca uma dose forte de realidade, uma boa pedida é o documentário Anatomia do Caos. Com direção de Dandara Ferreira, o longa traz um acesso inédito e exclusivo aos bastidores do Senado durante a histórica CPI da Covid-19. Para quem não lembra: a comissão investigou a condução da maior crise sanitária do país, marcada por milhares de mortes e enxurradas de desinformação perigosa. O filme vai além dos flashes da TV e transforma registros de corredores, reuniões fechadas e embates tensos num retrato sobre poder e responsabilidade. A produção pode te ajudar a entender melhor os bastidores e as feridas de um período que marcou o Brasil para sempre.
Para fechar esta lista de destaques com um toque de drama e alta literatura, indico a cinebiografia Franz, que mergulha na mente de um dos escritores mais influentes do século 20. Dirigido pela veterana polonesa Agnieszka Holland, o longa humaniza Franz Kafka ao ir além dos livros. O longa retrata desde a infância do escritor, em Praga, até sua morte precoce aos 40 anos. A trama equilibra o cotidiano maçante de Kafka num escritório de seguros com seus romances intensos e a sufocante relação com seu pai autoritário. O resultado é o retrato sensível de um homem que ansiava por uma vida comum, mas cujo mundo interior acabou moldando os rumos da literatura moderna.
Também acabou de chegar…
Elle — primeira temporada da série do universo de Legalmente Loira estreou no Prime Video;
Enola Holmes 3 — filme de mistério estrelado por Millie Bobby Brown estreou na Netflix;
X-Men ’97 — os primeiros três episódios da segunda temporada da produção da Marvel Animation estrearam no Disney+;
Sobrevivendo em Grande Estilo — terceira e última temporada da série estreou na Netflix;
Mamonas Assassinas: O Filme — filme brasileiro chegou ao catálogo da HBO Max.
O que chega aos streamings nesta semana
O que esperar para a próxima semana nos streamings?
Eu Vi o Brilho da TV — filme de terror e mistério sobre um adolescente obcecado por um misterioso programa de TV estreia no Prime Video neste sábado;
The Ghost in the Shell — anime cyberpunk baseado no clássico mangá de Masamune Shirow estreia no Prime Video na próxima terça;
Thunder 3 — anime sobre três amigos que embarcam em uma busca por uma garota desaparecida e acabam envolvidos em uma aventura de ficção científica estreia na Netflix na próxima quarta;
Uma Casa na Pradaria — nova adaptação da clássica série de livros de Laura Ingalls Wilder estreia na Netflix na próxima quinta.
O Drama — comédia romântica estrelada por Zendaya e Robert Pattinson estreia no Prime Video na próxima sexta;
Christy: Um Novo Round — cinebiografia estrelada por Sydney Sweeney sobre a trajetória da boxeadora Christy Martin estreia na HBO Max na próxima sexta.
Sugestões e críticas podem ser enviadas para [email protected] e [email protected]. Até a próxima sexta! Bom fim de semana!
Ana Luiza Figueiredo e Pedro Spadoni
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