A recente decisão do governo dos Estados Unidos de enquadrar PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas reacendeu discussões sobre soberania, cooperação entre países e os limites da atuação extraterritorial. O tema é relevante, mas a controvérsia diplomática não resolve o principal desafio prático: impedir que estruturas criminosas circulem com facilidade pelo mercado financeiro.
O foco mais urgente deveria estar na prevenção. Facções de grande porte não dependem apenas de armas e território; elas precisam de fluxo de caixa, ocultação patrimonial e canais para transformar recursos ilícitos em ativos aparentemente legítimos. É nesse ponto que falhas de controle, compliance e monitoramento podem fazer toda a diferença para a expansão do crime organizado.
Em um sistema financeiro cada vez mais digital e integrado, a supervisão precisa ser mais ativa e inteligente. Isso inclui rastrear operações incompatíveis com o perfil do cliente, detectar empresas de fachada, cruzar dados entre instituições e reagir rapidamente a sinais de pulverização de valores, uso de laranjas e movimentações atípicas em fintechs, bancos e meios de pagamento.
O debate, portanto, não se resume a rotular organizações no exterior. O verdadeiro teste para o Brasil está na capacidade de Banco Central, COAF, Receita Federal, órgãos de persecução penal e instituições privadas atuarem de forma coordenada, com tecnologia, velocidade e rigor. Sem supervisão preventiva robusta, o crime encontra brechas para operar com aparência de normalidade.