Entre múltiplas contas, crédito fácil e orçamento no limite, famílias expõem a distância entre inovação financeira e controle do dia a dia | Foto: Canva *Diana Narváez, líder de investimentos da Flourish Ventures na América Latina
Se você quer entender a vida financeira de uma pessoa, precisa sentar-se com ela e ouvir. Certa tarde, fui a Pirituba, bairro de classe média na Zona Norte de São Paulo, com esse propósito. Lá, muitos moradores enfrentam longos deslocamentos diários para trabalhar em diferentes regiões da cidade, equilibrando orçamentos apertados e o aumento do custo de vida, enquanto tentam fechar as contas no fim do mês.
Letícia* trabalha como diarista. É mãe solo de três filhos com menos de 10 anos. Ela mora em uma pequena casa de um quarto que herdou dos pais, o mesmo lugar onde nasceu e cresceu. Enquanto conversávamos sobre contas, dívidas e crédito, sua filha de cinco anos estava deitada no chão ao nosso lado, concentrada em um jogo no celular da mãe.
Era uma tarde comum. Mas momentos como esse revelam algo importante: a vida financeira raramente se parece com uma planilha. Ela se desenrola em conversas, escolhas e decisões cotidianas que as famílias tomam para manter tudo funcionando.
Essa visita fez parte de um esforço amplo. No ano passado, 27 membros da equipe global da Flourish Ventures visitaram famílias em São Paulo que vivem de salário em salário para entender como organizam suas finanças, lidam com dívidas, acessam crédito e equilibram os gastos do dia a dia.
Fomos para ouvir. E essas conversas deixaram uma marca duradoura na forma como penso sobre fintech e bem-estar financeiro no Brasil — tanto em relação às necessidades diretas das pessoas com quem falamos quanto à infraestrutura necessária para atendê-las.
Além da bolha da Faria Lima
Na Flourish, investimos em founders que estão construindo um sistema financeiro que realmente funcione para pessoas e empresas. Como a maioria dos investidores, passo muito tempo pensando em frameworks: teses, modelos, tendências de longo prazo. Meu trabalho é olhar adiante e tentar entender para onde o mundo está indo, para que possamos investir antes disso acontecer.
Sentar-se na sala da casa de alguém é um lembrete poderoso de que as finanças estão profundamente enraizadas no cotidiano. É fácil ficar preso à bolha da Faria Lima e perder a perspectiva sobre o que realmente importa para a maioria dos brasileiros. Ouvir como as famílias de fato gerenciam seu dinheiro me obrigou a encarar a distância entre os produtos financeiros e a realidade.
Os founders que constroem as empresas de maior impacto geralmente conhecem essa lacuna de perto. Eles resolvem problemas que já viveram.
A digitalização da vida financeira cria oportunidades
Há dez anos, quando a equipe da Flourish realizou esse exercício pela primeira vez, o Brasil ainda estava nos estágios iniciais da digitalização financeira. Havia poucos bancos, transferências eram caras e o acesso ao crédito era restrito a uma pequena parcela da população.
Hoje, a realidade é bem diferente. As pessoas com quem conversamos têm várias contas bancárias e acesso fácil a elas por meio de aplicativos. Seus rendimentos são depositados digitalmente. Pagar contas e transferir dinheiro para amigos e familiares é imediato, barato e simples.
A infraestrutura financeira digital pública do Brasil, como o Pix, além de programas governamentais, vem ampliando o acesso a serviços bancários, crédito e ferramentas financeiras digitais. Em uma das casas, uma mulher contou que planeja entrar na faculdade junto da filha, algo que antes parecia fora de alcance. Com o salário sendo pago digitalmente, maior facilidade de acesso a crédito e custos mais baixos para gerenciar e movimentar o dinheiro, ela conseguiu planejar melhor o futuro e investir em si mesma. Foi um exemplo pequeno, mas poderoso, de como a infraestrutura digital pode ampliar oportunidades e ambições.
Digitalização é um meio, não um fim
Apesar da forte presença de produtos financeiros digitais, muitas dessas famílias de renda média ainda enfrentam dificuldades financeiras. Para elas, nem sempre é fácil perceber benefícios concretos do banco digital.
Letícia, por exemplo, tem meia dúzia de contas bancárias. Cada vez que começa em um novo emprego, precisa abrir conta no banco indicado pela empresa. Esse acesso não simplificou sua vida financeira. Pelo contrário: ela precisa administrar seis contas e evitar tarifas.
Por outro lado, o banco digital lhe trouxe ganho de tempo. Em vez de gastar uma hora indo e voltando para descontar um cheque, ela consegue receber o dinheiro automaticamente na conta. Ela valoriza esse tempo extra que pode dedicar aos filhos.
Ampliar o acesso pode gerar oportunidades, mas também introduzir novas barreiras.
Acesso por si só não basta. As pessoas precisam de protagonismo
Um ponto recorrente nas conversas foi a preocupação constante com o acúmulo de dívidas. Muitos dos novos produtos financeiros pressupõem um nível de educação financeira que nem sempre existe. Inclusão sem autonomia pode, no fim, fragilizar a estabilidade das famílias.
Porque quando alguém não entende como usar um produto, o uso inadequado se torna fácil. Mesmo sem más intenções, isso pode levar a um ciclo de endividamento.
Em um mercado saturado de aplicativos, bancos e soluções financeiras, o que ainda é escasso são ferramentas que ajudem as famílias a organizar, priorizar e acompanhar seus compromissos financeiros. Ainda é comum que o orçamento doméstico seja gerido de forma informal, com datas de vencimento guardadas na memória e decisões importantes sendo tomadas em meio à incerteza constante.
Quando a infraestrutura não reduz — ou até aumenta — a carga cognitiva, ela transfere complexidade justamente para quem tem menos condições de lidar com ela. Instituições financeiras e fintechs deveriam focar o desenvolvimento de soluções que simplifiquem a vida financeira. Acertar nisso não apenas melhora os resultados para os usuários, como constrói relações mais sólidas e valiosas no longo prazo.
Graças aos esforços contínuos dos setores público e privado, as perspectivas para o Brasil seguem positivas. Em um período relativamente curto, o país construiu um dos ecossistemas financeiros mais dinâmicos do mundo e continua formando empreendedores capazes de transformar complexidade em soluções práticas.
Os aprendizados dessas conversas nos ajudam a ser mais criteriosos na escolha dos founders que apoiamos. Empreendedores brasileiros estão se tornando uma referência cada vez mais relevante para outros mercados emergentes. Inspirados por eles, seguimos atentos, aprendendo e abertos a novas soluções.
Espero voltar daqui a uma década e ver como colocamos essas lições em prática.
*Nome alterado para proteger a privacidade.
O post O que visitas a lares brasileiros revelam sobre a vida financeira real da classe média apareceu primeiro em Startups.