O verão europeu costuma ser vendido como sinônimo de liberdade, mar aberto e cidades vibrando com visitantes do mundo todo. Mas, em vários países costeiros, a paisagem idealizada esconde um conflito cada vez mais visível: a transformação de praias e áreas públicas em ativos controlados por negócios privados.
Do Adriático ao Atlântico, moradores têm reagido à sensação de que o litoral deixou de servir à comunidade e passou a operar como vitrine para hotéis, beach clubs e concessões que limitam o acesso de quem vive ali. O incômodo não nasce apenas do volume de turistas, mas da forma como a renda gerada pelo setor se distribui, muitas vezes favorecendo poucos e deixando impactos cotidianos para muitos.
Nesse cenário, o debate sobre overtourism precisa ir além da contagem de visitantes. Quando a orla é cercada, os preços sobem e o espaço público encolhe, o turismo deixa de ser uma atividade compartilhada e passa a funcionar como mecanismo de exclusão. O resultado é uma pressão social que aparece em protestos, restrições locais e um crescente desgaste da relação entre população e setor turístico.
O ponto central, portanto, não é demonizar quem viaja, mas questionar um modelo econômico que captura o melhor da costa para maximizar lucro e socializa o restante dos custos. Se a Europa quiser preservar suas praias como patrimônio vivo, terá de enfrentar a lógica de privatização que hoje está por trás de boa parte da crise.