O Vakinha nasceu em 2009, antes mesmo de o termo “crowdfunding” se popularizar por aqui. Entretanto, a startup gaúcha passou por diversos momentos, inclusive flertando com outros mercados além das tradicionais “vaquinhas”. Contudo, 17 anos depois, a empresa está determinada a ficar com sua essência, focando em sua tese de impacto.
“A gente surgiu antes do termo crowdfunding, então a gente falava muito em fundraising mesmo. O nosso negócio é levantar dinheiro para a pessoa que está precisando, para várias causas”, resume Luiz Felipe Gheller, fundador e CEO, em conversa com o Startups.
O comprometimento com as “raízes” do negócio tem a ver com uma grande fragmentação que o termo “crowdfunding” ganhou ao longo dos anos. Nomes como o Catarse levaram a ideia para o mercado criativo, assim como as plataformas de financiamento de startups (Kria, Captable e outras) fizeram isso no ecossistema empreendedor.
Segundo frisa o CEO, o Vakinha chegou a olhar para todas as novas possibilidades, testou algumas, e decidiu ficar onde sempre esteve. “A gente quer continuar como líder dessa causa mais pessoal. É o que a gente acaba dominando, é onde a gente gera um impacto muito positivo. Se a gente sair fora ou desviar um pouco do rumo, perdemos nossa essência”, afirma.
A escala dá o tamanho da liderança: são cerca de 2 mil novas vaquinhas criadas por dia, mais de 500 mil doações por mês e uma base com mais de 15 milhões de usuários. O faturamento, esse, Gheller prefere não abrir, e a justificativa diz muito sobre o negócio. “O impacto que a gente tem na sociedade acaba sendo maior do que o negócio em si. Quando vêm os números, desvirtua um pouco a conversa”, diz.
O Pix quase tirou o Vakinha do jogo
Contudo, para se manter vivo, o Vakinha teve que se adaptar a importantes inovações, inclusive algumas que ameaçaram seu modelo de negócio. Aliás, uma dessas ameaças foi o Pix. “Talvez tenha sido o evento que mais tinha potencial de tirar o Vakinha do jogo. O Vakinha era, antes do Pix, a maneira mais fácil de o cara arrecadar e pedir ajuda. Com o Pix, todo mundo tem uma chave fácil de divulgar, o dinheiro cai na hora, sem custo”, reconhece.
A resposta foi abraçar o rival. O volume de vaquinhas criadas chegou a cair, de um pico de 4 mil por dia para as atuais 2 mil, mas o volume financeiro se manteve e segue crescendo. A tese que salvou o negócio, segundo o CEO, foi a reputação. “Eu posso fazer na minha chave Pix, mas eu vou arrecadar mais se eu fizer no Vakinha, porque a galera confia que tem um intermediário”, explica.
O Pix ainda forçou a empresa a acelerar por dentro: o prazo de liberação do dinheiro caiu de 14 para 5 dias, e a IA entrou em campo na análise de risco de campanhas e contribuições. “Cada vez que surge alguma coisa que muda o jogo para nós, a gente tenta estender isso para o usuário também”, diz o CEO.
Para reforçar esse backoffice, a empresa teve que montar uma operação robusta de antifraude, com direito a sistema de denúncias, checagem no resgate do dinheiro e uma guerra diária contra sites clones. “Acho que essa é a principal ameaça atual ao nosso site. A gente derruba centenas de sites clones por semana”, revela.
As enchentes e a marca dos R$ 80 milhões
Se a reputação é o ativo, as grandes campanhas são a vitrine. Na tragédia das enchentes no Rio Grande do Sul, em 2024, o Vakinha virou case nacional da solidariedade: mais de 1,2 milhão de pessoas doaram em uma campanha liderada pelo site. A meta inicial era levantar R$ 5 milhões, mas a campanha superou (e muito) as expectativas: arrecadou cerca de R$ 80 milhões, e o Vakinha teve que aprender em tempo real como lidar com um volume massivo de acessos e doações.
“Para dar conta do volume inédito, nossa decisão foi a de priorizar velocidade e transparência nos repasses. No dia 4, um sábado, já estávamos repassando os recursos e atualizando valores em uma planilha pública. Foi algo que nos deu ainda mais credibilidade”, explica o CEO. A fórmula se repetiu, em escala menor, nas enchentes de Minas Gerais, com mais de R$ 1 milhão arrecadado.
Contudo, Luiz Felipe prefere não se ater aos casos de emergências. “A nossa grande força nunca foram as campanhas de grande porte. Elas são cases. A força está no grande volume das campanhas pequenas, de R$ 2.500, R$ 3.000, R$ 15.000, que acontecem direto”, afirma. O desafio, admite, é engajar sem comoção: “Esses momentos fazem com que o público já esteja sensível. É difícil envolver 15, 20 mil pessoas sem algo muito urgente por trás”.
Novos produtos
É aí que entram os produtos. Para dar impulso a quem não tem um grande círculo de divulgação, a empresa criou o Vakinha Anúncios, que agora ganhou integração com a Meta: de dentro da plataforma, o usuário compra anúncios para rodar no Facebook e no Instagram, com criativos gerados pelo próprio Vakinha e segmentação já testada pela casa.
No mundo físico, os eventos pet viraram outro braço de arrecadação: ONGs que levantavam R$ 5 mil a R$ 10 mil por mês chegam a R$ 30 mil, R$ 40 mil com o empurrão da plataforma.
Há ainda o Instituto Vakinha, criado em 2020, por onde rodam as campanhas próprias, como o Mulheres Transformam, projeto perene que capacita mulheres em situação de vulnerabilidade para gerar renda, com parceiros como Sebrae, BRDE e Ministério Público.
Com os 20 anos do Vakinha no horizonte, o sonho do CEO é menos sobre produto ou aumentos exponenciais de receita. “Nosso grande sonho é que cada pessoa que pensa em doação lembre do Vakinha sempre. Que ele não lembre da gente só quando tem uma urgência, mas sempre que quiser fazer uma doação ou uma arrecadação que envolva mais gente”, diz. E arremata com a responsabilidade de quem virou infraestrutura da solidariedade nacional: “Desde sempre a gente entendeu que, quando o Vakinha fica fora do ar, alguma coisa deixa de acontecer. Alguém fica na mão”.
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