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'Poet core' leva poesia às passarelas e transforma livros em acessório

'Poet core' leva poesia às passarelas e transforma livros em acessório

Se antes o livro era sobretudo um objeto de intimidade, hoje ele também pode funcionar como sinal de identidade. A ascensão do chamado poet core mostra como a literatura foi parar nas passarelas e nas redes sociais, onde capas, citações e poses de leitura passam a compor um repertório visual tão importante quanto o próprio texto.

A tendência bebe da tradição do escritor como personagem público, algo que remete ao dandismo de nomes como Oscar Wilde, mas atualiza esse gesto para a lógica contemporânea da imagem. Não basta ler: é preciso parecer alguém que lê, e essa encenação vira capital simbólico em um ambiente em que estilo e gosto são consumidos quase na mesma velocidade.

Marcas, influenciadores e editoriais de moda perceberam rapidamente o apelo dessa estética. Vestidos, camisas, bolsas e acessórios incorporam versos impressos, tipografias antigas e referências a bibliotecas, enquanto fotografias cuidadosamente produzidas fazem dos livros uma extensão do look. O resultado é um encontro entre cultura e consumo que transforma a leitura em linguagem visual.

Há, porém, uma ambiguidade nesse movimento. Ao mesmo tempo em que aproxima novos públicos do universo literário, o poet core também pode reduzir a obra a superfície, a capa a fetiche e o autor a marca. Ainda assim, o fenômeno revela algo relevante: num mercado saturado de imagens, a literatura continua sendo uma fonte poderosa de desejo, distinção e narrativa pessoal.

Artigo originalmente publicado em redir.folha.com.br
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