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Por que o Brasil precisa cortar a geração de energia quando há eletricidade demais?

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Durante décadas, um dos principais desafios do setor elétrico brasileiro foi garantir energia suficiente para atender ao consumo da população. Hoje, a expansão das fontes renováveis trouxe um cenário diferente: em determinados momentos, o sistema pode produzir mais eletricidade do que consegue absorver com segurança. Nesses casos, o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) pode determinar a restrição temporária da geração de algumas usinas para preservar a estabilidade da rede. O tema ganhou destaque no início de junho, quando o ONS acionou, pela primeira vez, o Plano de Gestão de Excedentes de Energia na Rede de Distribuição. A medida levou distribuidoras a reduzirem temporariamente a geração de pequenas usinas conectadas às suas redes. Em resposta ao Olhar Digital, o ONS afirmou que o plano é uma medida excepcional adotada para o controle da frequência do sistema elétrico. Segundo o operador, o objetivo é prevenir riscos à estabilidade do Sistema Interligado Nacional (SIN) e evitar a perda de controlabilidade da rede em momentos de carga muito reduzida e alta geração distribuída, assegurando a continuidade do fornecimento de energia à sociedade. O operador informou ainda que o plano foi acionado em 7 de junho, um domingo do feriado prolongado de Corpus Christi. Segundo o ONS, a combinação entre a elevada geração de micro e minigeração distribuída, a menor demanda por energia durante o fim de semana prolongado e as baixas temperaturas exigiu a adoção da medida para manter o equilíbrio do sistema elétrico. Mas como um país pode enfrentar problemas justamente quando há energia de sobra? Para responder a essa pergunta, é preciso entender como funciona o sistema elétrico brasileiro, qual é o papel do ONS na operação da rede e por que o crescimento das fontes renováveis trouxe novos desafios para manter o equilíbrio entre geração e consumo de energia. Como funciona o sistema elétrico brasileiro? A energia consumida diariamente por residências, empresas e indústrias pode ser gerada por diferentes fontes, como hidrelétricas, parques eólicos, usinas solares, termelétricas, usinas nucleares e biomassa. Depois de produzida, ela passa por subestações, percorre linhas de transmissão de alta tensão e chega às redes de distribuição, responsáveis por levar a eletricidade até os consumidores. Essa infraestrutura integra o SIN, que atende praticamente toda a carga de energia elétrica do país e permite transportar eletricidade entre diferentes regiões. Segundo o professor de Engenharia Elétrica do Instituto Mauá de Tecnologia, Edval Delbone, essa interligação permite que estados com sobra de geração abasteçam outros onde a demanda é maior. Subestações e linhas de transmissão fazem parte da infraestrutura que permite ao Sistema Interligado Nacional transportar energia entre diferentes regiões e equilibrar geração e consumo em tempo real – Imagem: Paulo Nabas / Shutterstock O sistema elétrico brasileiro é todo interligado. Nós temos quatro subsistemas: Norte, Nordeste, Sudeste/Centro-Oeste e Sul. O que quer dizer isso? É o intercâmbio entre os subsistemas. Vamos supor que está sobrando energia no Nordeste. O Nordeste manda para os demais subsistemas. Se estiver faltando energia no Sul, o Sudeste pode mandar para lá, ou vice-versa. Edval Delbone, professor de Engenharia Elétrica do Instituto Mauá de Tecnologia Na prática, isso significa que a eletricidade consumida pelos brasileiros não vem de uma única usina específica. Como explica Delbone, o sistema funciona como uma grande rede que reúne usinas e consumidores em praticamente todo o território nacional. “É como se fosse um anel, uma rede em anel. Todas as usinas estão conectadas nesse anel e todas as cargas — as indústrias, o comércio e as residências — também estão conectadas nesse anel. Então, sua energia está vindo do país inteiro”, explicou ele. Qual é o papel do ONS na operação do sistema Responsável pela coordenação e pelo controle da operação das instalações de geração e transmissão de energia elétrica do SIN, o Operador Nacional do Sistema Elétrico acompanha, em tempo real, o comportamento da rede para garantir que a oferta e o consumo de energia permaneçam em equilíbrio. O órgão também é responsável pelo planejamento da operação dos sistemas isolados do país, sob fiscalização e regulação da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel). Na prática, isso significa que cabe ao ONS coordenar a operação das usinas sob sua responsabilidade, programar desligamentos para manutenção e restabelecer o sistema após grandes interrupções no fornecimento de energia. Segundo o professor de Engenharia Elétrica do Instituto Mauá de Tecnologia, Edval Delbone, essa atuação é diferente da exercida pela Aneel, responsável pela regulação e fiscalização do setor. “A Aneel faz a regulação do setor e aplica as multas. O ONS é quem opera. Quando tem um blackout, o ONS é quem comanda o restabelecimento”, destaca. O professor explica que esse processo precisa ocorrer de forma coordenada para evitar novos desequilíbrios na rede elétrica. “Você não consegue ligar todas as usinas de qualquer jeito. Liga um gerador, liga uma carga, uma linha de transmissão, uma subestação. Depois liga outro gerador, mais uma carga. Assim vai voltando a geração e o consumidor paulatinamente, de uma forma ordenada.” O planejamento também faz parte da rotina do operador. Antes que uma usina ou uma linha de transmissão seja retirada de operação para manutenção, por exemplo, o ONS avalia se o sistema conseguirá continuar atendendo à demanda sem comprometer a segurança da rede. Se várias empresas pedirem para desligar uma máquina para manutenção, o sistema pode não suportar. Então, o ONS faz esse planejamento. Ele diz quem pode desligar uma máquina naquele fim de semana e quem precisa esperar o outro. Edval Delbone, professor de Engenharia Elétrica do Instituto Mauá de Tecnologia Por que energia demais pode virar um problema A expansão da geração solar e eólica mudou a forma de operar o sistema elétrico do país. Embora as hidrelétricas continuem sendo a principal fonte de geração do Brasil, as novas fontes renováveis ganharam espaço rapidamente na matriz elétrica brasileira. A distribuição da capacidade instalada no país ajuda a entender essa transformação. Embora as hidrelétricas continuem como a principal fonte da matriz elétrica, a participação da geração solar, eólica e da micro e minigeração distribuída cresce rapidamente e deve continuar aumentando nos próximos anos. Evolução da Capacidade instalada no SIN – Junho 2026/ Dezembro 2030. Hidrelétricas seguem como a principal fonte da matriz elétrica brasileira, mas a participação da geração solar, eólica e da micro e minigeração distribuída deve continuar crescendo até 2030 – Imagem: ONS/ PMO Junho/2026 Diferentemente das hidrelétricas, cuja produção pode ser ajustada conforme a demanda, a geração solar e eólica depende das condições climáticas. Isso significa que, em determinados momentos do dia, especialmente quando há muito sol ou vento e o consumo é baixo, o operador tem menos flexibilidade para equilibrar o sistema. Segundo Delbone, a principal diferença entre essas fontes está justamente na possibilidade de controlar — ou não — a quantidade de energia produzida. A hidrelétrica é assim: é como se tivesse uma torneirinha de água. Precisa gerar mais energia? Você abre a torneirinha. Precisa gerar menos? Você fecha um pouquinho a torneirinha. Então, você controla a vazão de água e é fácil controlar. Agora, o sol e o vento você não consegue controlar. E aí está o grande problema. Edval Delbone, professor de Engenharia Elétrica do Instituto Mauá de Tecnologia No dia a dia da operação do sistema, quando a geração solar e eólica aumenta rapidamente, principalmente entre o fim da manhã e o início da tarde, parte das hidrelétricas precisa reduzir sua produção para manter o equilíbrio entre oferta e demanda. Em dias úteis, quando o consumo costuma ser maior, o sistema consegue absorver essa geração com mais facilidade. O desafio aumenta em fins de semana e feriados, quando a demanda diminui e a participação das fontes renováveis passa a representar uma parcela maior da geração. “Durante a semana, quando o consumo é alto, entra bastante geração de energia eólica e solar”, destaca o especialista. “Agora, pega um final de semana, quando o consumo é baixo. É como se as renováveis ficassem quase sozinhas no sistema. Só que chega às 16h ou 17h e o sol vai embora. Para você voltar com as hidrelétricas rapidamente, pode causar uma instabilidade na rede e provocar um blackout.” Esse comportamento é conhecido no setor elétrico como “curva do pato” (duck curve). O fenômeno descreve a necessidade de aumentar rapidamente a geração das fontes controláveis no fim da tarde, quando a produção de energia solar diminui enquanto o consumo volta a crescer. Quando esse desequilíbrio ameaça a estabilidade do sistema, o ONS pode adotar medidas operacionais para preservar a segurança da operação. Foi justamente para lidar com esse tipo de situação que o operador elaborou o Plano de Gestão de Excedentes de Energia na Rede de Distribuição. O que aconteceu em junho e por que o plano foi acionado A preocupação com cenários de excesso de geração não surgiu neste ano. Em novembro de 2025, o ONS encaminhou à Aneel o Plano de Gestão de Excedentes de Energia na Rede de Distribuição. Segundo o operador, o documento estabelece procedimentos para situações em que há previsão de excedente de geração e já não é mais possível reduzir a produção das usinas centralizadas sob sua coordenação. Na ocasião, o ONS ressaltou que a restrição da geração é uma medida técnica de última instância, adotada apenas quando todas as demais alternativas operacionais já foram esgotadas. O objetivo, segundo o operador, é preservar o equilíbrio entre geração e consumo, manter a estabilidade do Sistema Interligado Nacional e evitar desligamentos em cascata que possam comprometer o fornecimento de energia. Foi esse plano que entrou em ação pela primeira vez em 7 de junho de 2026. Em resposta ao Olhar Digital, o ONS informou que a medida foi necessária para equilibrar a elevada geração de micro e minigeração distribuída com a menor demanda por energia registrada durante o domingo do feriado prolongado de Corpus Christi, cenário reforçado pelas baixas temperaturas. Segundo o operador, o plano prevê, entre outras ações, a redução temporária da geração das chamadas Usinas Tipo III — empreendimentos conectados diretamente às redes de distribuição e que não são controlados pelo ONS. A medida busca preservar a estabilidade do sistema quando os recursos disponíveis para controlar a geração centralizada já não são suficientes. A necessidade desse tipo de intervenção tem aumentado nos últimos anos, segundo dados do próprio ONS. O percentual de geração não realizada (GNRa) em usinas eólicas e fotovoltaicas cresceu de 0,1% em 2021 para 20,7% em 2025. Em 2026, até 24 de junho, o índice estava em 17,9%. Fonte: ONS. Dados anuais; 2026 considera o período de 1º de janeiro a 24 de junho – Imagem: Olhar Digital A evolução dos índices mostra que esse tipo de restrição deixou de ser um evento esporádico e passou a ser registrado com frequência crescente na operação do sistema elétrico. Em 2021, a geração não realizada representava apenas 0,1% da geração verificada das usinas eólicas e solares monitoradas pelo operador. Esse percentual passou para 0,5% em 2022, 3,6% em 2023, 9,4% em 2024 e atingiu 20,7% em 2025. Até 24 de junho de 2026, o índice acumulado já era de 17,9%. Mais do que o aumento do volume de restrições, os dados revelam uma mudança em suas causas. Nos primeiros anos, predominavam limitações relacionadas ao escoamento da energia pela rede de transmissão. Com o avanço da geração renovável, cresceram as restrições motivadas por razões energéticas e pela necessidade de preservar a confiabilidade da operação do sistema, indicando uma mudança no perfil dos desafios enfrentados pelo setor elétrico brasileiro. Diante desse cenário, o setor elétrico passou a discutir alternativas para aumentar a flexibilidade do sistema e reduzir a necessidade de restrições de geração. Como o sistema pode se adaptar à nova realidade? O desafio de equilibrar geração e consumo tende a permanecer nos próximos anos à medida que a participação das fontes renováveis continua crescendo. Nos documentos que acompanham o Plano de Gestão de Excedentes de Energia na Rede de Distribuição, o ONS afirma que a medida representa uma primeira etapa de uma estratégia mais ampla para aprimorar a gestão dos excedentes de energia na rede de distribuição. O operador também destaca que o plano foi desenvolvido para ser utilizado apenas em situações pontuais, quando os recursos disponíveis para controlar a geração centralizada já tiverem sido esgotados. A proposta, segundo o ONS, é preservar o equilíbrio entre oferta e demanda e evitar impactos como desligamentos em cascata e instabilidades no fornecimento de energia. Na avaliação do professor de Engenharia Elétrica do Instituto Mauá de Tecnologia, Edval Delbone, uma das tecnologias que podem reduzir a necessidade dessas restrições é o armazenamento de energia em baterias de grande porte, conhecido pela sigla BESS (Battery Energy Storage System). Aquele sol do meio-dia, em vez de expulsar as usinas hidrelétricas, vai para a bateria e as hidrelétricas continuam conectadas ao SIN. Quando chega às 17h, o BESS devolve essa energia para o sistema de uma forma automática. Edval Delbone, professor de Engenharia Elétrica do Instituto Mauá de Tecnologia Segundo Delbone, esse tipo de sistema permite armazenar parte da energia produzida durante os períodos de maior geração solar e eólica para utilizá-la quando a produção dessas fontes diminui, reduzindo a necessidade de desligar temporariamente usinas para manter o equilíbrio da rede. O professor lembra que o governo prevê realizar, ainda neste ano, um leilão de capacidade voltado ao armazenamento de energia, iniciativa que, na avaliação dele, pode estimular a adoção dessa tecnologia no país. Para Delbone, ampliar a capacidade de armazenamento será um dos caminhos para tornar o sistema elétrico mais flexível à medida que a participação das fontes renováveis continuar crescendo. Sistemas de armazenamento em baterias podem guardar o excedente de energia gerado por fontes renováveis e devolvê-lo à rede nos momentos de maior demanda, aumentando a flexibilidade do sistema elétrico – Imagem: 106882997 / Shutterstock As diretrizes do leilão foram publicadas pelo Ministério de Minas e Energia (MME) no início de junho. A proposta prevê a contratação de novos sistemas de armazenamento em baterias, capazes de armazenar energia elétrica e devolvê-la ao sistema quando houver necessidade operativa, contribuindo para a gestão dos excedentes de geração renovável e para aumentar a flexibilidade do SIN. Enquanto novas soluções são discutidas, o ONS afirma que segue atento à nova realidade eletroenergética e trabalhando para garantir a segurança e a eficiência do sistema, de acordo com os procedimentos de rede vigentes. O conjunto de mudanças observado nos últimos anos mostra que o sistema elétrico brasileiro enfrenta o desafio de adaptar uma rede construída ao longo de décadas a uma matriz em rápida transformação e cada vez mais diversificada. O post Por que o Brasil precisa cortar a geração de energia quando há eletricidade demais? apareceu primeiro em Olhar Digital.
Artigo originalmente publicado em olhardigital.com.br
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