A decisão do governo Trump de prorrogar a ordem executiva que mantém a sobretaxa de 50% sobre as exportações brasileiras não surgiu no vácuo. Nos corredores de Washington, aliados próximos à família Bolsonaro vinham fazendo pressão ativa para que os Estados Unidos não recuassem das medidas punitivas — e, mais do que isso, pediam o endurecimento do cerco econômico ao Brasil.
Segundo apuração do portal Negócios & Mercado, mesmo após os americanos anunciarem duas rodadas adicionais de tarifas — de 25% e de 12,5% — sobre produtos nacionais nas últimas semanas, o grupo bolsonarista com trânsito na capital americana continuou sinalizando ao governo Trump que queria mais. A mensagem era clara: as sanções deveriam funcionar como instrumento de pressão política sobre o governo Lula, que responde a processos relacionados à tentativa de golpe de Estado investigada pelo Tribunal Superior Eleitoral e pelo Supremo Tribunal Federal.
O raciocínio desse grupo parte da narrativa, amplamente difundida nos círculos conservadores americanos, de que o Brasil estaria perseguindo Jair Bolsonaro e seus aliados por motivações ideológicas. Essa leitura encontrou terreno fértil em setores da administração Trump, que já demonstrou disposição para misturar política externa com disputas internas de países aliados quando isso serve aos seus interesses.
Para o setor produtivo brasileiro, o cenário é preocupante. A manutenção das alíquotas elevadas compromete a competitividade de exportações estratégicas — de commodities agrícolas a produtos manufaturados — e pode aprofundar o déficit na balança comercial bilateral. Empresários ouvidos pela reportagem alertam que a indefinição prolongada afeta o planejamento de contratos e investimentos de médio prazo.
O episódio revela uma dimensão nova e delicada da crise tarifária: o risco de que divergências políticas domésticas brasileiras sejam usadas como alavanca por grupos com influência em Washington para moldar a política comercial americana. Enquanto diplomatas tentam abrir canais de negociação, a articulação paralela de atores não governamentais segue colocando obstáculos à normalização das relações entre os dois maiores países das Américas.