Mergulhar no mar austral do Estreito de Magalhães sob sensação térmica de 3 graus abaixo de zero, em pleno inverno, por si só e sem contexto algum, poderia ser tratado como loucura. Uma bobagem, daquelas de gelar a alma só de pensar. Mas não para 7.500 pessoas que, segundo o prefeito Claudio Radonich, entraram na água e exatamente às 15h19 do dia 27 de junho, na gelada cidade antártica de Punta Arenas, na Patagônia chilena.
Todos juntos, inclusive o próprio prefeito de Punta Arenas, invadiram as águas congelantes no curioso — e já tradicional por lá — Chapuzón del Estrecho. O evento que integra as Invernadas de Punta Arenas, na região de Magalhães, e virou um trunfo para o turismo e para a economia local.
Radonich não fala do evento como quem descreve uma brincadeira de inverno. Ele fala como gestor de uma cidade que entendeu que, no mercado global de viagens, o frio também pode ser ativo econômico e argumento de venda.
“O Chapuzón é parte desta cidade antártica distinta”, afirma o prefeito. “Temos água com 4 graus de temperatura. Ou seja, sua geladeira é mais quente do que a água do Estreito.”
Na cobertura local, o Diario El Pingüino tratou o Chapuzón como o “hito cúspide” das Invernadas de Punta Arenas. Não era apenas uma massa de gente correndo para a água gelada. Era, de acordo com a imprensa magalhânica, uma festa de resiliência, fantasias, bandeiras, música e identidade patagônica, capaz de transformar a Costanera do Estreito em uma celebração cidadã.
O mergulho
Na beira do Estreito de Magalhães, por onde a expedição liderada pelo português Fernão de Magalhães fez, em 1520, a primeira passagem marítima europeia conhecida entre os oceanos Atlântico e Pacífico, moradores, turistas, famílias inteiras e grupos fantasiados se reuniram diante da água gelada até o sinal de largada.
Às 15h19, depois da contagem regressiva, a multidão avançou ao mesmo tempo em direção ao mar, em uma das imagens mais repetidas do inverno magalhânico: gente fantasiada, bandeiras abertas, celulares erguidos, famílias inteiras e grupos de amigos correndo. Tudo para cumprir um ritual que já deixou de ser só uma brincadeira gelada.
Quando a multidão avança, o mergulho dura pouco, “só para tirar as energias ruins do corpo e revigorar a alma”, comenta o prefeito.
O prefeito que entra na água
O próprio Radonich, à frente da municipalidade de Punta Arenas desde 2016, entra todos os anos. Para ele, natural de Temuco, mas radicado há anos na cidade, a entrada no mar gelado tem algo de rito físico e simbólico.
“Faz muito bem. Primeiro, o sal tira a má energia. Segundo, realmente faz bem ao corpo. A pessoa se enche de adrenalina, de energia. E, uma vez que se lança, depois sai e quer entrar de novo.”
A diversão é pular, participar, fazer fotos, rir e voltar para a orla da Costanera de Punta Arenas, onde o vento, o Estreito e a arquitetura da cidade ajudam a compor uma paisagem que não tenta disputar com o Caribe, com o Atacama ou com os lagos andinos. Punta Arenas joga outro jogo. Vende justamente aquilo que a maior parte dos destinos turísticos tenta contornar: frio, isolamento e céu baixo. E água escura. E vento. A sensação física, afinal, de estar perto do limite do continente.
É aí que Radonich aparece como personagem central da história. Ele é anfitrião do Chapuzón e também um agente oficial do turismo de Punta Arenas. Seu discurso junta turismo, Antártica, orgulho local, segurança, hospitalidade e uma leitura muito clara de mercado: a cidade não precisa parecer com outros destinos chilenos para disputar viajantes. Ela precisa ser ainda mais Punta Arenas.
A força do evento, diz Radonich, está menos na coragem individual e mais na imagem coletiva formada na beira do Estreito. “Todos vamos com uma camiseta de uma só cor. Portanto, participamos como um corpo humano gigante que se lança ao Estreito por alguns minutos”, descreve. “É de uma maneira muito ordenada, muito organizada e muito segura.”
Experiência que vale mais que a paisagem
A imagem explica boa parte do que Punta Arenas tenta vender ao mundo. No extremo sul do Chile, jogar-se na água gelada vira uma atividade magalhânica com valor turístico, mas também simbólico e econômico. A proposta é substituir a contemplação pela participação: fazer parte da paisagem, mesmo que por poucos minutos. Mesmo com o corpo inteiro avisando que aquilo não é exatamente natural para quem nasceu em um país tropical.
Nesta edição, de acordo com o prefeito, o Chapuzón reuniu participantes de 16 países, incluindo 50 brasileiros. A ambição agora é projetar Punta Arenas no circuito internacional de experiências em águas geladas.
“Esperamos que seja uma referência no calendário internacional para as pessoas que querem ser parte destas aventuras de nadar em águas muito geladas”, afirma.
Para a imprensa local, esse salto já começou. O El Pingüino descreveu o evento como uma tradição que se consolida ano a ano, atrai turistas interessados em viver uma experiência no “fim do mundo”. O texto reforça ainda Punta Arenas como destino invernal de padrão internacional. É uma leitura importante porque vem de dentro: o Chapuzón aparece não como excentricidade para turista ver, mas como patrimônio urbano e festa familiar.
O arquiteto, fotógrafo e produtor cultural chileno Manuel Fuentes sentiu isso pela segunda vez. Para ele, o Chapuzón nunca se repete. “Sempre é uma experiência nova. Esta é a segunda vez que venho ao Chapuzón”, diz.
Um ano pode ter neve; em outro, chuva. Neste 2026, ele conta que o frio parecia menos agressivo, mas o vento seguia lá, lembrando que o extremo sul do continente não negocia com ninguém. O tempo é um fator imprevisível nos 365 dias do ano.
Um mar, dois climas
O frio, nesse caso, não é vendido como problema, mas como ativo da viagem. “Fora tem sensação térmica de 4 graus abaixo de zero. Para entender: você chega à água e ela não está tão gelada como pensa, porque fora está bastante gelado”, diz Radonich. “Mas há um ambiente de euforia, de muita ansiedade por se lançar.”
Para Manuel, o impacto do Chapuzón também está no contraste com aquilo que o brasileiro costuma imaginar quando pensa no mar. “No Brasil, a associação do mar é com o calor, com a areia, com a festa, com a pele”, afirma. “Aqui é como um festival ou um carnaval, mas no fim do mundo.”
O que muda, de acordo com ele, é a luz, o humor das pessoas, a força do mar e o jeito como a cidade se organiza em torno daquele instante. Manuel descreve a cena como “esse frio que te corta a respiração, mas que junta os gritos de milhares de pessoas”. Na euforia coletiva, segundo ele, o que parecia extremo “acaba abrigando e dando calor”.
Ao redor, milhares de espectadores acompanham da Costanera, incentivando os participantes e ajudando a formar o ambiente que a imprensa local descreveu como uma festa de cor, entusiasmo e tradição. Essa talvez seja a diferença mais importante para compreender o Chapuzón: quem está fora da água também participa. A cidade inteira parece se colocar em volta do Estreito para assistir, rir, torcer e confirmar uma identidade construída justamente onde o inverno seria, para quase qualquer outro destino turístico, baixa temporada.
O inverno como produto turístico
A estratégia de Radonich não se limita ao Chapuzón. O evento abre uma temporada que inclui mais de 15 atividades. Há corrida noturna, atividades culturais, esportivas e inclusive eventos ao ar livre em temperaturas negativas.
Radonich cita o Festival das Luzes, inspirado no festival de Lyon, na França, e diz que a cidade duplicou a quantidade de intervenções nesta edição. Fala também do Carnaval de Inverno, realizado com temperaturas que podem variar entre 3 e 6 graus abaixo de zero, e de uma corrida noturna que explora uma particularidade geográfica local: no inverno, o sol aparece por volta das 10h e se põe depois das 17h.
“Vamos todos com uma luz. Você vê como se fossem 10 mil vagalumes chegando à nossa Costanera”, afirma. Há também uma dimensão prática que pesa na decisão de viagem. Radonich insiste que Punta Arenas é uma cidade segura, organizada e aquecida. O frio está na rua, no vento e no Estreito, não necessariamente dentro dos hotéis, restaurantes e casas.
“Com uma boa parca, uma boa jaqueta, você não terá problemas”, diz. “E também é um lugar extremamente seguro. Isso é muito importante.”
A porta de entrada para a Antártica
O discurso turístico de Punta Arenas ganha outra camada quando Radonich fala da Antártica. A cidade é uma das principais bases logísticas para expedições científicas, militares e turísticas ao continente branco, inclusive para o Brasil.
“Quero lhe contar que o Brasil usa nossa cidade como base para todo o seu trabalho antártico, que é muito intenso durante o verão”, afirma. “Tivemos aqui muitos presidentes, vice-presidentes e ministros que todos os anos vêm acompanhar as delegações científicas e militares do Brasil.”
Para o prefeito, essa relação faz com que a presença brasileira não seja vista como novidade distante, mas como parte da rotina internacional da cidade. Punta Arenas se apresenta como cidade antártica, porto de cruzeiros, base aérea e ponto de partida para um turismo de altíssimo valor agregado.
“Somos a principal porta de entrada para a Antártica”, diz Radonich.
Um caminho para o alto padrão
De acordo com ele, turistas de renda alta têm preferido voar de Punta Arenas até a Antártica para embarcar em cruzeiros a partir da baía. Deste modo, eles evitariam a travessia completa da Passagem de Drake, conhecida pelas condições difíceis de navegação.
“Você está a um pouco menos de duas horas de voo da nossa cidade até a Antártica. Ali pegam esses barcos, ficam uma semana navegando e voltam pela mesma baía para depois seguir ao resto do mundo”, afirma. Radonich diz que mais de 15 mil turistas já optaram por esse sistema a partir de Punta Arenas, com crescimento anual de 20%. O limite, segundo ele, não é a demanda, mas a capacidade e o cuidado ambiental. “É preciso lembrar que todos nós cuidamos da Antártica.”
O perfil desse turista ainda é majoritariamente europeu e norte-americano. Os latino-americanos, diz o prefeito, representam menos de 4%, principalmente brasileiros e mexicanos. É justamente aí que Punta Arenas enxerga espaço para crescer.
“Há muitos brasileiros que vão esquiar em Santiago, em Corralco, em Nevados de Chillán, mas há alguns que foram um pouco mais longe e vieram à nossa cidade”, afirma. “Estamos muito felizes de ver não apenas cientistas brasileiros, mas também turistas como você, que nos dão a oportunidade de apresentar nossa cidade.”
O dente de Daniela Mercury na neve
A relação de Punta Arenas com o Brasil também já rendeu bastidores improváveis. Radonich lembra que, há dois anos, Daniela Mercury foi convidada para o Festival da Patagônia, evento folclórico realizado entre o fim de julho e o começo de agosto na cidade. A cantora foi levada ao centro de esqui durante uma noite de neve, quando ocorria a tradicional descida das tochas.
Foi ali, segundo o prefeito, que a visita ganhou contornos de história local. “Houve um problema. Ela desceu em um trenó, bateu o dente e acabou quebrando um dente. E ela tem um sorriso perfeito”, conta Radonich.
O detalhe que transforma o episódio em anedota magalhânica veio logo depois. “Quero te contar que encontrei o dente na neve”, diz o prefeito.
Em seguida, começou uma operação de emergência em pleno sábado à noite. Entre as pessoas que acompanhavam a atividade havia uma dentista, mas o marido da profissional estava no alto da pista, com a chave do consultório, participando da descida das tochas. “Eu tive que esperar ele descer com as chaves, levá-la até o consultório, e eles se conectaram com a dentista da Daniela em Salvador”, relembra Radonich. O reparo deu certo. Ficou perfeito.”
“Ela é uma mulher encantadora e encantou todos os que estavam naquele ginásio no Festival da Patagônia”, afirma.
Como chegar a Punta Arenas
Para o viajante brasileiro, Punta Arenas parece distante no mapa, mas não exige uma operação complicada. A rota mais direta é sair de São Paulo, pelo Aeroporto Internacional de Guarulhos, em voo para Santiago, e de lá seguir em conexão doméstica até o Aeroporto Internacional Presidente Carlos Ibáñez del Campo, em Punta Arenas.
A LATAM opera voos diretos entre São Paulo e Santiago, com duração aproximada de 4h20. A partir da capital chilena, a companhia também comercializa o trecho Santiago–Punta Arenas, uma rota doméstica que leva em torno de 3h30 a 4h, conforme o voo, o horário e as condições operacionais.
A primeira parte da viagem já entrega um espetáculo próprio. Na aproximação a Santiago, a Cordilheira dos Andes aparece pela janela como uma parede branca e extensa, muitas vezes coberta de neve no inverno. É uma imagem que muda a escala da viagem antes mesmo do desembarque: o avião deixa para trás o Brasil tropical, cruza uma das grandes barreiras naturais do continente e chega a uma capital cercada por montanhas.
A mudança de temperatura também é parte da experiência. Em julho, Santiago costuma ter máximas médias próximas de 15°C a 16°C e mínimas em torno de 3°C a 4°C. No mesmo mês, as máximas médias em Punta Arenas ficam perto de 4°C a 5°C, com mínimas próximas de 0°C e sensação térmica frequentemente puxada pelo vento. Em poucas horas, o passageiro sai do inverno urbano dos Andes centrais e desembarca em uma paisagem austral, mais aberta, mais úmida, mais ventosa e muito mais próxima da Antártica.
Uma dificuldade derretida na neve
O tempo de voo ajuda a desfazer a ideia de que Punta Arenas seja um destino difícil demais. A partir de Santiago, chegar ao extremo sul leva pouco mais tempo do que voar a Calama, porta de entrada para San Pedro de Atacama. O trecho Santiago–Calama fica na casa de duas horas. Já Santiago–Punta Arenas leva cerca de 3h30 a 4h.
A comparação com Pucón também é útil. Para chegar à cidade dos lagos e do vulcão Villarrica, o caminho mais comum é voar de Santiago a Temuco, em cerca de 1h25, e depois seguir por terra por mais 1h30 a 2h até Pucón. Punta Arenas, por outro lado, exige um voo doméstico mais longo, mas entrega o passageiro diretamente na cidade, sem uma etapa terrestre extensa depois do aeroporto.
Na prática, a viagem coloca o brasileiro no extremo sul do continente em menos de um dia: São Paulo, Santiago, Cordilheira dos Andes, conexão doméstica e, por fim, Punta Arenas. O aeroporto fica a cerca de 20 quilômetros do centro. No trajeto até a área urbana, que leva aproximadamente 20 minutos de carro, o vento, as planícies abertas e o céu baixo já antecipam parte da experiência magalhânica.
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