Com a expansão da inteligência artificial, cresce também uma dúvida que já não pertence só aos laboratórios de tecnologia: é saudável deixar que sistemas digitais façam a mediação da saúde? A questão vai além de aplicativos, algoritmos e prontuários eletrônicos. Ela toca diretamente a relação entre pacientes, profissionais e as decisões que definem tratamento, diagnóstico e cuidado.
Nolen Gertz, professor assistente de filosofia aplicada na Universidade de Twente, na Holanda, é um dos nomes que vêm chamando atenção para esse debate. Autor de Nihilism and technology, ele revisita o pensamento de Friedrich Nietzsche para discutir como a tecnologia pode afetar nossa forma de dar sentido à vida, inclusive quando promete organizar e otimizar a experiência de adoecer e se tratar.
Na prática, a presença crescente de ferramentas digitais na saúde pode trazer ganhos importantes, como triagem mais rápida, apoio à gestão de dados e acesso ampliado a informações. Mas também abre espaço para riscos: dependência excessiva de sistemas automatizados, redução do olhar humano e decisões tomadas com base em critérios que nem sempre são transparentes para o paciente.
O ponto central da discussão é que tecnologia não é neutra. Quando ela passa a intermediar o cuidado, também influencia a forma como entendemos o que é saúde, quem responde por erros e qual espaço sobra para empatia, escuta e julgamento clínico. Em tempos de inteligência artificial, a pergunta não é apenas o que a máquina consegue fazer, mas até onde ela deve ir.