Há momentos em que o esporte revela muito mais do que a disputa em campo. Foi o que aconteceu recentemente na Austrália, quando dirigentes da liga de futebol australiano (AFL) e ícones do críquete apareceram sorridentes ao lado do primeiro-ministro indiano Narendra Modi. Para quem torce de arquibancada e acredita que o esporte é um espaço plural, a cena causou desconforto — e abriu uma ferida antiga sobre o que as instituições esportivas realmente entendem por inclusão.
O interesse das federações australianas na Índia não é segredo: o país tem mais de um bilhão de habitantes apaixonados por críquete e uma diáspora enorme espalhada pelo mundo, incluindo a Austrália. Aproximar-se do governo indiano é, antes de tudo, um movimento comercial. Mas quando essa aproximação ignora as críticas que comunidades minoritárias — muçulmanos, sikhs, ativistas de direitos humanos — fazem ao governo Modi, o recado implícito é claro: sua presença é bem-vinda quando ela representa audiência e receita, não quando representa vozes dissonantes.
Esse dilema não é exclusivo da Austrália. No Brasil, o esporte também vive essa tensão permanente entre o discurso da diversidade e as escolhas que as instituições fazem quando interesses financeiros entram em cena. Patrocinadores polêmicos, eventos em países com histórico de violações de direitos, silêncio diante de racismo e homofobia nas arquibancadas — tudo isso revela que a inclusão, muitas vezes, tem prazo de validade e endereço certo.
A questão central não é se federações esportivas devem dialogar com governos estrangeiros. É sobre coerência. Se uma instituição ergue a bandeira da diversidade para atrair torcedores de diferentes origens, ela não pode, no momento seguinte, ignorar as denúncias que essas mesmas comunidades fazem sobre quem ela escolhe como aliado político. A confiança se constrói com consistência — e se desfaz com contradições visíveis demais para serem ignoradas.
O esporte tem um poder único de unir pessoas, criar identidades e abrir espaço para quem historicamente foi excluído. Mas esse poder só é legítimo quando exercido com responsabilidade. Usar a diversidade como vitrine de marketing enquanto se fecha os olhos para o que incomoda não é inclusão — é conveniência. E conveniência, como todo bom torcedor sabe, não sustenta nenhuma equipe por muito tempo.