O debate sobre a remuneração no Judiciário voltou a expor uma contradição incômoda: uma instituição chamada a arbitrar conflitos sociais não pode parecer distante da realidade da maioria. Quando vencimentos, auxílios e parcelas indenizatórias empurram parte da carreira para o topo da pirâmide de renda, a imagem pública da Justiça deixa de ser a de um poder republicano e passa a lembrar a de um grupo corporativo protegido por regras próprias.
Não se trata de negar a importância da magistratura, nem de ignorar a complexidade da função. Julgar exige independência, responsabilidade e remuneração compatível com a relevância do cargo. O problema surge quando a remuneração deixa de ser parâmetro de serviço público e passa a operar como mecanismo de distinção social, aproximando o Estado-juiz da lógica dos executivos melhor pagos do mercado, com benefícios que a população comum não enxerga nem entende.
Esse distanciamento corrói algo mais profundo do que a indignação com salários altos: afeta a legitimidade. Uma Justiça que concentra renda no topo, acumula penduricalhos e resiste a uma prestação de contas clara transmite a ideia de que vale mais como carreira de elite do que como instituição de equilíbrio democrático. E, sem confiança social, nenhuma decisão judicial se sustenta apenas na força formal da toga.
O caminho para recuperar autoridade não passa por retórica corporativa, mas por transparência, simplicidade remuneratória e controle efetivo. Quanto mais compreensível e publicamente justificável for a remuneração de quem julga, maior será a chance de a sociedade enxergar no Judiciário um poder comprometido com o interesse coletivo, e não com a autopreservação de seus próprios privilégios.