Eu aguardava com muita expectativa o 4 de julho e não apenas porque adoro um churrasco à beira da piscina. Neste ano, o feriado americano do Dia da Independência também marcou um importante prazo simbólico para a energia nuclear nos Estados Unidos.
No ano passado, o governo Trump estabeleceu a meta de que três novos microrreatores alcançassem a criticidade, um marco técnico que demonstra que um reator consegue sustentar uma reação em cadeia, até o 250º aniversário do país. E, bem a tempo, quatro reatores conseguiram.
Era uma meta ambiciosa e ver não apenas três, mas quatro empresas alcançá-la certamente é um sinal positivo para as tecnologias nucleares emergentes, no momento em que o mundo enfrenta uma necessidade crescente de ampliar a oferta de eletricidade e combater as mudanças climáticas com tecnologias sem emissões.
Mas alcançar a criticidade não significa que um reator esteja pronto para fornecer eletricidade à rede, ou mesmo para produzir eletricidade. Vamos entender melhor o que o sucesso desse programa pode representar para a energia nuclear nos EUA e quais poderão ser os próximos passos dessas empresas.
O Programa Piloto de Reatores basicamente abriu uma porta especial para que reatores-protótipo acelerassem o desenvolvimento. Em agosto, o Departamento de Energia dos EUA selecionou 11 projetos de reatores para o programa e ofereceu a eles terrenos e apoio do sistema de laboratórios nacionais. Todos são microrreatores; os grandes reatores de água leve que predominam hoje na rede elétrica têm dezenas ou até centenas de vezes o tamanho deles.
A Antares Nuclear foi a primeira a alcançar a criticidade, atingindo o marco em junho, com seu reator de testes Mark-0. Em seguida, vieram os reatores da Valar Atomics, da Deployable Energy e da Aalo Atomics. A Aalo alcançou o marco nas primeiras horas de 4 de julho, um exemplo inspirador de como cumprir um prazo por muito pouco.
A velocidade com que essas empresas atingiram esse marco é impressionante, especialmente em um setor conhecido por projetos gigantescos que frequentemente ultrapassam em muito os prazos e os orçamentos anunciados. A Valar, a Antares e a Aalo foram fundadas em 2023, e a Deployable começou a operar em 2025. Mas alcançar a criticidade e operar um reator capaz de produzir eletricidade são duas coisas completamente diferentes.
Todos esses reatores alcançaram o que se chama de criticidade à potência zero. Basicamente, trata-se de um teste para verificar se é possível iniciar uma reação nuclear em cadeia, sem que o reator produza uma quantidade significativa de energia. “Um teste de criticidade à potência zero pode ser realizado sem que haja um progresso real de engenharia no combustível ou no projeto”, afirmou Kathryn Huff, ex-secretária assistente de Energia Nuclear e chefe do Departamento de Engenharia Nuclear e Física da Engenharia da Universidade de Wisconsin–Madison, em um episódio do podcast Catalyst, no início deste ano.
Agora, com a conclusão desse programa, as empresas precisarão dar continuidade ao trabalho para produzir energia, o que poderá envolver grandes desafios técnicos. Em alguns casos, elas precisarão acrescentar equipamentos importantes, como sistemas de resfriamento para retirar o calor do núcleo do reator.
As empresas projetam cronogramas agressivos para os próximos anos. A Aalo afirma que já começou a trabalhar no segundo reator e planeja produzir 10 megawatts de eletricidade para abastecer um data center instalado no local, em 2027. A Deployable Energy afirma que pretende implantar reatores comerciais até 2028.
Costumo encarar com cautela os cronogramas apresentados por startups, especialmente no setor nuclear. Essas máquinas não são apenas extremamente complexas do ponto de vista técnico, mas também costumam enfrentar problemas que fogem do controle, como desafios regulatórios, algo com que esses novos projetos poderão se deparar em breve.
A Comissão Reguladora Nuclear é responsável pelo uso civil e comercial da energia nuclear nos EUA e, historicamente, o processo de aprovação de reatores nucleares tem sido bastante lento.
No início deste ano, a agência propôs uma nova estrutura para a aprovação de microrreatores, concebida para acelerar o processo, mas ainda não se sabe com que rapidez as coisas avançarão. Também vale observar que alguns especialistas em energia nuclear questionaram se a agência, sob o governo Trump, estaria flexibilizando demais as normas nucleares.
Alguns defensores da energia nuclear não estão comemorando o marco alcançado pelos microrreatores. O foco do governo federal no programa é um “desvio pouco útil” das metas de aumentar de maneira significativa a capacidade nuclear, segundo uma análise da Third Way, um centro de estudos sobre políticas públicas. “Acelerar artificialmente os cronogramas dos projetos é uma solução de curto prazo, não uma correção de longo prazo”, afirma o memorando.
Atingir a criticidade é um primeiro passo importante, mas ainda será necessário fazer muita coisa para que qualquer um desses microrreatores entre em operação e ainda mais para que se tornem uma fonte significativa de eletricidade para a rede.
O post Quatro reatores nucleares atingiram um marco importante nos EUA apareceu primeiro em MIT Technology Review - Brasil.