Qual a importância da acessibilidade quando falamos sobre tecnologia? Para mim, não existe avanço sem inclusão.
Dados recentes apresentados pelo Instituto Nacional de Padrões e Tecnologia dos Estados Unidos (NIST) mostram que a taxa de erro de um sistema de reconhecimento facial pode ser de 1% entre pessoas na faixa dos 20 anos e chegar a 5% entre aquelas com 70 anos ou mais.
Tomando como base o último Censo, em 2022 o Brasil tinha 30.936.186 pessoas entre 20 e 29 anos e 14.292.869 pessoas com 70 anos ou mais. Em um cenário hipotético no qual cada pessoa fosse submetida uma vez ao reconhecimento facial, entendemos que 1% de erro entre os brasileiros de 20 a 29 anos representa cerca de 309 mil falhas, enquanto 5% entre as pessoas com 70 anos ou mais representaria aproximadamente 715 mil falhas.
Tecnologia compulsória para concessão, manutenção e renovação de benefícios da seguridade social federal, assim como para o desbloqueio do benefício do INSS para contratação de empréstimo consignado, o uso do reconhecimento facial pode ser uma barreira de acessibilidade para as pessoas mais velhas.
Ao considerarmos as barreiras de letramento digital enfrentadas por parte da população idosa, percebemos que o uso do reconhecimento facial ultrapassa o simples gesto de “olhar para a tela”. O procedimento exige o cumprimento de comandos como encontrar um ambiente com fundo liso, posicionar corretamente a câmera frontal diante do rosto, aproximar ou afastar o aparelho e realizar diferentes confirmações até o envio da imagem. São etapas cansativas e pouco intuitivas, frequentemente questionadas até mesmo por pessoas mais jovens e habituadas ao uso cotidiano da tecnologia.
O problema não é novo. As discussões sobre racismo algorítmico já demonstraram como bases de treinamento pouco representativas podem comprometer o desempenho dessas tecnologias para determinados grupos. A questão reaparece quando observamos a baixa presença de rostos envelhecidos nesses bancos de dados, o que pode reduzir a precisão dos sistemas. Dificuldades semelhantes atingem, de maneira ainda mais evidente, pessoas negras, indígenas e trans, segundo o Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor.
Para que exista acessibilidade, empresas de tecnologia e organizações que contratam essas soluções precisam investir na modernização dos sistemas, mas também na experiência de quem os utiliza. Isso inclui oferecer orientações mais didáticas, instruções claras e um passo a passo realmente intuitivo, permitindo que pessoas com menor familiaridade digital consigam concluir o procedimento sem depender da ajuda de terceiros.
Em um país marcado pela diversidade racial, étnica, geracional e de gênero, pensar o acesso à tecnologia exige considerar os diferentes rostos que compõem a população brasileira. O avanço tecnológico só pode ser chamado de avanço quando contempla cor, raça, etnia, gênero e idade. Pelo que ainda observamos na prática, estamos longe disso.
O post Reconhecimento facial e idosos: quem a tecnologia deixa de enxergar? apareceu primeiro em Olhar Digital.