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Rolling Stones provam que rock não envelhece quando se recusa a repetir o passado

Redação Recifes
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Rolling Stones provam que rock não envelhece quando se recusa a repetir o passado

Há décadas os críticos apostam na morte dos Rolling Stones. Não pela óbvia questão biológica, mas pela tese de que bandas de rock simplesmente não conseguem permanecer relevantes após determinada idade. O grupo britânico, porém, tem feito questão de desafiar essa lógica com a mesma irreverência que marcou suas primeiras décadas. A morte de Charlie Watts em 2021 pareceu confirmar o que muitos pensavam: a era dos Stones havia definitivamente findado. Mas o lançamento de 'Hackney Diamonds' em 2023 ofereceu um retorno inesperadamente poderoso, provando que relevância criativa não é um privilégio exclusivo da juventude.

O álbum não é um exercício nostálgico. Não se trata daquele disco comum de bandas veteranas que passam décadas garimpando riffs antigos ou recarregando sucessos de antanho com nova roupagem. 'Hackney Diamonds' assume um tom reflexivo mas vibrante, onde Mick Jagger, Keith Richards e os demais membros soam como artistas que ainda têm algo genuíno a dizer. A produção contemporânea dialoga naturalmente com a herança blues e rock and roll que sempre definiram o grupo, sem ceder a tentações de parecer jovem demais ou, igualmente perigoso, jovem demais para sua própria sombra.

Essa recusa em abraçar a nostalgia é, paradoxalmente, a chave para a sobrevivência criativa. Enquanto muitas bandas da mesma geração transformam-se em museus vivos, reencenando o passado em estádios para públicos que querem apenas reviver momentos de sua juventude, os Stones conseguem operar em dois níveis simultaneamente. Reconhecem seu legado sem ficar prisioneiros dele. É uma lição que poucas instituições artísticas aprendem: a relevância não vem de agarrar-se ao que funcionou ontem, mas de encontrar valor no presente.

A jornada do grupo também ilumina questões mais amplas sobre criatividade e envelhecimento nas artes. Por que algumas bandas transmutam-se em relíquias enquanto outras mantêm potência criativa? Parte da resposta está em risco genuíno. Richards e Jagger ainda parecem desafiados pelo ato de fazer música, pelo encontro criativo que a composição e a performance exigem. Não é sobre esmagar recordes de turnês ou arrecadação. É sobre a possibilidade ainda aberta de surpresa, tanto para o artista quanto para quem ouve.

'Hackney Diamonds' é, portanto, mais que um bom álbum de uma banda centenária em termos de carreira. É um manifesto involuntário: a criatividade não respeita cronogramas. Os Rolling Stones permanecem porque seguem questionando-se, porque não acreditam em suas próprias lendas como verdade acabada. Nesse gesto reside uma liberdade rara. Enquanto isso, o rock segue vivo—não apesar da idade, mas porque a idade nunca deveria ser o ponto final de uma conversa criativa que vale a pena continuar.

Artigo originalmente publicado em redir.folha.com.br
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