🌊 Negócios em Emersão  ·  Vamos Emergir?  ·  Cadastre-se e ganhe 50 REC de bônus

Segurança energética em tempos de guerra: o novo eixo de poder global

Redação Recifes
0 visualizações
Segurança energética em tempos de guerra: o novo eixo de poder global
Foto: Quang Nguyen Vinh / Pexels

Download E-mail Enviar O mundo não está vivendo apenas uma nova crise energética. Está assistindo ao surgimento de uma nova geopolítica da energia. Durante décadas, petróleo e gás natural definiram o equilíbrio de poder global. O controle sobre reservas, rotas de transporte e infraestrutura de abastecimento moldou alianças, influenciou conflitos e determinou vantagens econômicas entre países. Hoje, essa lógica permanece relevante, mas passa a coexistir com uma nova dimensão: a crescente dependência da economia global de energia abundante, confiável e competitiva. A escalada do conflito entre Estados Unidos, Israel e Irã tornou essa realidade ainda mais evidente. Com o bloqueio do Estreito de Ormuz, a redução da produção no Oriente Médio e ataques à infraestrutura energética da região, a Agência Internacional de Energia (IEA) revisou drasticamente suas projeções para o mercado global de petróleo. O mundo passou de uma expectativa de superávit para um cenário de déficit, evidenciando como conflitos regionais continuam capazes de produzir impactos sistêmicos sobre preços, abastecimento e estabilidade econômica. Mas a relevância estratégica da energia já não se limita aos combustíveis fósseis. A expansão da inteligência artificial, da computação em nuvem, da mobilidade elétrica e dos data centers está elevando a demanda por eletricidade em escala global. Segundo levantamento da MIT Technology Review Brasil, o consumo de energia dos data centers no país pode mais que dobrar até 2029, passando de 8,2 TWh para mais de 18 TWh anuais. O que está em jogo, portanto, não é apenas segurança de abastecimento. É a capacidade de sustentar crescimento econômico, inovação tecnológica e competitividade em uma economia cada vez mais eletrificada e intensiva em dados. A nova geopolítica da energia amplia as disputas tradicionais por recursos e rotas estratégicas para incluir redes elétricas, armazenamento, infraestrutura digital e capacidade de processamento computacional. Este artigo analisa como a energia voltou ao centro das decisões geopolíticas, por que a transição energética passou a ser também uma estratégia de competitividade e como essa transformação pode redefinir a posição dos países na economia global. 1. Energia como instrumento de poder geopolítico A história da economia moderna é, em grande medida, a história da energia. Do carvão que impulsionou a Revolução Industrial ao petróleo que sustentou a expansão econômica do século XX, o acesso a recursos energéticos sempre esteve associado à capacidade de gerar riqueza, influência e poder. Essa lógica permanece válida, mas assume novas formas. Em uma economia cada vez mais conectada, energia não sustenta apenas indústria e transporte. Sustenta cadeias produtivas inteiras e influencia diretamente a competitividade das nações. Quando a estabilidade energética se torna incerta, os impactos se espalham rapidamente por toda a atividade econômica. Por isso, a influência geopolítica da energia vai além da posse de recursos naturais. Ela envolve também o controle de rotas estratégicas, infraestruturas críticas e sistemas capazes de garantir abastecimento e previsibilidade. A produção de petróleo e gás continua sendo uma dimensão central desse poder. O relatório Oil 2025: Analysis and Forecast to 2030, da Agência Internacional de Energia (IEA), projeta que a oferta global poderá alcançar 107,2 milhões de barris por dia até o fim da década. Em mercados altamente sensíveis a expectativas, decisões de produção seguem capazes de influenciar preços, inflação e crescimento econômico. Mas a geopolítica da energia também é determinada pelos caminhos que conectam produção e consumo. O Estreito de Ormuz exemplifica essa realidade. Cerca de um quinto do fluxo global de petróleo e gás natural liquefeito passa por essa rota, incluindo aproximadamente 93% das exportações de LNG do Catar e 96% das exportações dos Emirados Árabes Unidos. Quando a circulação é ameaçada, os efeitos ultrapassam o setor energético e alcançam cadeias produtivas e mercados em diferentes regiões do mundo. Essa dependência evidencia o papel estratégico das infraestruturas energéticas. Gasodutos, terminais, refinarias, linhas de transmissão e redes de distribuição deixaram de ser apenas ativos operacionais. Tornaram-se ativos geopolíticos. A consequência é que segurança energética deixa de ser um tema restrito ao setor de energia e passa a ocupar posição central nas estratégias de desenvolvimento. Em um mundo marcado por reindustrialização, eletrificação e crescente competição por recursos estratégicos, a capacidade de garantir energia firme, limpa e competitiva torna-se um dos principais determinantes de influência internacional. A nova geopolítica da energia continua sendo uma disputa por poder. A diferença é que, agora, esse poder depende tanto do controle de moléculas quanto da capacidade de fornecer elétrons em escala. 2. Guerra e vulnerabilidade das cadeias energéticas As guerras contemporâneas revelam uma característica central da economia global: sua dependência de sistemas energéticos altamente integrados e sensíveis a disrupções. Diferentemente dos conflitos do passado, os impactos econômicos de uma guerra não começam necessariamente quando a produção é interrompida. Eles surgem quando a percepção de risco altera expectativas, afeta investimentos e introduz incerteza sobre a continuidade dos fluxos energéticos. No setor de energia, a possibilidade de interrupção pode ser tão relevante quanto a interrupção em si. A recente escalada das tensões no Oriente Médio ilustra essa dinâmica. Mesmo antes de eventuais restrições físicas ao abastecimento, os mercados passaram a incorporar o risco de redução da oferta, pressionando preços e ampliando a volatilidade. Em sistemas dependentes de previsibilidade, a incerteza rapidamente se transforma em custo econômico. Essa vulnerabilidade decorre de uma característica estrutural da globalização. Cadeias energéticas foram construídas para maximizar eficiência, concentrando produção, processamento e transporte em rotas e infraestruturas específicas. Quando um desses pontos é afetado, os impactos ultrapassam fronteiras e se propagam por toda a economia. É nesse contexto que ganham relevância os chamados chokepoints energéticos. Estreitos marítimos, gasodutos, terminais portuários e corredores logísticos concentram fluxos essenciais para o abastecimento global. O Estreito de Ormuz é um dos exemplos mais emblemáticos: além de responder por aproximadamente um quinto do comércio global de petróleo, concentra parcela relevante do mercado internacional de gás natural liquefeito. Cerca de 93% das exportações de LNG do Catar e 96% das exportações dos Emirados Árabes Unidos passam por essa rota. A vulnerabilidade energética contemporânea vai além da disponibilidade de recursos. Ela envolve a capacidade de garantir continuidade operacional para economias cada vez mais dependentes de sistemas interconectados e infraestruturas críticas. Nesse contexto, segurança energética passa a ser sinônimo de resiliência. A questão torna-se particularmente relevante para setores industriais de alta intensidade energética, nos quais interrupções podem gerar perdas irreversíveis. Para Fábio Bertollo, diretor-presidente dos Negócios de Gás do Grupo Energisa, determinadas operações simplesmente não admitem descontinuidade. “A depender da indústria, ela não pode se dar ao luxo de ficar sem um processo energético. Se você para de receber gás natural numa vidraria, por exemplo, você perde o forno. Se perde o aquecimento de um alto-forno de uma siderurgia, perde o alto-forno. Então, é preciso uma alimentação constante, e isso, em tese, só um combustível despachável pode dar.” É justamente por essa característica que o gás natural mantém relevância estratégica em um cenário de transição energética. Sua capacidade de fornecer energia sob demanda contribui para a estabilidade de sistemas cada vez mais diversificados. Como observa Bertollo: “O gás tem essa beleza de ser um produto despachável. E, dos combustíveis fósseis, ele é o que menos emite. Ele chega a emitir metade do que emite o carvão, cerca de 40% a menos do que o óleo combustível, e não emite particulado. Ele garante uma determinada segurança de abastecimento, de lastro energético.” A observação ajuda a compreender um dos principais desafios da transição energética contemporânea. O debate já não se resume à substituição de fontes. Trata-se de construir sistemas capazes de combinar descarbonização, confiabilidade e flexibilidade operacional. As guerras recentes tornam essa realidade mais evidente. Mais do que provocar oscilações temporárias nos preços da energia, elas expõem as fragilidades de um sistema global apoiado em fluxos concentrados, infraestruturas críticas e dependências difíceis de substituir. Em um ambiente marcado por tensões geopolíticas recorrentes, segurança energética passa a significar capacidade de resistir a choques, diversificar fornecedores e garantir continuidade operacional diante de cenários adversos. 3. A transição energética como estratégia de segurança, competitividade e estabilidade econômica Durante anos, a transição energética foi apresentada principalmente como uma resposta à crise climática. Hoje, porém, ela responde a uma agenda mais ampla. Guerras, disputas geopolíticas, crescimento da demanda elétrica e expansão da economia digital transformaram a energia em um tema que transcende a sustentabilidade. Descarbonizar passou a significar também reduzir vulnerabilidades, ampliar autonomia e fortalecer a competitividade de países e empresas. A transição energética deixou de ser apenas uma agenda ambiental. Tornou-se uma estratégia de segurança econômica, competitividade industrial e soberania tecnológica. Essa mudança ocorre porque o mundo não está caminhando para consumir menos energia. Está caminhando para depender mais dela. A eletrificação da mobilidade, a digitalização da indústria, a expansão da inteligência artificial e o crescimento dos data centers estão criando uma demanda sem precedentes por eletricidade. Segundo a Agência Internacional de Energia, aplicações digitais como computação em nuvem e inteligência artificial estão entre os segmentos que mais pressionam o crescimento do consumo energético global. Essa realidade altera a própria lógica da transição energética. O desafio já não é apenas substituir combustíveis fósseis por renováveis. É construir sistemas capazes de combinar descarbonização, segurança de abastecimento, flexibilidade operacional e competitividade econômica. Para Adriano Pires, sócio-fundador do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE), essa mudança exige uma visão mais abrangente da transição. “Essa transição agora é mais complexa. Há a questão do clima, mas não se pode abandonar a segurança energética nem a questão de que a energia seja acessível às camadas de baixa renda.” A observação sintetiza um desafio central: equilibrar simultaneamente redução de emissões, segurança energética e acesso à energia. Por essa razão, a transição não pode ser entendida como um processo de exclusão de fontes, mas de ampliação das opções energéticas disponíveis. Como resume Adriano Pires: “Não se pode ter uma transição energética com exclusão de fontes. É preciso fazê-la com uma adição de fontes.” Essa lógica torna-se ainda mais relevante à medida que cresce a participação de fontes renováveis intermitentes nos sistemas elétricos. Solar e eólica continuarão desempenhando papel fundamental na descarbonização, mas sua expansão exige redes mais modernas, armazenamento, capacidade de resposta rápida e maior inteligência operacional. Segundo o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), o aumento da participação dessas fontes exige maior flexibilidade para garantir a estabilidade do Sistema Interligado Nacional. O desafio já não é apenas gerar energia. É coordenar geração, transmissão, armazenamento e consumo de forma cada vez mais inteligente. Nesse contexto, redes inteligentes, baterias, medidores avançados, inteligência artificial aplicada à operação do sistema elétrico e novos modelos tarifários passam a desempenhar papel tão relevante quanto a expansão da capacidade de geração. Para Fernando Maia, Vice-presidente de Regulação e Relações Institucionais do Grupo Energisa, essa transformação exige modernização estrutural. “Não adianta querer modernizar o sistema tecnicamente se usamos um sistema de tarifação arcaico.” Segundo ele, o futuro exigirá redes mais inteligentes, ampliação do uso de baterias e mecanismos capazes de incentivar maior participação dos consumidores na gestão do sistema elétrico. A capacidade de oferecer energia limpa, abundante, previsível e competitiva passa a influenciar decisões de investimento em setores estratégicos da economia digital. Como argumenta Hudson Mendonça, VP de Energia da MIT Technology Review Brasil, o gargalo da inteligência artificial pode não estar apenas em modelos computacionais, chips ou talentos, mas na disponibilidade de energia firme, infraestrutura de transmissão e contratos de longo prazo capazes de sustentar operações intensivas em processamento de dados. A consequência é que a competição tecnológica global está se tornando também uma competição energética. Se o petróleo foi o principal ativo estratégico da economia do século XX, a infraestrutura capaz de sustentar inteligência artificial, data centers e sistemas digitais tende a desempenhar papel semelhante no século XXI. A transição energética, portanto, não é apenas uma resposta à crise climática. É uma estratégia de posicionamento econômico em um mundo cada vez mais marcado pela convergência entre energia, tecnologia e desenvolvimento. 4. A vantagem brasileira: multipotencialidade energética Poucos países chegam à nova geopolítica da energia em posição tão favorável quanto o Brasil. Enquanto diversas economias enfrentam limitações associadas à dependência de importações energéticas ou à escassez de recursos naturais, o Brasil reúne uma combinação rara de ativos. O país combina petróleo, gás natural, hidrelétricas, energia solar, energia eólica, biomassa, biometano e potencial nuclear em uma mesma plataforma de desenvolvimento. Mais do que diversidade, trata-se de multipotencialidade energética. O conceito ganha relevância em um momento em que segurança energética já não depende de uma única fonte, mas da capacidade de integrar diferentes soluções para atender simultaneamente às demandas de descarbonização, competitividade e segurança de abastecimento. Como observa Fábio Bertollo: “A gente precisa tomar muito cuidado para não ser muito dogmático. Uma solução só é muito perigosa. Não existe bala de prata. O Brasil tem que buscar diversificação energética. É um dos poucos países que consegue fazer isso.” Segundo o Balanço Energético Nacional 2025, elaborado pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE), as fontes renováveis responderam por 88,2% da geração elétrica brasileira em 2024, colocando o país entre as matrizes mais limpas do mundo. Em um cenário no qual energia limpa, competitiva e confiável se torna fator de atração de investimentos, essa condição representa uma vantagem estratégica relevante. O potencial brasileiro também se manifesta em uma agenda que ganha crescente relevância global: a descarbonização das moléculas energéticas. Embora a eletrificação avance rapidamente, setores como indústria pesada, transporte de longa distância e determinados processos produtivos continuarão demandando combustíveis de alta densidade energética. É nesse contexto que o biometano emerge como uma das oportunidades mais promissoras do país. Produzido a partir de resíduos urbanos, agroindustriais e orgânicos, o biometano conecta energia, economia circular, agronegócio e segurança alimentar, ao mesmo tempo em que reduz dependências associadas aos mercados internacionais de combustíveis e fertilizantes. Como destaca Bertollo: “O biometano é como se fosse antifrágil. O Brasil tem uma enorme produção agroindustrial que gera resíduos, e esses resíduos podem se transformar em energia e biofertilizantes. Tanto o gás natural quanto os fertilizantes hoje estão fortemente ligados à indústria do petróleo e à geopolítica mundial. Quando você produz biometano, você nacionaliza o preço da energia e fortalece cadeias estratégicas para o país.” A relevância do biometano ilustra um aspecto central da multipotencialidade energética brasileira: a capacidade de combinar elétrons e moléculas, renováveis e fontes despacháveis, segurança energética e descarbonização. Mas vantagens competitivas não garantem liderança. Transformar potencial em protagonismo exigirá superar desafios históricos relacionados à segurança jurídica, estabilidade regulatória e velocidade de implantação de projetos estratégicos. Como observa Adriano Pires: “Se você não tem segurança jurídica e regulatória, você inibe a entrada no Brasil de grandes investidores.” Segundo ele, o país também precisa avançar em “mecanismos mais ágeis no licenciamento ambiental” e fortalecer o papel do Estado como “regulador e fiscalizador”, criando condições para ampliar investimentos privados em infraestrutura. A oportunidade brasileira vai além da expansão da oferta energética. Em um mundo que busca simultaneamente descarbonização, segurança energética e competitividade, a multipotencialidade energética pode se tornar um dos principais diferenciais estratégicos do país. A questão central não é a disponibilidade de recursos. É a capacidade de transformar esses recursos em estratégia. Conclusão A nova geopolítica da energia não será definida apenas pelo acesso a recursos naturais. Será definida pela capacidade de transformar esses recursos em infraestrutura para uma economia cada vez mais eletrificada, digitalizada e intensiva em dados. Guerras, transição energética e avanço da inteligência artificial revelam uma mesma realidade: energia deixou de ser apenas um insumo produtivo para se tornar um dos principais fatores de competitividade econômica, resiliência e desenvolvimento. Nesse cenário, poucos países reúnem condições tão favoráveis quanto o Brasil. A combinação entre uma matriz elétrica de baixa emissão, abundância de recursos naturais e capacidade de integrar diferentes soluções energéticas cria uma vantagem rara em um mundo que busca simultaneamente segurança energética, descarbonização e crescimento. Mas recursos, por si só, não garantem liderança. O diferencial estará na capacidade de transformar vantagens comparativas em estratégia, atrair investimentos, acelerar a modernização da infraestrutura e criar condições para inovação. O Brasil possui os ativos necessários para ocupar uma posição estratégica na nova ordem energética global. A questão é se conseguirá transformá-los em liderança. O post Segurança energética em tempos de guerra: o novo eixo de poder global apareceu primeiro em MIT Technology Review - Brasil.

Artigo originalmente publicado em mittechreview.com.br
Compartilhar:

Comentários

Seja o primeiro a comentar!