*Por Rakky Curvelo
"No meio do caminho tinha uma pedra". Drummond escreveu isso lá em 1928, mas poderia estar descrevendo o funil de marketing hoje. O caminho que construímos por décadas — produzir conteúdo, deixar o Google indexar, converter visita em lead — tem uma pedra enorme bem no meio. Essa pedra não está saindo do lugar e se chama inteligência artificial.
Mais de 60% das buscas no Google já terminam sem clique¹. A Geração Z pesquisa no TikTok, pergunta para o ChatGPT². O topo do funil, que era a parte "mais fácil" de entender, virou a mais imprevisível. Enquanto isso, o tráfego vindo de LLMs — modelos de linguagem por trás das IAs — está convertendo 4,4 vezes mais do que o tráfego de busca tradicional³. Ou seja: quem chega pela recomendação de uma IA já sabe o que quer, já conhece a marca e já está muito mais decidido para comprar.
Para se ter uma ideia, 86% das empresas que planejam aumentar o investimento em IA, apenas 7,8% conseguiram integrar a tecnologia de verdade no dia a dia. Esse abismo entre intenção e realidade é o sintoma mais claro de que o playbook antigo parou de funcionar.
Foi olhando para esse cenário que desenvolvemos um framework que parte de uma premissa simples: o marketing não flui mais em linha reta, mas em ciclos curtos e diretos. Nesses ciclos, humanos e IA trabalham juntos para expressar a história da marca, personalizar a mensagem, amplificá-la nos canais certos e refinar tudo em tempo real. A lógica é simples: menos campanhas longas na esperança de dar certo, mais experimentos rápidos que alimentam as campanhas da marca com dados reais para enriquecer os próximos ciclos.
Mas… "E agora, José?". Será que esse framework funciona em terras tupiniquins? Funciona, e já fazemos mais da metade disso sem perceber.
Pensa comigo: o consumidor brasileiro já é conversacional e multicanal por natureza. O nosso amor pelo WhatsApp, o sucesso das lives, a sede por experimentar novas tecnologias — tudo isso já está aqui. Crescemos consumindo conteúdo de criador antes de "creator economy" virar buzzword (eu sei que você, caro leitor, cresceu numa intersecção entre Maurício Ricardo e Felipe Neto: isso é creator economy de verdade). E o marketing brasileiro, a duras penas, já aprendeu a operar com orçamento curto e resultado rápido.
O que falta é conectar os dados. Parar de tratar IA como aplicativo extra e começar a tratá-la como parte da infraestrutura. E abandonar o velho playbook enquanto ele ainda funciona. Porque a hora de mudar não é quando a estratégia para de dar resultado. É quando ela ainda funciona, mas você já percebe que cada vez menos.
O marketing entra na era dos ciclos curtos
Se você leu até aqui, vamos à prática: não comece escolhendo uma ferramenta. Comece perguntando onde é que dói. Você tem cada vez menos leads chegando pelos canais tradicionais? A sua taxa de abertura de e-mail está caindo? Seus leads não estão convertendo? Escolha a área com mais desafios e rode um experimento curto com a lógica do framework. Aprenda com a campanha. Ajuste as áreas de aprendizado. Tente outra vez. O ciclo é o método.
A vontade já existe: 98% dos profissionais brasileiros disseram que usariam o tempo economizado com IA para atividades de maior valor. O marketing brasileiro definitivamente não está cansado de marketing, só está cansado de fazer marketing de um jeito que parou de fazer sentido.
"Tinha uma pedra no meio do caminho / no meio do caminho tinha uma pedra". A repetição é insistência. O obstáculo não vai embora só porque a gente finge que ele não está ali. Mas a pedra também pode ser um degrau. Com as ferramentas certas e a coragem de mudar enquanto ainda dá tempo, o que trava pode virar o que transforma. O funil não morreu. Só está pedindo para ser transformado. E isso, felizmente, ainda é trabalho humano.
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