“Precisamos agir agora”. O alerta, assinado por quase 200 economistas e líderes de tecnologia (incluindo 15 prêmios Nobel), reflete o temor de que a inteligência artificial (IA) transforme a economia de forma mais agressiva que a Revolução Industrial. Mas relatórios de 2026 da Organização Internacional do Trabalho (OIT) e da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) apontam que a IA generativa não causou o temido desemprego em massa generalizado (ainda). O impacto central da tecnologia é estrutural e silencioso, focado no surgimento de barreiras para quem tenta ingressar no mercado e no travamento da melhoria da qualidade dos postos de trabalho.
Essa transformação profunda e desigual tem natureza técnica. Projeções do Fórum Econômico Mundial (WEF) e dados coletados pela Microsoft revelam uma especialização da IA como assistente para o “trabalho de informação”. Ao assumir tarefas operacionais de redação, síntese e processamento, por exemplo, a tecnologia cria uma divisão no mercado. De um lado, funções e cargos expostos à automação. De outro, ocupações que permanecem blindadas. Vamos por partes, então.
Cargos e profissões que podem ser ‘atropelados’ pela IA
Profissões “de escritório” e suporte administrativo estão bem expostas ao avanço da IA. Na prática, a nova realidade trazida pelo boom dessa tecnologia tem pressionado trabalhadores de “colarinho branco” a se requalificarem rápido para não serem substituídos na execução de suas tarefas base.
O WEF tem duas projeções importantes para até 2030: 1) 22% dos empregos passarão por alguma transformação estrutural; e 2) 39% das competências essenciais do trabalhador mudarão. Ambas as estimativas são puxadas pela automação via IA.
De acordo com pesquisas recentes da OIT, houve uma mudança significativa na percepção de quais empregos são mais afetados pela IA. Enquanto os indicadores antigos de automação focavam em tarefas manuais e repetitivas, os novos indicadores, baseados nas capacidades da tecnologia, identificam que as ocupações de maior qualificação e maiores salários (especificamente nas áreas de negócios, finanças, computação, matemática e educação) têm os scores mais altos de exposição.
“A IA generativa tenta automatizar e até facilitar um trabalho cognitivo”, diz Juliana Inhasz, professora de economia do Insper, em entrevista ao Olhar Digital. “Isso significa que profissões antes tradicionalmente protegidas pela qualificação passam a conviver com uma tecnologia capaz de executar uma parte relevante das tarefas executadas pelas pessoas”, explica a especialista. “Estamos falando de advogados, contadores, jornalistas, programadores, cargos na área de marketing, analistas no geral.”
No entanto, existem escalas de cinza neste “brain work”, nas quais algumas estão mais expostas do que outras. Segundo Bruno Alano, cientista da computação que trabalhou na OpenAI entre 2016 e 2018, áreas nas quais é fácil validar e testar se o trabalho está correto ou não de forma objetiva (programação e contabilidade, por exemplo) são as que correm mais risco de serem automatizadas.
“Em código [programação], por exemplo, é muito fácil você saber se aquilo funciona ou não. Você testa, vem o resultado e você sabe se precisa melhorar”, diz Alano, em entrevista ao Olhar Digital. “Coisas iterativas nas quais você consegue fazer ajustes para avaliar se funciona, se performa mais ou não, estão sob bastante risco.”
Em contrapartida, áreas “cognitivas” com natureza intangível e subjetiva não estariam tão na mira assim. Pelo menos, em tese. “Uma área que foi bastante afetada [pelo avanço da IA], mas não acho que vai ser afetada de forma significativa no mercado de trabalho, é design”, diz o ex-OpenAI. “Não tem como você testar se aquele design está melhor ou pior que o outro sem ser num aspecto julgamental. Essa questão de estilo, de domínio, é mais difícil para uma IA replicar.”
Já funções que exigem destreza manual, força e contato físico (operadores de máquinas, operários de construção, faxineiros, cirurgiões) não devem ser substituídas por IA generativa. Afinal, a aplicabilidade dessa tecnologia em tarefas “no mundo real” é mínima.
O gargalo do primeiro emprego e a queda de qualidade
OIT e OCDE manifestaram grande preocupação com trabalhadores jovens – aqueles que estão chegando agora ao mercado de trabalho, seja ainda durante suas graduações ou logo após terem apresentado seus TCCs nas universidades. Isso porque a barreira para eles subiu.
Enquanto as empresas tendem a realocar trabalhadores experientes para novas funções internas, a tecnologia tem o potencial de automatizar tarefas cognitivas simples. Aquelas que os jovens costumavam fazer no primeiro estágio. No primeiro emprego. O resultado é um risco iminente de fechamento de “portas de entrada”, dificultando a vida de jovens recém-formados que buscam oportunidades para iniciar suas carreiras. Enquanto isso, o mercado exige competências cada vez mais específicas.
A automação das atividades operacionais reduz parte das tarefas tradicionalmente desempenhadas por profissionais iniciantes, mas não elimina a necessidade de formação. Pelo contrário, ela exige uma mudança no modelo de capacitação.
Jorge Sukarie, CEO da Brasoftware e membro do Conselho da Associação Brasileira das Empresas de Software (Abes), em entrevista ao Olhar Digital.
Sukarie também disse o seguinte: “Estudos da Abes e da IDC [International Data Corporation] mostram que a demanda do mercado está migrando para competências relacionadas à integração de IA, governança, dados, segurança, arquitetura de soluções e supervisão de agentes inteligentes.”
“Na prática, isso significa que a porta de entrada do profissional tende a deixar de ser a execução manual de tarefas repetitivas para passar pela supervisão de sistemas inteligentes, interpretação de resultados, curadoria de dados, validação de respostas da IA e desenvolvimento de competências analíticas”, explica o membro da Abes.
Para a professora de economia do Insper, saber usar IA é “o novo inglês” para jovens na busca pelo primeiro emprego.
Não basta mais saber Excel, não basta mais saber inglês, tem que saber utilizar adequadamente a IA como uma ferramenta para o mercado de trabalho. Ter esse traquejo com a IA parece ser hoje o novo inglês.
Juliana Inhasz, professora de economia do Insper, em entrevista ao Olhar Digital.
Além disso, o principal documento anual da OIT, o Employment and Social Trends 2026, aponta que um dos principais impactos da IA nos empregos é travar a melhoria da qualidade das vagas. Parte do problema é que essa tecnologia promete ganhos de eficiência, mas esses benefícios ainda não se refletiram em aumentos de produtividade incontestáveis. Nem aumentos salariais.
Some a isso a desaceleração global na transformação econômica, que reduziu pela metade a velocidade com que trabalhadores migram para setores mais produtivos e com melhores condições. E a hesitação das empresas em contratar ou expandir suas operações até compreenderem o impacto real da IA. Pronto. Está aí um baita obstáculo para a melhoria da qualidade dos empregos.
Então, como equilibrar a busca por eficiência do lado corporativo sem deteriorar a qualidade do emprego? Para começar: “trabalhadores que hoje estão no mercado e se deparam com o uso desse tipo de tecnologia precisam ter a chance de aprender a trabalhar nesse novo contexto”, diz a professora de economia do Insper.
Para Juliana Inhasz, “dar a chance para esses trabalhadores desenvolverem competências nesse novo cenário evita a precarização”. Isso porque a empresa “consegue fazer com que esse trabalhador continue no mercado de trabalho num desenho diferente, posicionado de forma diferente”. “As pessoas têm a responsabilidade de se adequar a essas mudanças. E as empresas podem e devem ajudar nesse processo.”
Exemplo disso no Brasil é a “Trilha de IA & Dados”, programa de capacitação interna do Grupo OLX do qual mais de 73% dos seus colaboradores participaram. O objetivo da iniciativa é consolidar a tecnologia como “capacidade horizontal”, integrando conhecimentos de dados e IA nas frentes de negócio da companhia, para além das áreas técnicas.
Durante eventos como o “Tech Day”, focado em IA generativa, funcionários são incentivados a desenvolver seus próprios fluxos de automação para tarefas diárias. A ideia é incentivar a transformação da tecnologia numa ferramenta de produtividade aplicada ao cotidiano de cada um.
Segundo a empresa, a iniciativa também inclui parcerias para capacitar grupos sub-representados – por exemplo: indígenas, mulheres negras e pessoas com mais de 50 anos. Para a companhia, o objetivo central é preparar os profissionais para um mercado no qual a IA deve complementar o trabalho humano. Mas, primeiro, o humano precisa querer aprender a usá-la.
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