Se você já se preocupou com a queda de algum satélite ou foguete, imagine o pânico coletivo que tomou conta do planeta em julho de 1979, com a iminente reentrada da Skylab, a primeira estação espacial dos Estados Unidos, com 77 toneladas. Durante semanas, jornais e TVs atualizavam diariamente as previsões sobre onde seus destroços poderiam cair. No final, ninguém se feriu, mas o episódio marcou a história da exploração espacial e mostrou que colocar grandes estruturas em órbita também exige planejamento para trazê-las de volta com segurança.
A Skylab nasceu logo após o programa Apollo. Em vez de construir uma estação do zero, a NASA aproveitou o terceiro estágio do foguete Saturno V, transformando o gigantesco tubo de alumínio em um grande laboratório orbital, lançado em maio de 1973. Logo após chegar ao espaço, perdeu seu escudo térmico e um painel solar, enquanto outro ficou preso. A estação quase foi perdida, mas a primeira tripulação conseguiu fazer umas gambiarras em órbita, permitindo à Skylab receber outras duas missões tripuladas entre 1973 e 1974.
Essas missões produziram importantes avanços científicos. Os astronautas estudaram o Sol, observaram a Terra, realizaram experimentos em física e medicina espacial e estabeleceram novos recordes de permanência em órbita. Os 6,60 m de diâmetro do terceiro estágio do Saturno V conferiam ao módulo central Skylab o maior espaço interno da categoria, com 270 m³ – espaço suficiente para os astronautas realizarem experimentos, fazerem exercícios, tomarem banho, dormirem, correrem aleatoriamente em todas as direções e até mesmo testar um traje de voo. Era tanto espaço que faria qualquer módulo da atual Estação Espacial Internacional parecer um quitinete estudantil.
Mas havia um problema invisível. Embora estivesse a mais de quatrocentos quilômetros de altitude, a Skylab ainda encontrava uma atmosfera extremamente rarefeita, mas suficiente para exercer um pequeno arrasto. Um efeito minúsculo, mas contínuo. E como ela não possuía motores próprios para correções orbitais, a cada volta em torno da Terra, a estação perdia um pouquinho de velocidade e de altitude.
A expectativa era que a Skylab fosse levada para uma órbita mais alta quando os ônibus espaciais entrassem em operação. Só que essa manobra nunca aconteceu porque o programa dos ônibus espaciais atrasou e porque o Sol entrou em um período de intensa atividade.
Durante períodos assim, as camadas superiores da atmosfera aquecem e se expandem. Isso aumentou a densidade de moléculas na altitude da Skylab, intensificando o arrasto e acelerando sua queda. Quando ficou claro que o ônibus espacial não estaria pronto a tempo, a reentrada tornou-se inevitável. E sem motores para manobrar em órbita, essa reentrada seria fatalmente descontrolada.
Foi então que começou uma enorme expectativa mundial. Mas prever exatamente quando e onde um objeto cairá é muito mais difícil do que parece. A densidade da atmosfera varia continuamente em função da atividade solar e de outros fatores de difícil predição. Pequenas diferenças alteram a velocidade da queda e, viajando a 28 mil quilômetros por hora, um erro de apenas alguns minutos pode deslocar o ponto de queda em milhares de quilômetros.
Quando finalmente mergulha nas camadas mais densas da atmosfera, sua velocidade é tão alta que o objeto comprime o ar à sua frente, aquecendo-o a temperaturas de milhares de graus, destruindo boa parte da estrutura. Ao mesmo tempo, a resistência do ar faz a espaçonave se despedaçar. A maior parte do material vaporiza, mas componentes mais densos e resistentes podem sobreviver e chegar ao solo.
No caso da Skylab, estimava-se que cerca de 30 toneladas de material sobrevivessem à reentrada e atingissem a superfície. Mas ninguém sabia exatamente onde, nem quando. Isso foi um prato cheio para imprensa sensacionalista, videntes, coaches de apocalipse e vendedores de capacete.
A queda da Skylab tornou-se um evento mundial! As pessoas estampavam alvos para a estação espacial em ruas e camisetas, festas temáticas em que convidados só entravam de capacete. Uma empresa anunciou um spray “Repelente de Skylab” com garantia: “devolvemos seu dinheiro se você for atingido”. E para os atingidos, temos o “Bálsamo de Impacto Skylab”.
Apesar da brincadeira, a coisa era séria. A NASA havia calculado um risco de 15% dos detritos atingirem alguma cidade com mais de 100 mil habitantes. Nas Filipinas, o pânico gerado pela previsão de uma vidente levou o presidente a fazer um pronunciamento à nação para acalmar o público.
A última previsão divulgada pela NASA era que a Skylab cairia entre 10 e 14 de julho. A reentrada seria totalmente descontrolada, mas no dia 11, percebendo que o laboratório espacial estava em seus últimos momentos em órbita, os controladores em solo tiraram uma última carta da manga: eles mudaram a orientação da Skylab para aumentar seu arrasto e acelerar a reentrada. A ideia era que ela caísse sobre o Oceano Índico, mas ela resistiu um pouco mais e acabou chegando até o sudoeste da Austrália.
Dezenas de fragmentos caíram sobre uma extensa área, nas proximidades de Esperance. Felizmente, apesar do risco e do pânico, tudo terminou bem. Ninguém foi atingido, o Museu de Esperance ganhou vários itens vindos do espaço e, a NASA, uma multa por jogar lixo na cidade australiana.
A estação, orgulho da engenharia espacial americana, acabou se tornando popular não por seu pioneirismo ou seus feitos em órbita, mas pelo seu “óbito”. A história de sua queda tornou-se tema de filmes, contos e cartoons. Skylab se tornou o nome de bandas de rock, de músicas e até de músico.
Apesar do susto, a queda da Skylab nos trouxe importantes lições. Hoje, sempre que possível, satélites e espaçonaves realizam reentradas controladas, direcionados para áreas remotas do Oceano Pacífico, longe de regiões habitadas. Além disso, veículos modernos contam com sistemas de propulsão capazes de executar manobras de deórbita planejadas, e até mesmo de retorno para serem reutilizados.
Graças a estas tecnologias, nunca mais ocorreram reentradas tão perigosas quanto foi a da Skylab. Pelo menos, por enquanto. Porque, em algum momento, a Estação Espacial Internacional terá que ser retirada de órbita. Só que essa operação já está sendo cuidadosamente planejada para ocorrer de forma totalmente controlada, minimizando qualquer risco para a população. Afinal, se vamos colocar nossos equipamentos no espaço, precisamos estar preparados para quando o Universo nos devolvê-los.
O post Skylab: o dia em que uma estação espacial despencou dos céus apareceu primeiro em Olhar Digital.