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Sob o assoalho de uma casa no Rio, o silêncio de milhares de escravizados

Sob o assoalho de uma casa no Rio, o silêncio de milhares de escravizados
<p>Quando Merced Guimarães dos Anjos decidiu reformar sua casa na região portuária do Rio de Janeiro, há cerca de três décadas, ela não imaginava que as ferramentas dos operários romperiam não apenas o concreto, mas também camadas de silêncio histórico acumuladas por séculos. A alguns palmos abaixo do chão de sua residência, no bairro da Gamboa, emergiu um conjunto de ossadas humanas que logo revelou sua natureza perturbadora: tratava-se do Cemitério dos Pretos Novos, onde eram sepultados — muitas vezes de forma sumária e coletiva — os africanos que não sobreviviam à travessia do Atlântico ou que morriam logo após desembarcar no Brasil.</p><p>O local fica a poucos metros do Cais do Valongo, estrutura portuária que funcionou entre 1811 e 1831 e por onde estima-se que tenham passado cerca de um milhão de pessoas sequestradas do continente africano — o maior volume de desembarque de escravizados de toda a história das Américas. Para aqueles que chegavam já enfraquecidos pelas condições desumanas dos navios negreiros, o porto era apenas o início de uma nova brutalidade. Os que não resistiam eram enterrados sem cerimônias, sem nomes, sem registros, no terreno que décadas depois se tornaria uma rua comum, depois uma casa, depois uma descoberta que mudaria a percepção da própria cidade sobre seu passado.</p><p>Merced, em vez de interromper a obra e encobrir o que havia encontrado, tomou uma decisão que definiria o restante de sua vida: preservar. Com apoio de arqueólogos e historiadores, o espaço foi transformado no Instituto Pretos Novos, um centro de memória, pesquisa e resistência que mantém visível aquilo que o tempo e a negligência histórica tentaram enterrar definitivamente. O local passou a receber estudantes, pesquisadores e visitantes do mundo inteiro, funcionando como um memorial vivo de uma das páginas mais sombrias da formação do Brasil.</p><p>A descoberta ganhou dimensão ainda maior quando, em 2011, escavações na área do entorno revelaram o próprio Cais do Valongo, soterrado sob camadas de aterro. O reconhecimento internacional veio em 2017, quando a Unesco inscreveu o sítio arqueológico na lista do Patrimônio Mundial da Humanidade — uma distinção que carrega tanto o peso da tragédia quanto a importância de não deixá-la ser esquecida. Estudiosos consideram o conjunto formado pelo cais e pelo cemitério o testemunho material mais significativo do tráfico transatlântico de escravizados preservado em solo americano.</p><p>Mais de trinta anos após a descoberta acidental feita sob o assoalho de uma casa, o sítio permanece como um incômodo necessário na paisagem do Rio de Janeiro. Num país que ainda debate de forma insuficiente as consequências estruturais da escravidão, aquelas ossadas anônimas continuam a exigir que a história seja contada sem eufemismos: não como um capítulo encerrado, mas como uma ferida cuja cicatriz ainda modela desigualdades, identidades e silêncios no Brasil contemporâneo.</p>
Artigo originalmente publicado em www.bbc.co.uk
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