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Tarifaço de Trump pressiona setores, mas Brasil chega menos dependente dos EUA, dizem especialistas

Redação Recifes
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Tarifaço de Trump pressiona setores, mas Brasil chega menos dependente dos EUA, dizem especialistas

Tarifas dos EUA expõem relação comercial que beneficia os dois países As tarifas adicionais de 25% impostas pelos Estados Unidos sobre parte das exportações brasileiras entraram em vigor nesta quarta-feira (22), com impacto concentrado nos setores mais dependentes do mercado americano. Economistas ouvidos pelo g1 avaliam que a medida não deve provocar uma crise na economia brasileira como um todo, mas pode pressionar parte das empresas, que terão dificuldade para encontrar novos compradores no curto prazo. 🗒️ Tem alguma sugestão de reportagem? Mande para o g1 O efeito, porém, ocorre em um cenário diferente do de duas décadas atrás. Os EUA perderam participação no comércio exterior brasileiro. Em 2005, o mercado americano absorvia cerca de um quinto das exportações do país, o equivalente a aproximadamente 19% do total embarcado. Em 2025, essa participação havia recuado para cerca de 12%. No primeiro semestre de 2026, a fatia caiu para 9,4%. Os dados são do Comexstat, do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC). No mesmo período, a China consolidou sua posição como principal destino das exportações brasileiras, respondendo por mais de 30% das vendas ao exterior. Infrográfico g1 Para o Brasil, o principal desafio do tarifaço não está apenas na perda de vendas para o mercado americano, mas na capacidade de encontrar novos destinos para essas exportações sem trocar uma dependência por outra e, ao mesmo tempo, aumentar a competitividade da indústria brasileira. Para Leonardo Paz, pesquisador do Núcleo de Prospecção e Inteligência Internacional da FGV, a perda de protagonismo dos EUA era inevitável com a ascensão da China como principal parceiro comercial do Brasil desde 2009. Segundo ele, o Brasil aproveitou principalmente o crescimento econômico da China e a demanda por commodities agrícolas e minerais brasileiras. Na mesma linha, Marcos Crivelaro, economista da Fundação Vanzolini, afirma que as tarifas representam "um choque para alguns segmentos da economia, mas não uma crise estrutural". Para Crivelaro, o Brasil chega a esse momento com uma pauta exportadora mais diversificada e presença crescente em mercados asiáticos e outras economias emergentes. O presidente dos EUA, Donald Trump, durante um pronunciamento à nação no Salão Leste da Casa Branca, em Washington SAUL LOEB/Pool via REUTERS O que muda na prática para as empresas A capacidade de substituir o mercado americano varia conforme o tipo de produto. Segundo estimativas da Secretaria de Comércio Exterior (Secex), 57% das exportações brasileiras para os EUA permaneceram sem incidência das novas tarifas. Ao todo, 2,4 mil empresas foram diretamente afetadas, e 74% delas já exportam para outros países. Os especialistas ressaltam, porém, que a diversificação, por si só, não compensa toda a perda no mercado americano. Roberto Dumas, professor do Insper especializado em economia chinesa, explica que as commodities têm maior facilidade de redirecionamento porque são produtos padronizados e negociados globalmente. Já os bens industrializados enfrentam obstáculos maiores. "Calçados, por exemplo, são muito mais difíceis de redirecionar", afirma. Segundo ele, produtos manufaturados costumam ser desenvolvidos para atender características específicas de cada mercado, o que dificulta encontrar novos compradores rapidamente. Cerca de 18% das exportações brasileiras devem ser efetivamente atingidas pelas tarifas, e a abertura de novos mercados não acontece de forma imediata. "O Brasil consegue abrir novos mercados? Sim. É o que ele está fazendo. Mas isso exige tempo", afirma Crivelaro. Segundo o economista, esse processo envolve negociações sanitárias, homologações técnicas, adaptação logística, construção de cadeias de fornecedores e contratos internacionais. Em média, a entrada em um mercado completamente novo pode levar de 12 a 36 meses. Entre os destinos com maior potencial, ele cita a Índia, países do Sudeste Asiático — como Indonésia, Vietnã, Tailândia, Filipinas, Malásia e Singapura —, além do Oriente Médio. Na África, vê oportunidades mais pulverizadas em economias como Angola, África do Sul, Nigéria e Egito. Em 2025, mesmo com o tarifaço, as exportações brasileiras bateram recorde de US$ 348,7 bilhões (R$ 1,774 trilhão), e mais de 40 mercados registraram o maior volume de compras da série histórica. É o caso de Índia, Canadá, Turquia, Paraguai, Uruguai, Suíça, Paquistão e Noruega. Os embarques para a China cresceram 6%, para a União Europeia, 3,2%, e para a Argentina, 31,4%, impulsionados principalmente pelo setor automotivo, segundo o MDIC. Apesar do potencial, Dumas ressalta que diversificar não significa substituir uma dependência por outra. "É sempre importante que os países diversifiquem suas exportações. Isso não significa que o Brasil deva ficar completamente dependente da China apenas porque a participação desse mercado nas nossas exportações passou de 28% para 32%, enquanto a dos Estados Unidos caiu de 12% para 9%", explica. Segundo ele, o ideal seria manter os EUA como um parceiro relevante, enquanto o Brasil amplia sua presença em outros mercados. Nem todos, porém, acreditam que a diversificação geográfica seja suficiente para compensar as perdas. Fabrizio Panzini, diretor de Relações Governamentais e Políticas Públicas da Amcham Brasil, afirma que a principal diferença está no perfil dos produtos vendidos aos americanos. Enquanto cerca de 80% das exportações brasileiras para os EUA são compostas por produtos industriais, a pauta destinada aos demais mercados é mais concentrada em commodities. Por isso, o Brasil não consegue simplesmente compensar uma eventual perda no mercado americano com mais vendas de soja para a China. São produtos diferentes, produzidos por setores distintos da economia. Enquanto exportadores de commodities, como carne e café, buscam ampliar as vendas para outros mercados, indústrias de máquinas, equipamentos, madeira, móveis, cerâmica e calçados afirmam que o redirecionamento é mais complexo, porque seus produtos atendem a cadeias produtivas específicas e exigem novos processos de homologação, certificação e negociação com compradores. A Confederação Nacional da Indústria (CNI), por exemplo, avaliou que a sobretaxa agrava um cenário que já pressionava as vendas brasileiras para os EUA e aumenta a insegurança para empresas dos dois países. (leia mais nesta reportagem) "Os efeitos do aumento de tarifas dos Estados Unidos estão sendo cada vez mais sentidos pela indústria brasileira: 20 dos 27 estados reduziram suas exportações ao mercado norte-americano no primeiro semestre. O cenário tende a piorar, corroendo ainda mais a competitividade da indústria brasileira", afirmou o presidente da CNI, Ricardo Alban. EUA devem anunciar em breve novas tarifas sobre trabalho forçado para 60 países Tarifaço de Trump: veja a lista de produtos que ficaram isentos e os que serão impactados pela nova taxa Tarifaço redesenha mapa das exportações brasileiras; vendas para a China bateram recorde Jornal Nacional/ Reprodução O papel do Brasil nisso tudo Para os especialistas, aproveitar novos mercados depende menos das tarifas e mais da capacidade de o país resolver problemas internos de competitividade. Leonardo Paz defende uma política industrial baseada em inovação, produtividade e contrapartidas para empresas beneficiadas por incentivos públicos, como metas de exportação, investimentos em tecnologia e manutenção de empregos. Ele também cita a necessidade de simplificar o sistema tributário, reduzir a burocracia no comércio exterior, melhorar a infraestrutura logística e ampliar os investimentos em educação e tecnologia. "Na minha opinião, tornar o Brasil mais competitivo depende muito mais das mudanças internas do que do cenário externo", explica Paz. A avaliação é compartilhada por José Augusto de Castro, presidente executivo da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB). Para ele, o principal obstáculo continua sendo o Custo Brasil. "O tarifaço apenas agravou uma situação que já não vinha evoluindo. O custo de produzir no Brasil vem aumentando ao longo dos últimos anos e, com as tarifas, houve um salto repentino." Segundo Castro, o país é competitivo em commodities, mas enfrenta dificuldades para exportar produtos manufaturados. Por isso, defende reduzir custos estruturais antes de ampliar acordos comerciais. Uma estimativa do Movimento Brasil Competitivo (MBC), em parceria com a FGV, mostra que empresas brasileiras têm maior dificuldade para competir internacionalmente em produtos de maior valor agregado devido ao Custo Brasil: cerca de R$ 1,7 trilhão por ano — o equivalente a 19,5% do Produto Interno Bruto (PIB) — é gasto com sistema tributário, burocracia, infraestrutura e insegurança jurídica. Para Constanza Negri Biasutti, diretora de Desenvolvimento Industrial, Tecnologia e Inovação da CNI, as tarifas americanas aceleraram uma agenda que já era necessária: ampliar e qualificar os parceiros comerciais. "O que estamos vivenciando neste momento é uma pressão maior para que esse movimento aconteça porque, de alguma maneira, era uma tarefa pendente do Brasil." O desafio também é reconhecido pelo governo federal. No Plano Plurianual (PPA) 2024-2027, um dos indicadores estratégicos da política industrial é elevar as exportações brasileiras de produtos manufaturados de média-alta e alta intensidade tecnológica, que passaram de US$ 31,2 bilhões (R$ 158,8 bilhões) em 2020 para US$ 49,2 bilhões (R$ 250,42 bilhões) em 2022. A meta é alcançar cerca de US$ 54,3 bilhões (R$ 276,38 bilhões) até 2027, refletindo a necessidade de ampliar a competitividade da indústria brasileira no mercado internacional. Donald Trump, presidente dos EUA, durante evento da Fifa em Nova York, em 17 de julho de 2026 Reuters/Evan Vucci Ela ressalta, porém, que diversificar não significa fechar acordos indiscriminadamente. O objetivo, segundo ela, é buscar parceiros estratégicos e aproveitar acordos recentes, como o firmado entre Mercosul e União Europeia. "A indústria apoia essa agenda de diversificação, mas com uma premissa: exportar mais e exportar melhor", diz. Segundo Constanza, setores industriais mais sofisticados terão maior dificuldade para substituir o mercado americano, porque dependem de exigências regulatórias específicas de cada país. Ela cita como exemplo o setor de madeira: cerca de 45% das exportações têm os EUA como destino, e aproximadamente 80% dos embarques deverão enfrentar as novas tarifas. Vender para os EUA não é apenas sobre receita Mesmo com o avanço da diversificação, os especialistas afirmam que isso não reduz a importância estratégica do mercado americano para parte da indústria brasileira. "Uma empresa que vende para os EUA abre portas no Canadá, no México, na Alemanha ou na Espanha porque demonstra que atende às exigências técnicas de um dos mercados mais rigorosos do mundo", explica o economista da Fundação Vanzolini. Por isso, mesmo que reduzam investimentos ou adaptem suas operações, empresas que já atuam nos EUA dificilmente abandonarão completamente esse mercado.

Artigo originalmente publicado em g1.globo.com
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