Terremotos na Venezuela: quais são os perigos para o Brasil? Especialistas respondem
Mais de 160 pessoas morreram e quase mil ficaram feridas por conta de dois terremotos ocorridos na Venezuela na noite de quarta-feira (24). O primeiro tremor teve magnitude 7,2 na escala Richter. O segundo, 7,5 – o mais forte a atingir o país em mais de um século. Até a manhã desta quinta-feira (25), equipes de resgate ainda trabalhavam na busca de sobreviventes.
O primeiro tremor ocorreu às 19h04, no horário de Brasília. O segundo, mais forte, veio 39 segundos depois. Em Caracas, capital do país, casas e prédios desabaram. Os sismos foram sentidos no Brasil também – na região Norte, perto da fronteira com o país vizinho. Em Belém, capital do Pará, prédios foram esvaziados por precaução.
Afinal, até que ponto terremotos fortes em países vizinhos ameaçam o Brasil? Por que prédios balançam mesmo com um epicentro tão distante? Como funciona o monitoramento de terremotos no país? Esses são exemplos de perguntas levadas pelo Olhar Digital a especialistas no assunto.
Terremotos ‘gêmeos’: o que aconteceu na Venezuela
O Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS) classificou o que aconteceu na Venezuela na quarta-feira como terremoto “duplo”, também conhecido como “sismo gêmeo”. Esse fenômeno raro ocorre quando dois tremores de magnitudes semelhantes acontecem num intervalo curto de tempo e em áreas geograficamente próximas. No país vizinho do Brasil, os tremores atingiram o norte, com epicentros a cerca de 15 quilômetros de distância um do outro, causando destruição na capital, Caracas, e em cidades no litoral.
Como a escala de magnitude é logarítmica, o segundo abalo liberou cerca de três vezes mais energia que o primeiro. Assim, atingiu estruturas já fragilizadas pelo impacto inicial. Além disso, os focos foram superficiais (21,9 km no primeiro e 10 km no segundo). Isso fez com que as ondas sísmicas chegassem à superfície com intensidade alta.
Confira abaixo postagens do ocorrido selecionadas pelo Olhar Digital:
🇻🇪 | 7,1 | URGENTE: Momentos durante el terremoto que sacudió Venezuela la tarde del miércoles. pic.twitter.com/gKZwNrVudf— Alerta News 24 (@AlertaNews24) June 24, 2026
Crazy footage out of Venezuela after the earthquake. pic.twitter.com/rg3sBiInCF— Open Source Intel (@Osint613) June 25, 2026
Total devastation in Venezuela following a powerful earthquake. Up to 100,000 people are feared dead. Pray for them, they didn’t deserve this. pic.twitter.com/heMpFeO9Y4— Dr. Maalouf (@realMaalouf) June 25, 2026
Outro ponto importante: Caracas fica sobre uma bacia sedimentar, tipo de solo que naturalmente amplifica a vibração das ondas e eleva o risco de liquefação (quando o solo se comporta igual líquido, o que afunda prédios). Para ajudar, grande parte das edificações afetadas na região foi construída sem o devido reforço estrutural. Ou seja, são altamente vulneráveis a colapsos sob estresse sísmico contínuo.
Segundo o USGS, apesar de muito próximos, os tremores que chacoalharam a Venezuela se originaram de falhas geológicas diferentes, com estilos de ruptura distintos, na complexa zona de fronteira entre as placas tectônicas do Caribe e da América do Sul.
Milhares de pessoas foram dadas como desaparecidas nesta quinta-feira no país. Na noite de quarta, o Itamaraty informou que não tinha notícias de brasileiros entre as vítimas dos terremotos no país vizinho, de acordo com o G1.
O Departamento de Estado dos EUA informou que enviará uma equipe de resgate com 80 pessoas, além de seis cães para ajudar nas buscas. O Escritório da Organização das Nações Unidas (ONU) para Assuntos Humanitários fez um apelo, nesta quinta, para que mais países enviem ajuda à Venezuela após os terremotos.
Da Venezuela para o Brasil
As ondas mecânicas provocadas pelo terremoto de magnitude 7,5 na Venezuela viajaram milhares de quilômetros através da crosta terrestre até atingirem o Norte do Brasil. Foi essa propagação de energia que cruzou fronteiras e gerou reflexos perceptíveis em capitais distantes do epicentro, como Belém, Manaus e Macapá.
O mecanismo que gera os terremotos propaga ondas em frequências que interagem de maneira distinta com cada tipo de edificação, afetando desde casas pequenas até arranha-céus.
Terremotos ocorrem no Brasil, mas eles são leves – Montagem: Pedro Spadoni/Olhar Digital
De acordo com o sismólogo Bruno Collaço, do Centro de Sismologia da USP, o fenômeno do balanço é decorrente de uma diferença de velocidade de propagação na própria estrutura. “O chão vibra e se movimenta com uma determinada velocidade. E o topo do prédio se movimenta com outra velocidade. Por isso, o prédio balança. E, na parte mais alta, balança até mais”, explica o especialista, em entrevista ao Olhar Digital.
Apesar disso, tremores originados a milhares de quilômetros de distância não têm a, digamos, potência para danificar “construções boas” no Brasil.
Não há energia suficiente para causar danos estruturais a distâncias tão grandes.
Bruno Collaço, sismólogo do Centro de Sismologia da USP, em entrevista ao Olhar Digital.
Histórico do Brasil
O senso comum costuma ditar que o Brasil está totalmente imune a grandes terremotos, mas a realidade geológica mostra um cenário diferente. O estado do Acre, por exemplo, já enfrentou abalo sísmico de magnitude 6.6 (registrado no município de Tarauacá, em 2024).
A explicação para esses fenômenos está na fronteira do continente: esses grandes tremores derivam do processo de subducção, que é o mergulho da placa tectônica de Nazca (uma placa oceânica mais densa) por baixo da placa Sul-Americana, sobre a qual o território brasileiro está assentado.
Se essas magnitudes são tão elevadas, por que não vemos cidades destruídas no Norte do país? A resposta está na física do alívio gerada pela distância vertical. Conforme explica ao Olhar Digital o professor Waldemir Lima dos Santos, pesquisador da Universidade Federal do Acre (UFAC), o hipocentro (o ponto exato onde o tremor começa, no interior da Terra) ocorre a grandes profundidades, geralmente entre 500 e 600 quilômetros. “Essa profundidade faz com que, quando ocorre a movimentação, ocorra a dissipação de onda de energia. Essa onda, ao chegar à superfície, demora muito”, detalha o professor.
Quando chega à superfície, a onda chega sem força de destruição.
Waldemir Lima dos Santos, professor e pesquisador da Universidade Federal do Acre (UFAC), em entrevista ao Olhar Digital.
O risco real de um desastre sísmico com epicentro no Brasil é praticamente irrisório – Imagem: Menur/Shutterstock
Quanto ao restante do país, o risco segue uma lógica inversa, mas igualmente segura. O interior do território brasileiro é cortado por falhas e fraturas geológicas antigas que sofrem pequenos tremores frequentes em estados como Minas Gerais, Bahia e Pará. Nesses locais, as magnitudes são baixas (de 2.0 a 2.6) e, embora ocorram em profundidades pequenas, são fracas demais para causar tragédias.
O professor Waldemir pondera que, por a natureza ser dinâmica, sempre existe uma probabilidade matemática de que uma dessas fraturas antigas seja reativada e provoque um rebaixamento de superfície. No entanto, o especialista tranquiliza: “Na parte interior do continente, isso é um pouco mais difícil de acontecer”. Isso torna o risco real de um desastre sísmico com epicentro no Brasil praticamente desprezível.
A realidade do monitoramento sismográfico no Brasil
Para garantir que o país saiba exatamente quando e onde a terra tremeu, entra em cena a tecnologia da Rede Sismográfica Brasileira (RSBR), que conta atualmente com cerca de 120 estações espalhadas pelo território nacional.
No entanto, a distribuição desses equipamentos revela um desafio geográfico e logístico. Enquanto a faixa litorânea do país, especialmente as regiões Sudeste e Nordeste, possui uma cobertura muito mais densa e concentrada de sensores, a região Norte sofre com uma vulnerabilidade de mapeamento. “O acesso e manter estações tão distantes é mais difícil”, diz o sismólogo.
Quando um terremoto de grande magnitude atinge vizinhos como a Venezuela ou o Chile, os computadores no Brasil não piscam instantaneamente. Para começar, existe um intervalo físico real necessário para que a energia viaje pelas rochas subterrâneas até alcançar os nossos sensores. “As ondas demoram de quatro a cinco minutos para chegarem ao Brasil”, disse Collaço. Ele acrescenta que, para os sensores da região Sudeste, o tempo de viagem é um pouco maior: leva de cinco a seis minutos para que as máquinas consigam registrar o evento de forma autônoma.
Uma vez que as ondas mecânicas alcançam as estações nacionais, o fluxo da informação segue um protocolo. Embora os algoritmos trabalhem ininterruptamente na, digamos, captura inicial, nenhum dado é publicado automaticamente.
O especialista da USP detalha que o sistema cumpre o papel de fazer a captação e emitir avisos internos para a equipe, mas a palavra final é sempre de um cientista. “O sistema detecta automaticamente e a gente recebe notificações. Isso não fica num site público. Primeiro, passa por uma revisão humana, de um analista”, diz Collaço. Assim, tecnologia e perícia humana trabalham juntas com o objetivo de estreitar a margem para alarmismo e desinformação.
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