Um dos El Niños mais fortes custou US$ 5,7 trilhões ao mundo, e 2026 pode ser pior
Justamente quando a economia global começa a sair com cautela da crise da guerra do Irã, outra já surge no horizonte — e desta vez está completamente fora do controle dos políticos.Um evento de El Niño — fenômeno natural geralmente associado a temperaturas mais elevadas — agora foi oficialmente confirmado no Oceano Pacífico, segundo a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA). As primeiras previsões indicam que poderá ser de grandes proporções, tanto para o clima quanto para a economia global. Leia também: XP: El Niño afeta 3 frentes do varejo por meio de inflação, clima e doenças; entendaEmbora o ciclo ainda esteja no início, este El Niño promete ser intenso, e seus efeitos climáticos podem rapidamente se espalhar pelo mundo. Episódios anteriores pressionaram cadeias de suprimentos, elevaram custos e ampliaram riscos em setores vulneráveis às mudanças do clima, como a agricultura e toda a cadeia global de abastecimento de alimentos. Se as previsões atuais estiverem corretas, o fenômeno que está se formando no Oceano Pacífico poderá fazer muito mais do que apenas alterar os padrões de chuva.“O El Niño costuma ser tratado apenas como uma questão meteorológica, mas, em 2026, isso pode levar a uma perigosa sensação de complacência”, escreveu Robert Muggah, cientista político que já assessorou diversos governos em questões de segurança, em um artigo publicado neste mês no Fórum Econômico Mundial.“A previsão mais recente deve ser vista como um alerta antecipado para que governos, empresas e agências humanitárias se preparem para o que pode ser um grande choque sistêmico”, escreveu.Chuvas, secas e perdas de trilhõesO El Niño costuma se formar a cada poucos anos devido ao enfraquecimento dos padrões de vento sobre o Oceano Pacífico, e suas condições normalmente persistem por até um ano. Em situações normais, os ventos predominantes empurram as águas superficiais mais quentes para longe das Américas, em direção à Ásia e à Oceania. O El Niño interrompe esse processo, mantendo essas águas aquecidas próximas às costas da América do Norte e da América do Sul. Isso altera os padrões climáticos em todo o planeta, influenciando desde períodos de seca na Indonésia até chuvas mais intensas no sul dos Estados Unidos.A intensidade de um evento de El Niño costuma estar ligada ao quanto as águas do Pacífico ficam acima da temperatura média, e algumas previsões iniciais já alertam para um episódio particularmente forte neste ano. O anúncio da NOAA indicou 63% de probabilidade de que a temperatura da superfície do mar no Pacífico ultrapasse 2,0°C acima da média, um patamar que caracterizaria um El Niño “muito forte”.A Organização Meteorológica Mundial apresentou uma previsão semelhante, projetando um evento “pelo menos moderado — e possivelmente forte”, comparável a episódios anteriores acompanhados por aquecimento significativo.Isso não é um bom sinal para a economia mundial. Um estudo publicado em 2023 na revista Science analisou os custos associados a dois El Niños particularmente fortes, ocorridos em 1982 e 1997 — dois dos três episódios mais intensos já registrados — e concluiu que as alterações climáticas provocadas por esses fenômenos causaram perdas de renda global de US$ 4,1 trilhões e US$ 5,7 trilhões, respectivamente. Esses prejuízos se manifestaram principalmente por danos decorrentes de eventos climáticos extremos, como perdas na produção agrícola causadas por ondas de calor e enchentes.Ao longo do século XXI, os efeitos acumulados dos eventos de El Niño poderão somar US$ 84 trilhões em perdas econômicas, concluiu o estudo.As estimativas específicas dos custos associados ao El Niño deste ano provavelmente ainda levarão alguns meses para serem divulgadas, mas analistas já projetam um período difícil pela frente, principalmente porque muitos modelos indicam que o El Niño de 2026 poderá ter intensidade comparável à dos grandes episódios do passado. Segundo uma análise publicada na segunda-feira pela agência de classificação de risco Fitch, os impactos serão mais severos nos países mais pobres. Nações dependentes da agricultura provavelmente enfrentarão custos mais elevados e maiores prejuízos provocados por fatores ambientais, embora a inflação deva se tornar um problema global, afetando inclusive os países ricos por meio da alta dos preços dos alimentos.“Escassez prolongada pode ampliar os riscos para os preços das commodities alimentares comercializadas globalmente provocados pelo fenômeno El Niño, afetando potencialmente as perspectivas de inflação até mesmo em países com elevada classificação de crédito”, escreveram os analistas da Fitch.Diversas culturas agrícolas essenciais cultivadas em países mais vulneráveis — incluindo trigo, milho e arroz — deverão registrar aumento de preços ao longo do ciclo do El Niño, segundo outra previsão publicada na segunda-feira pela Comissão Europeia. As consequências de um El Niño forte também se somarão aos efeitos persistentes da guerra no Irã, que já elevou os preços globais de insumos agrícolas comuns, como fertilizantes.Mesmo os itens que puderem ser produzidos enfrentarão dificuldades devido às restrições no comércio global. Além dos altos preços dos combustíveis provocados pela guerra, o El Niño historicamente prejudica o transporte marítimo ao reduzir os níveis de água em pontos estratégicos de navegação.Em 2023, um forte El Niño provocou uma seca prolongada na América Central, fazendo com que o nível de água do Canal do Panamá atingisse mínimas históricas. O episódio obrigou os operadores a reduzir o número diário de travessias de 36 navios para apenas 24.Uma atualização recente da Autoridade do Canal do Panamá projetou poucas mudanças relevantes no volume de tráfego neste ano, mas indicou que já trabalha com alterações operacionais para 2027, quando se prevê que o efeito do El Niño sobre os níveis de água atinja seu pico. A economia global já vinha incorporando a expectativa de interrupções no abastecimento de energia ao longo do próximo ano, mas talvez ainda tenha de se preparar para enfrentar novos impactos.2026 Fortune Media IP LimitedThe post Um dos El Niños mais fortes custou US$ 5,7 trilhões ao mundo, e 2026 pode ser pior appeared first on InfoMoney.
Artigo originalmente publicado em
www.infomoney.com.br