Você aproxima a mão de um terminal e, em menos de meio segundo, o pagamento é aprovado. Não há cartão, celular, QR Code ou senha. Também não basta uma câmera fotografar a palma da mão. Por trás desse gesto aparentemente simples existe um sistema capaz de identificar características invisíveis sob a pele, transformá-las em uma identidade digital e decidir, em frações de segundo, se aquela pessoa é realmente você.
Essa tecnologia começa a chegar ao Brasil por meio da PalmAI, plataforma desenvolvida pela chinesa Tencent e integrada pela Positivo Tecnologia a terminais de pagamento. Mas entender o que acontece entre o momento em que a mão é aproximada do equipamento e a compra é autorizada exige ir muito além dos materiais de divulgação das empresas.
Em entrevista ao Olhar Digital, Norberto Maraschin Filho, vice-presidente de Negócios de Consumo e Mobilidade da Positivo Tecnologia, detalhou como o sistema cria uma identidade biométrica, de que forma ela é usada para autenticar pagamentos e por que a empresa acredita que essa tecnologia pode se tornar uma nova infraestrutura de identificação digital. A conversa também revelou informações ainda não divulgadas publicamente, como o custo estimado para incorporar a solução aos terminais e os planos para uma carteira digital capaz de reunir diferentes formas de pagamento em um único cadastro.
Nesta reportagem, você vai entender por que a solução não depende apenas de uma imagem da mão, como ela combina diferentes tipos de biometria para reduzir o risco de fraudes e de que maneira essa mesma tecnologia pode ser aplicada não apenas em pagamentos, mas também em hospitais, aeroportos, eventos e serviços públicos.
Como a palma da mão vira sua identidade digital
Antes que qualquer pagamento aconteça, o sistema precisa criar uma identidade biométrica para o usuário. Esse processo é realizado apenas uma vez e transforma a palma da mão em uma credencial digital capaz de comprovar quem é a pessoa sempre que ela voltar a utilizar o terminal. Só depois dessa etapa é que a biometria pode ser vinculada a cartões, Pix ou outros meios de pagamento.
Embora a experiência lembre o cadastro de uma impressão digital ou do reconhecimento facial em um smartphone, a lógica da PalmAI é diferente. Em vez de apenas registrar uma característica física, a plataforma cria uma identidade única para o usuário, que será utilizada nas autenticações futuras. Na prática, o pagamento é apenas uma das aplicações possíveis dessa identidade digital.
Segundo Norberto Maraschin Filho, a biometria funciona como uma substituta da senha. Em vez de digitar um código para provar quem é, o usuário utiliza a própria palma da mão para se identificar de forma segura.
O cadastro acontece apenas uma vez
O registro da biometria pode ser feito diretamente em um terminal compatível ou começar por um aplicativo, onde o usuário realiza um pré-cadastro antes de concluir a validação presencial. Durante esse processo, o sistema faz uma leitura detalhada da palma da mão e cria um identificador interno que será utilizado em todas as autenticações futuras.
A plataforma também permite cadastrar as duas mãos da mesma pessoa. Isso não significa criar duas identidades diferentes, mas associar ambas ao mesmo usuário. Segundo Maraschin, essa flexibilidade permite que diferentes serviços ou formas de pagamento sejam vinculados a cada mão, dependendo da configuração escolhida posteriormente.
Primeiro você cria uma identidade. Depois, essa identidade passa a representar você dentro da plataforma. A partir daí, ela pode ser vinculada aos meios de pagamento e utilizada nas autenticações.
Norberto Maraschin Filho, vice-presidente de Negócios de Consumo e Mobilidade da Positivo Tecnologia
Um “cofre digital” organiza toda essa identidade
Depois que a biometria é registrada, o sistema passa a administrar todas as informações relacionadas àquele usuário. Internamente, a plataforma utiliza uma estrutura que a Positivo chama de vault — um “cofre digital” responsável por armazenar o identificador da pessoa, associar as duas mãos ao mesmo cadastro e controlar quais serviços ou meios de pagamento estão vinculados a cada uma delas.
É essa camada de gerenciamento que permite, por exemplo, associar um cartão de crédito à mão direita e uma chave Pix à esquerda ou alterar essas configurações posteriormente por meio da carteira digital que a empresa está desenvolvendo. Em outras palavras, a palma da mão identifica quem é o usuário; o vault determina o que aquela identidade está autorizada a fazer.
O que acontece quando você aproxima a mão do terminal
O momento em que o usuário aproxima a mão do terminal dura menos de um segundo. Mas, nesse intervalo, o equipamento realiza uma sequência de etapas para confirmar que aquela pessoa é realmente quem diz ser. O processo começa com a captura da biometria da palma da mão — e vai muito além de uma simples fotografia.
Maraschin explica que o sistema utiliza dois sensores trabalhando ao mesmo tempo. Um deles é uma câmera RGB, semelhante às câmeras convencionais, responsável por registrar características visíveis da mão, como formato, linhas e textura da pele. O outro é um sensor infravermelho, capaz de enxergar abaixo da superfície da pele e mapear a rede de vasos sanguíneos da palma.
É justamente essa combinação que diferencia a tecnologia de outras formas de biometria. Enquanto sistemas de reconhecimento facial dependem apenas da imagem capturada por uma câmera, a biometria da palma também analisa características internas do corpo. A luz infravermelha interage com a hemoglobina presente no sangue e evidencia o desenho das veias, formando um padrão considerado único para cada pessoa.
Segundo Maraschin, isso torna a autenticação mais resistente a tentativas de fraude. Mesmo que alguém conseguisse reproduzir a aparência da mão de outra pessoa, ainda seria necessário copiar sua estrutura vascular. O executivo afirma que o algoritmo foi treinado para identificar mãos artificiais desenvolvidas justamente para testar os limites da tecnologia e avalia que a leitura subcutânea tende a ser menos vulnerável ao uso de inteligência artificial do que sistemas baseados apenas em imagens, como o reconhecimento facial.
Depois da leitura, o equipamento também toma outra medida para proteger os dados do usuário: a imagem da palma da mão nunca é armazenada nem enviada para a internet. Ainda dentro do próprio hardware, as informações biométricas passam por um processo de criptografia que gera um identificador matemático — conhecido como hash. É esse código, e não a imagem original, que será utilizado nas autenticações futuras.
“Ele não transmite para a internet a foto da tua mão. Aqui no módulo ele já criptografa. O que sai é um hash, gerado por diversos algoritmos”, explicou o executivo.
Nas utilizações seguintes, basta aproximar novamente a palma da mão para que um novo hash seja criado e comparado ao cadastro existente. Se houver correspondência, a identidade é confirmada e o sistema libera a próxima etapa da operação, seja um pagamento, um controle de acesso ou outro serviço associado àquela biometria. Segundo a Positivo Tecnologia, todo esse processo leva entre 300 e 500 milissegundos.
Para Maraschin, essa velocidade é um dos fatores que tornam a tecnologia viável para o varejo. Segundo o executivo, enquanto um sistema de reconhecimento facial pode levar cerca de dois a três segundos para identificar o usuário, a autenticação pela palma acrescenta apenas entre 300 e 500 milissegundos ao processo, reduzindo o impacto na experiência de pagamento e evitando filas nos caixas.
Como a identidade biométrica vira um pagamento
Depois que a identidade biométrica é criada e autenticada, a palma da mão passa a funcionar como uma credencial digital. Ela não movimenta dinheiro por si só nem substitui automaticamente cartões ou chaves Pix. Sua função é confirmar a identidade do usuário para que o sistema saiba qual forma de pagamento deve ser utilizada naquela transação.
É justamente aí que entra um dos diferenciais da plataforma. Durante o cadastro, o usuário pode vincular sua identidade biométrica a diferentes meios de pagamento. Segundo Maraschin, uma das possibilidades é associar a mão direita a um cartão de crédito e a esquerda a uma chave Pix. A ideia, porém, vai além dessa divisão física.
Uma carteira digital para administrar as mãos
Maraschin conta que a empresa desenvolve uma carteira digital que permitirá administrar todos esses vínculos em um único lugar. Assim como acontece hoje em carteiras digitais para smartphones, o usuário poderá cadastrar diferentes cartões, definir prioridades, escolher qual meio de pagamento utilizar e alterar essas configurações sem precisar refazer o cadastro biométrico.
Segundo o executivo, esse aplicativo já deve acompanhar os primeiros lançamentos da tecnologia. Inicialmente, porém, ele terá poucas funções práticas, já que os usuários ainda estarão começando a cadastrar suas identidades biométricas. Com o avanço da adoção, a carteira permitirá alterar essas configurações sem a necessidade de realizar um novo cadastro da palma da mão.
Essa flexibilidade também explica por que a Positivo prefere definir a palma da mão como uma plataforma de autenticação, e não apenas como um novo meio de pagamento. Dependendo da configuração adotada por bancos, adquirentes ou estabelecimentos comerciais, a biometria poderá apenas substituir a digitação da senha em determinadas compras ou assumir toda a autenticação da transação, eliminando inclusive a necessidade de apresentar um cartão físico.
O pagamento por aproximação ajuda a ilustrar essa diferença. Hoje, compras acima de determinado valor costumam exigir que o consumidor aproxime o cartão ou o celular e, em seguida, digite uma senha. Com a biometria da palma, essa autenticação pode ser feita pela própria mão. Em outros cenários, se o cartão já estiver vinculado à identidade biométrica, nem mesmo o NFC será necessário: bastará aproximar a palma do terminal para que o sistema identifique o usuário e autorize a transação.
Na avaliação de Maraschin, esse é um dos motivos pelos quais a empresa aposta na biometria da palma da mão como evolução dos meios atuais de pagamento por aproximação. O executivo afirma que soluções como o Tap to Pay (que transforma o telefone celular em uma maquininha de cartão para aceitar pagamentos por aproximação) ainda enfrentam barreiras de adoção em parte do varejo, enquanto a autenticação biométrica elimina a necessidade de cartão, celular e senha em uma única etapa.
“Ela não substitui necessariamente o NFC. Ela pode complementar essa tecnologia quando é preciso autenticar o usuário. Mas, se o cartão estiver associado à palma da mão, aí você também elimina a necessidade do cartão plástico”, explicou o executivo.
Como a Tencent transformou a palma da mão em uma plataforma de autenticação
Embora o terminal apresentado no Brasil seja fabricado pela Positivo Tecnologia, o sistema de reconhecimento biométrico não foi desenvolvido pela empresa brasileira. A tecnologia é baseada no PalmAI, plataforma criada pela Tencent Cloud e já utilizada em diferentes aplicações de autenticação fora do país. A parceria combina a experiência da Tencent em algoritmos de reconhecimento biométrico com a especialização da Positivo em terminais de pagamento e integração com o ecossistema financeiro brasileiro.
Segundo Norberto Maraschin Filho, a principal diferença do PalmAI está na forma como ele identifica o usuário. Em vez de exigir uma identificação prévia do usuário para comparar a biometria cadastrada, o sistema faz a correspondência automaticamente com a base de usuários. Na prática, isso elimina uma etapa da autenticação e reduz o atrito durante o pagamento.
O executivo usa a Amazon One como contraponto. Segundo ele, a solução da empresa americana dependia de uma identificação prévia do usuário antes da leitura biométrica, realizando uma comparação “um para um”. Já a tecnologia da Tencent funciona no modelo conhecido como “um para N”: basta aproximar a palma da mão para que o algoritmo procure automaticamente a identidade correspondente entre todos os cadastros disponíveis.
“Você não precisa se identificar. Vai fazer um match de um para 200 milhões de brasileiros na nossa base para dizer que você é você”, afirmou Maraschin. Na avaliação do executivo, essa capacidade de identificar o usuário sem etapas adicionais é um dos fatores que tornam a solução mais rápida e adequada para ambientes como supermercados, eventos e outros pontos de grande circulação.
Enquanto a Tencent fornece o mecanismo de reconhecimento biométrico, a Positivo é responsável por integrar essa tecnologia ao terminal de pagamento, desenvolver o hardware e conectar a plataforma aos diferentes participantes do mercado brasileiro, como adquirentes, bancos, bandeiras e desenvolvedores de software. Segundo Maraschin, é justamente essa camada de integração que permitirá que a biometria seja utilizada em diferentes cenários de autenticação, e não apenas em pagamentos.
Por que as empresas acreditam que a palma da mão pode virar o próximo Pix
Embora os primeiros projetos devam começar de forma gradual, a expectativa da Positivo Tecnologia é que a biometria da palma da mão deixe de ser uma novidade para se tornar parte da infraestrutura de autenticação usada diariamente por consumidores e empresas. Para o vice-presidente da Positivo, a tecnologia tem potencial para seguir uma trajetória semelhante à do Pix: começa em projetos pontuais, mas tende a ganhar escala à medida que bancos, adquirentes, varejistas e desenvolvedores passam a falar a mesma linguagem.
O papel da Positivo no ecossistema
Para que a tecnologia funcione fora dos laboratórios, não basta que o algoritmo reconheça a palma da mão. É preciso que bancos, adquirentes, bandeiras de cartão e sistemas de pagamento consigam conversar entre si. É justamente nessa integração que a Positivo diz concentrar seu trabalho.
A Tencent fornece o mecanismo de reconhecimento da palma da mão, mas cabe à Positivo conectar essa tecnologia aos terminais de pagamento, às adquirentes, às bandeiras de cartão, aos bancos e às empresas que desenvolvem os sistemas utilizados no comércio. É essa camada de integração que permite transformar um algoritmo de reconhecimento biométrico em uma plataforma capaz de autenticar pagamentos, controlar acessos e validar identidades em diferentes serviços.
Essa lógica também explica por que a empresa enxerga aplicações muito além do varejo. Hospitais podem utilizar a biometria para confirmar a identidade de pacientes antes de consultas ou procedimentos. Segundo Maraschin, alguns projetos-piloto na área da saúde estudam justamente esse uso para reduzir fraudes e garantir que o paciente atendido seja realmente quem está cadastrado no sistema. Empresas podem controlar o acesso a áreas restritas. Já órgãos públicos estudam o uso da tecnologia em processos como prova de vida, validação de benefícios e identificação de cidadãos, reduzindo fraudes e eliminando etapas burocráticas. Em todos esses cenários, a palma da mão deixa de ser apenas uma forma de pagar e passa a funcionar como uma credencial única de identidade.
Quanto custa colocar essa tecnologia em uma maquininha
Outro ponto que a Positivo considera decisivo para a adoção é o custo. Em vez de exigir equipamentos dedicados apenas à biometria, a empresa integrou o módulo de leitura da palma ao terminal de pagamentos, aproveitando uma plataforma que já faz parte da rotina do comércio.
Norberto Maraschin afirma que essa foi justamente uma das principais decisões do projeto. Em vez de criar um equipamento exclusivo para a biometria, a empresa optou por incorporar a tecnologia a um terminal que o varejo já utiliza diariamente, reduzindo a complexidade da implantação.
Segundo o executivo, incorporar o módulo de biometria da palma da mão ao terminal tem um impacto inferior a US$ 100 no ponto de venda — informação revelada pela primeira vez durante entrevista ao Olhar Digital. Na avaliação dele, o investimento tende a ser compensado pelo ganho de produtividade nos caixas, pela redução de filas e pela eliminação de etapas de autenticação durante o atendimento.
Na avaliação de Maraschin, esse ganho vai além do pagamento em si. Ele cita como exemplo processos comuns no varejo, como a identificação para programas de fidelidade, a confirmação da idade para compra de bebidas alcoólicas e outras verificações que hoje exigem documentos, senhas ou a digitação do CPF.
Essa combinação entre integração ao ecossistema de pagamentos, baixo custo de implantação e múltiplas possibilidades de uso explica por que o vice-presidente da Positivo acredita que a tecnologia possa seguir um caminho semelhante ao do Pix.
Eu acredito que essa tecnologia vai virar um Pix.
Norberto Maraschin Filho, vice-presidente de Negócios de Consumo e Mobilidade da Positivo Tecnologia
A comparação ousada não significa que a palma da mão substituirá o sistema de pagamentos instantâneos criado pelo Banco Central. A ideia é outra: assim como o Pix transformou a forma de movimentar dinheiro no Brasil, a biometria pode se tornar uma infraestrutura comum de autenticação, presente em diferentes bancos, aplicativos e serviços, independentemente da instituição utilizada pelo consumidor.
O post “Vai virar um Pix”: executivo revela os bastidores da tecnologia da palma da mão apareceu primeiro em Olhar Digital.