Com a naturalidade de quem descreve o trivial, Valdemar Costa Neto sentou diante das câmeras nesta terça-feira (14) e tratou como óbvio aquilo que muitos preferem deixar nas sombras: presidentes de partido interferem — e devem interferir — na destinação de emendas parlamentares. Para o líder do PL, isso não é distorção do sistema, é a função do cargo.
O argumento de Valdemar tem uma lógica interna que merece ser examinada: segundo ele, o deputado, naturalmente, olha para o próprio reduto eleitoral. Quem tem a obrigação de pensar no conjunto, na estratégia nacional do partido, seria a direção. Portanto, concentrar nas mãos da cúpula o poder de direcionar recursos seria, na visão dele, uma correção de rumo, não um desvio.
Questionado se outros presidentes de partido adotam a mesma prática, a resposta foi curta e sem constrangimento: lógico. A declaração, dita com tal despretensão, escancara o que especialistas em controle de gastos públicos denunciam há anos — as emendas parlamentares, criadas para dar ao legislador autonomia de investimento em sua região, tornaram-se moeda de troca gerenciada por caciques, não pelos eleitos diretamente.
O imbróglio em torno das emendas não é novo, mas ganhou força após o Supremo Tribunal Federal determinar maior transparência e rastreabilidade dos repasses. A decisão incomodou justamente porque expôs a distância entre o que a Constituição prevê e o que acontece na prática. A fala de Valdemar, nesse contexto, soa menos como defesa e mais como confissão coletiva do sistema.
No fundo, o que o presidente do PL fez foi colocar em palavras simples uma engrenagem que move boa parte da relação entre Executivo e Legislativo no Brasil: emendas são poder, poder é negociado por quem está no topo, e o parlamentar individual é, muitas vezes, apenas o rosto visível de uma decisão tomada muito acima da sua cabeça.