A sonda Psyche, da NASA, concluiu com sucesso seu sobrevoo por Marte em 15 de maio, utilizando a gravidade do planeta para ganhar velocidade e ajustar levemente sua trajetória rumo ao asteroide metálico Psyche, destino final da missão previsto para 2029.
Além da manobra gravitacional, a passagem serviu como um importante teste para os instrumentos científicos da espaçonave, que coletaram uma grande quantidade de dados e registraram imagens do planeta vermelho.
Segundo a agência espacial estadunidense, as informações obtidas nas semanas seguintes ao sobrevoo mostraram que todos os instrumentos funcionaram conforme o esperado, produzindo medições compatíveis com o conhecimento já existente sobre Marte e fornecendo também novos detalhes sobre o planeta.
Utilizando Marte como um substituto do asteroide Psyche durante o encontro, a equipe conseguiu validar os equipamentos que serão responsáveis pelos estudos científicos quando a sonda chegar ao seu destino.
“As equipes da câmera, do magnetômetro e do espectrômetro de raios gama e nêutrons trabalharam intensamente para aproveitar ao máximo esse encontro planetário, e todos os instrumentos entregaram excelentes resultados”, afirmou Lindy Elkins-Tanton, investigadora principal da missão Psyche na Universidade da Califórnia, em Berkeley (EUA).
Ela destacou que grandes descobertas sobre Marte não eram esperadas devido ao extenso histórico de estudos do planeta. “Não esperávamos grandes descobertas, considerando o quanto o planeta já foi estudado, mas complementamos a ciência de Marte com os dados coletados a partir da perspectiva única da Psyche.”
Detector de nêutrons confirma desempenho durante passagem por Marte
- Um dos principais testes envolveu o espectrômetro de raios gama e nêutrons, instrumento que será utilizado para determinar a composição química da superfície do asteroide Psyche;
- O equipamento funciona medindo nêutrons e raios gama emitidos por um corpo celeste após sua superfície ser bombardeada por raios cósmicos de alta energia;
- A análise dessas emissões permite identificar quais elementos químicos estão presentes no solo;
- Como a sonda passou a aproximadamente 4.609 quilômetros de altitude sobre Marte, a distância era grande demais para detectar raios gama provenientes do planeta. Ainda assim, os cientistas esperavam registrar nêutrons escapando da superfície e da atmosfera marcianas;
- Segundo a NASA, isso ocorreu conforme previsto.
“Por volta do momento de maior aproximação de Marte, o espectrômetro de nêutrons detectou um aumento na taxa de contagem muito próximo do que esperávamos. Foi muito gratificante observar isso”, disse David Lawrence, responsável científico pelo espectrômetro da missão no Laboratório de Física Aplicada da Universidade Johns Hopkins.
Ele acrescentou que, conforme previsto, não houve detecção de raios gama provenientes de Marte, mas o instrumento foi plenamente testado e apresentou excelente desempenho.
Magnetômetro registra pela primeira vez o campo magnético de um corpo celeste
Outro equipamento colocado à prova foi o magnetômetro da missão, ativo desde o lançamento da Psyche em 2023.
O instrumento foi desenvolvido para medir o campo magnético do asteroide Psyche e ajudar a testar a hipótese de que ele representa o núcleo metálico remanescente de um planetesimal — um dos blocos fundamentais da formação de planetas rochosos.
Até então, o magnetômetro vinha registrando continuamente o campo magnético do vento solar durante a viagem da espaçonave, incluindo períodos de ejeções de massa coronal emitidas pelo Sol.
O sobrevoo por Marte marcou, porém, a primeira vez em que o equipamento mediu a assinatura magnética de um corpo celeste.
“À medida que a espaçonave passou próxima de Marte, o magnetômetro registrou um intenso aumento do campo magnético correspondente à região do choque de proa, onde o vento solar colide com o campo magnético do planeta”, explicou Ben Weiss, investigador adjunto da missão e responsável pelos estudos de magnetometria no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT).
Segundo ele, o teste confirmou o desempenho do equipamento em condições dinâmicas e também revelou aspectos interessantes da física do magnetismo planetário.
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Câmeras registram imagens raras de Marte e produzem vídeo em time-lapse
A câmera multiespectral da Psyche também foi utilizada durante o encontro com Marte. O sistema é composto por duas câmeras idênticas, projetadas para fotografar a superfície do asteroide em diferentes comprimentos de onda da luz.
Desde o início de maio, antes mesmo da aproximação máxima, o equipamento começou a registrar imagens do planeta vermelho. Como a nave se aproximou em um ângulo elevado em relação ao Sol, Marte apareceu inicialmente como um fino crescente iluminado, com a luz solar espalhando-se por sua atmosfera.
Durante a maior aproximação, as câmeras capturaram imagens detalhadas da superfície marciana, incluindo crateras moldadas pelos ventos, a calota polar sul e a grande cratera Huygens, caracterizada por possuir dois anéis.
Essas imagens compõem um vídeo em time-lapse divulgado pela NASA, reunindo registros feitos ao longo de aproximadamente um mês durante a sequência do sobrevoo. “A câmera teve um desempenho brilhante, entregando algumas imagens raramente vistas do planeta vermelho”, afirmou Jim Bell, responsável pelo instrumento na Universidade Estadual do Arizona (EUA).
Segundo Bell, além da qualidade estética das fotografias, a equipe conseguiu testar completamente a calibração do equipamento e sua sensibilidade à luz espalhada.
O pesquisador destacou ainda que as câmeras conseguiram identificar, a grande distância, as luas marcianas Fobos e Deimos. O procedimento servirá como treinamento para a futura busca por pequenos satélites naturais que possam existir ao redor do asteroide Psyche.
Para calibrar os equipamentos, a equipe está comparando as imagens obtidas pela Psyche com registros produzidos por outras missões em Marte, incluindo os orbitadores Mars Reconnaissance Orbiter e 2001 Mars Odyssey, os robôs Curiosity e Perseverance, além das missões Mars Express e ExoMars Trace Gas Orbiter, da Agência Espacial Europeia (ESA, na sigla em inglês), e da missão Hope, dos Emirados Árabes Unidos.
Espaçonave segue rumo ao asteroide Psyche
Após concluir a assistência gravitacional, a sonda segue diretamente em direção ao asteroide Psyche, localizado no cinturão principal de asteroides entre Marte e Júpiter.
Segundo Bob Mase, gerente do projeto no Laboratório de Propulsão a Jato (JPL) da NASA, o sobrevoo foi resultado de anos de planejamento. “Essa assistência gravitacional levou anos para ser preparada e a equipe de navegação executou a manobra com precisão. A Psyche passou por Marte exatamente na trajetória de que precisávamos para colocá-la no caminho do encontro com o asteroide no verão de 2029.”
Ele acrescentou que a espaçonave permanece em excelentes condições e que a missão continua dentro do cronograma para retomar, no segundo semestre deste ano, o funcionamento contínuo do sistema de propulsão elétrica movido a energia solar.
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