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A machosfera nas telas dos adolescentes: o que a escola precisa saber

Redação Recifes
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A machosfera nas telas dos adolescentes: o que a escola precisa saber

Imagine um estudante do ensino médio que acorda, pega o celular e, antes mesmo do café da manhã, consome uma série de vídeos e postagens que ensinam que homens são naturalmente superiores, que mulheres devem ser controladas e que demonstrar empatia é sinal de fraqueza. Esse cenário, longe de ser ficção, descreve a rotina de milhares de adolescentes brasileiros que circulam pelo que especialistas chamam de machosfera — um ecossistema digital formado por canais, fóruns e perfis dedicados a disseminar ideologias misóginas disfarçadas de conselhos de autodesenvolvimento masculino.

O termo pode soar técnico, mas o fenômeno é concreto e rastreável. A machosfera reúne desde comunidades que pregam abertamente o ódio às mulheres até perfis aparentemente inofensivos que falam sobre academia, finanças e conquista amorosa — e que, gradualmente, introduzem narrativas de dominação e ressentimento. Criadores de conteúdo como Andrew Tate, que acumula dezenas de milhões de seguidores globais, tornaram-se figuras centrais desse universo, sendo amplamente consumidos por meninos entre 12 e 17 anos. A eficácia desse tipo de conteúdo reside justamente na embalagem: a mensagem de ódio raramente aparece nua. Ela vem envolta em promessas de sucesso, força e identidade — exatamente o que um adolescente em formação mais busca.

Para a escola, ignorar esse movimento é um erro estratégico. Professores relatam perceber nas salas de aula sinais claros da influência desse tipo de conteúdo: comentários depreciativos sobre meninas, resistência a figuras de autoridade femininas e, em casos mais graves, episódios de assédio normalizados entre os próprios estudantes. O problema não é apenas comportamental — é epistemológico. Jovens que consomem conteúdo da machosfera passam a operar com uma lógica de mundo radicalmente distorcida, na qual relações humanas são traduzidas em hierarquias de poder e qualquer expressão de vulnerabilidade é lida como derrota. Reverter esse quadro exige muito mais do que uma aula avulsa sobre respeito.

Educadores e pesquisadores em desenvolvimento juvenil apontam que a atração pela machosfera costuma se intensificar em momentos de insegurança — e a adolescência é, por definição, um período de busca por pertencimento e identidade. Quando a escola e a família não oferecem espaços seguros para que meninos discutam pressões, medos e contradições da experiência masculina, o vácuo é preenchido por vozes que oferecem certezas fáceis e inimigos convenientes. Por isso, a resposta educacional mais eficaz não é apenas o combate frontal ao discurso misógino, mas a construção de alternativas genuínas: ambientes onde diferentes formas de ser homem possam ser exploradas sem julgamento e onde habilidades socioemocionais sejam tão valorizadas quanto o desempenho acadêmico.

Pais e educadores não precisam se tornar especialistas em algoritmos para agir. Precisam, antes de tudo, manter conversas reais com os jovens sobre o que consomem online — sem julgamento imediato, mas com curiosidade genuína. Perguntar o que um criador de conteúdo defende, por que aquilo parece verdadeiro, o que o jovem sente ao assistir: essas questões simples ativam o pensamento crítico que a machosfera tenta desligar. A literacia midiática, cada vez mais necessária no currículo escolar, é uma das ferramentas mais poderosas contra a radicalização silenciosa que acontece, muitas vezes, a poucos metros de nós — na tela do quarto ao lado.

Artigo originalmente publicado em g1.globo.com
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