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Alta-costura em Paris: quando a ousadia vira estratégia de sobrevivência

Redação Recifes
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Alta-costura em Paris: quando a ousadia vira estratégia de sobrevivência

Há uma pergunta que paira silenciosamente sobre cada desfile de alta-costura em Paris: para quem, afinal, essas roupas existem? O público que pode comprar um vestido feito à mão, bordado durante centenas de horas por ateliers especializados, é numericamente irrisório. E ainda assim, duas vezes por ano, as grandes maisons mobilizam exércitos de costureiras, cenógrafos e editores de moda para um ritual que mistura arte, mercado e mitologia. O que mudou, nos últimos anos, é que esse ritual passou a exigir justificativa.

A Dior respondeu ao desafio com uma dose generosa de imaginação vegetal: bolsas esculpidas em forma de cacto tornaram-se um dos momentos mais comentados da temporada, funcionando menos como acessórios e mais como manifestos visuais. É o tipo de peça que nunca será usada no cotidiano — e sabe disso. Sua função é habitar o imaginário, circular nas redes sociais, virar símbolo de uma estética que a marca quer associar ao seu nome. A irreverência, aqui, é calculada com precisão milimétrica.

A Chanel optou por um caminho diferente, mas igualmente carregado de intenção: trepadeiras que tomavam conta do cenário criavam uma atmosfera ao mesmo tempo opulenta e inquietante. A natureza como metáfora — da vitalidade, do crescimento incontrolável, talvez até da resistência — parece ser um terreno fértil para casas que precisam dizer algo além de 'somos caros e exclusivos'. O luxo sem narrativa perdeu força; o que seduz hoje é o luxo com ponto de vista.

Giorgio Armani, por sua vez, segue um percurso próprio: menos barulho, mais construção. Sua alta-costura nunca disputou o troféu da extravagância, mas nesta temporada o estilista italiano pareceu ampliar seus limites formais sem abrir mão da contenção que é sua assinatura. É uma ousadia mais discreta, mas não menos eficaz — especialmente num cenário em que gritar virou norma e o silêncio elegante passou a ser o gesto mais subversivo possível.

O que une essas apostas distintas é um mesmo diagnóstico: a alta-costura não pode mais se sustentar apenas sobre a tradição. Ela precisa seduzir, provocar e, acima de tudo, existir com urgência no presente. Seja pelo cacto inusitado da Dior, pelas vinhas sombrias da Chanel ou pela geometria refinada de Armani, Paris voltou a afirmar que a costura de alto nível ainda tem algo a dizer — desde que esteja disposta a arriscar.

Artigo originalmente publicado em redir.folha.com.br
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