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Angola enfrenta crise silenciosa: mais de 60% das crianças vivem sem identidade civil

Redação Recifes
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Angola enfrenta crise silenciosa: mais de 60% das crianças vivem sem identidade civil

Uma criança que nasce sem registro não existe para o Estado. Não pode frequentar escolas formais, acessar serviços de saúde pública com facilidade, obter passaporte ou exercer direitos básicos de cidadania. É exatamente essa a situação de mais de seis em cada dez crianças em Angola, onde a taxa de não registro entre menores chega a alarmantes 60,8%, segundo dados divulgados pelo próprio governo angolano. Apenas 39,2% dos jovens cidadãos do país possuem algum documento de identificação civil.

As autoridades angolanas apontam dois fatores principais para esse cenário. O primeiro é cultural: muitas famílias simplesmente não têm o hábito de formalizar o nascimento de seus filhos perante os cartórios e órgãos do Estado, uma prática que ainda não está enraizada em diversas comunidades, especialmente nas zonas rurais e periféricas. O segundo fator é estrutural: uma parcela significativa dos partos ainda ocorre em domicílios ou com a assistência de parteiras tradicionais, fora do alcance das unidades de saúde pública, que normalmente são o ponto de entrada para o processo de registro civil.

A combinação entre ausência de infraestrutura e resistência cultural cria um ciclo difícil de romper. Sem a presença de profissionais de saúde no momento do nascimento, o evento simplesmente não entra nos sistemas oficiais. E sem essa notificação inicial, o caminho até o cartório torna-se mais longo, burocrático e, para muitas famílias em situação de vulnerabilidade, inacessível na prática.

O problema não é exclusivo de Angola. Em vários países da África Subsaariana e em regiões remotas da América Latina e Ásia, o subregistro de nascimentos ainda representa um desafio significativo para políticas públicas de inclusão e proteção à infância. Organismos internacionais como o Unicef há anos alertam que a ausência de documentação civil é uma das formas mais invisíveis — e mais profundas — de exclusão social, pois impede que o Estado sequer reconheça a existência de uma criança.

O governo angolano sinalizou que pretende intensificar campanhas de conscientização e ampliar a capilaridade dos serviços de registro civil, incluindo iniciativas móveis que levem os cartórios até as comunidades mais distantes. O desafio, porém, vai além da logística: exige também um diálogo respeitoso com as tradições locais, de modo que a formalização do nascimento seja percebida pelas famílias não como uma imposição burocrática, mas como uma conquista de direitos para seus filhos.

Artigo originalmente publicado em www.rfi.fr
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