Estreito de Ormuz bate recorde de tráfego pós-guerra e anima mercados de energia
<p>O Estreito de Ormuz, corredor marítimo por onde passa cerca de 20% de todo o petróleo consumido no planeta, voltou ao centro das atenções dos mercados financeiros globais nesta segunda-feira (23). Dados coletados pela plataforma especializada Kpler mostram que ao menos 35 embarcações carregadas cruzaram o trecho em um único dia — o volume mais expressivo registrado desde que o conflito no Oriente Médio se aprofundou, no final de fevereiro deste ano.</p><p>O número ainda representa pouco mais de um quarto do movimento observado em períodos de estabilidade regional, quando a média diária costumava orbitar 120 navios. Mesmo assim, a retomada é lida como um sinal relevante por analistas de commodities e gestores de risco: o fluxo está se normalizando, ainda que em passos lentos. A divulgação ocorre exatamente uma semana após o anúncio de um memorando de entendimento entre Irã e Estados Unidos, documento que acendeu expectativas de distensão diplomática entre as duas potências.</p><p>A importância estratégica da passagem para a economia mundial é enorme. Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Kuwait, Iraque e o próprio Irã dependem dessa rota para escoar a maior parte de suas exportações de petróleo bruto e gás natural liquefeito. Qualquer perturbação — seja por escalada militar, ameaças de bloqueio ou elevação do prêmio de risco marítimo — se traduz quase que imediatamente em alta nos preços do barril e, em cadeia, pressiona a inflação de países importadores de energia ao redor do globo, incluindo o Brasil.</p><p>Nesse contexto, o recorde de tráfego funciona como um termômetro da percepção de risco geopolítico. Armadores e seguradoras marítimas só retomam rotas consideradas perigosas quando avaliam que a janela de segurança justifica a operação. O movimento desta semana indica que uma parcela relevante do mercado está, por ora, apostando em um intervalo de menor hostilidade — o que tende a aliviar a pressão sobre os preços do petróleo no curto prazo e beneficiar toda a cadeia produtiva dependente de energia.</p><p>A cautela, no entanto, segue sendo a palavra de ordem entre economistas e gestores que monitoram o setor. Negociações entre Washington e Teerã historicamente avançam em ritmo não linear, e uma reversão no diálogo pode desfazer rapidamente o otimismo atual. O recorde de hoje é um dado positivo e concreto, mas o Estreito de Ormuz permanece sendo, ao mesmo tempo, a artéria mais vital e o ponto mais vulnerável do comércio global de energia — e qualquer turbulência ali ressoa com rapidez nos mercados financeiros do mundo inteiro.</p>
Artigo originalmente publicado em
g1.globo.com