Para Verity Harding, ex-líder de política global da DeepMind, o problema não é apenas a velocidade com que a inteligência artificial avança. O risco maior está na narrativa que passou a dominar o debate: a ideia de que a IA virou uma corrida entre potências e empresas, em que vencer importa mais do que construir regras comuns.
Harding argumenta que essa mudança de linguagem tem consequências práticas. Quando governos e laboratórios passam a enxergar a IA como uma arma estratégica, a tendência é reduzir a transparência, endurecer disputas comerciais e trocar colaboração por desconfiança. No lugar de um esforço coletivo para ampliar segurança e benefícios, ganha força uma lógica de rivalidade permanente.
Ela critica especialmente o tom nacionalista que vem ganhando espaço nos Estados Unidos, inclusive com propostas de controle sobre modelos desenvolvidos no próprio país. Na avaliação da ex-executiva, esse tipo de postura pode até parecer proteção estratégica, mas na prática empurra o setor para mais centralização de poder e menos cooperação internacional, justamente o oposto do que seria desejável para uma tecnologia tão sensível.
Em um novo conjunto de ensaios organizado por Harding, a saída defendida é ampliar o papel de países que não querem ficar presos à disputa entre EUA e China. A ideia é formar uma coalizão de potências intermediárias, capaz de preservar espaço para diálogo, influenciar padrões globais e impedir que o futuro da IA seja decidido apenas por dois polos de poder.