Quem entra no carro de Reni José Schmitt, de 57 anos, em Rio Branco, pode esperar uma corrida diferente. As janelas viram vitrine, o banco traseiro vira estante e o papo, quase sempre, cai no assunto favorito do motorista: os livros. Gaúcho de origem, Reni dedicou mais de 30 anos da vida a vender literatura porta a porta em escolas e feiras pelo país — uma vocação que ele se recusou a abandonar mesmo quando o corpo pediu uma pausa.
Após passar por uma cirurgia para retirada de varizes, ele se viu impedido de carregar as pesadas caixas que faziam parte do seu dia a dia como representante editorial. A solução encontrada foi se cadastrar como motorista de aplicativo em Rio Branco, cidade onde vive atualmente. Mas Reni não deixou os livros para trás: adaptou o carro para exibir títulos durante as viagens, criando uma espécie de livraria ambulante sobre quatro rodas.
A iniciativa, que existe há pouco mais de um mês, já chama atenção de passageiros curiosos. Alguns pedem indicações, outros folheiam as obras durante o trajeto e há quem feche negócio antes de desembarcar. Para Reni, o objetivo vai além da venda: ele quer despertar o interesse pela leitura em quem talvez nunca tenha parado para pensar nisso. "As viagens ficam mais suaves", costuma dizer o motorista, referindo-se tanto ao clima de bordo quanto ao efeito que uma boa história pode ter no dia de alguém.
A ideia une dois mundos que, à primeira vista, parecem distantes — o trânsito agitado de uma capital amazônica e o silêncio reflexivo que um livro proporciona. Em um país onde os índices de leitura ainda preocupam especialistas, a atitude de Reni funciona como um lembrete de que incentivar o hábito de ler não exige grandes estruturas: às vezes, basta um carro, uma prateleira improvisada e a disposição de conversar sobre o que está escrito nas páginas.