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Fala como o povo fala: por que a língua pertence a quem a usa

Redação Recifes
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Fala como o povo fala: por que a língua pertence a quem a usa

Toda vez que um grande evento mobiliza multidões — uma Copa do Mundo, uma eleição, um festival literário — a língua aparece no centro do debate quase por acidente. Alguém comenta um gol, outro corrige a preposição, e de repente estamos todos discutindo gramática no lugar de futebol. Não é à toa. É que a língua é o único bem verdadeiramente coletivo: nenhuma academia, nenhum dicionário e nenhum professor a possui sozinho.

No português do Brasil, dizemos naturalmente na África, assim como dizemos no Brasil e no Japão. O artigo definido se cola ao continente ou ao país como se sempre tivesse estado lá. Já em Portugal, o uso sem artigo — em África, em França — soa igualmente natural, porque foi assim que aquela comunidade de falantes construiu o seu jeito de dizer o mundo. Duas normas, uma só língua: eis o milagre e o eterno dilema do português.

O caso do Senegal ilustra bem essa partilha. No Brasil, os países que não costumam vir acompanhados de artigo — e o Senegal é um deles, diferente do Marrocos ou do Egito — pedem a preposição simples: gol de Senegal, viagem ao Senegal (quando usamos o artigo) ou vindo de Senegal (quando dispensamos). A lógica não é caprichosa; ela segue padrões que os falantes absorvem muito antes de qualquer aula de gramática, pela pura imersão na língua viva.

Escritores sabem disso melhor do que ninguém. João Guimarães Rosa inventava palavras, Clarice Lispector torcia a sintaxe até o limite, e ambos eram reconhecidos como gênios — não apesar das suas liberdades linguísticas, mas por causa delas. A norma culta existe e tem valor: ela garante inteligibilidade, coesão, prestígio social em determinados contextos. Mas ela nunca foi um decreto divino. É um consenso negociado, que muda a cada geração de leitores, escritores e falantes comuns.

Então, quando a próxima dúvida surgir — artigo ou não, crase ou não, hífen ou não — vale respirar fundo e lembrar: a língua não é uma estátua de mármore a ser preservada em vitrine. É um rio, e todos nós somos, ao mesmo tempo, suas margens e sua corrente.

Artigo originalmente publicado em redir.folha.com.br
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