O Brasil tem um problema que não cabe mais em silêncios: 11 milhões de mulheres carregam sozinhas o peso financeiro e emocional de criar filhos cujos pais decidiram simplesmente desaparecer da conta. Não é coincidência. É opção sistemática de homens que descobriram ser lucrativo ser invisível nas certidões de nascimento enquanto contam com a solidão econômica de suas ex-parceiras.
Os números denunciam a falha: 1,7 milhão de crianças nascidas à sombra de uma paternidade negada. Mais de 600 mil processos judiciais em fila, travados em uma máquina judiciária que funciona com a velocidade de uma tartaruga em hibernação. Enquanto isso, mães trabalham em múltiplos turnos para compensar a ausência que a lei reconhece mas não consegue punir adequadamente.
O Congresso finalmente reconheceu que a caneta não resolve o problema. Daí veio a ideia de usar o Pix como ferramenta de cobrança: pagamentos instantâneos, sem escapatória de depósitos atrasados ou contas correntes que desaparecem. É pragmatismo disfarçado de tecnologia. A lei não muda a mentalidade dos irresponsáveis, mas pelo menos tira deles o conforto de fingir que esqueceram de pagar a pensão.
A aprovação desse projeto de lei é um reconhecimento amargo: o Estado não consegue cobrar responsabilidade parental através dos mecanismos tradicionais. Precisamos de Pix porque precisamos de vigilância. Precisamos de instantaneidade porque a lentidão permitiu que milhões de crianças fossem sacrificadas. O remédio chegou tarde, mas é melhor tarde do que nunca deixar quem depende dessa renda continuar esperando.