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Museu de Nova York tenta reparar um século de violência: 2.700 mechas de cabelo indígena serão devolvidas

Redação Recifes
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Museu de Nova York tenta reparar um século de violência: 2.700 mechas de cabelo indígena serão devolvidas

Há algo de perturbador na imagem: uma criança indígena, arrancada de sua família e enviada a centenas de quilômetros de distância para ser "civilizada", senta-se diante de um estranho com tesouras nas mãos. Não se trata de ficção — foi o cotidiano de milhares de crianças nativas americanas nos Estados Unidos do final do século XIX, quando internatos governamentais tinham como missão explícita apagar culturas milenares. É desse passado sombrio que um museu nova-iorquino tenta, hoje, se desvencilhar: a instituição anunciou que trabalhará para restituir às comunidades de origem cerca de 2.700 mechas de cabelo coletadas de crianças indígenas por pesquisadores da época.

Entre os casos mais emblemáticos está o de duas meninas da tribo Rosebud Sioux, no estado de Nebraska. Morando em um internato a aproximadamente 370 quilômetros de sua reserva natal, elas tiveram os cabelos cortados por um antropólogo que, sob o pretexto da ciência, acumulava amostras humanas como quem cataloga espécimes de laboratório. Para os Sioux — assim como para muitas outras nações indígenas —, o cabelo não é mero tecido biológico. Ele carrega identidade, espiritualidade e pertencimento. Cortá-lo à força era, também, um ato de violência simbólica.

A prática de coletar material genético e restos mortais de povos indígenas era corriqueira nos círculos acadêmicos e museológicos do século XIX e início do XX. Inseridas numa lógica pseudocientífica que hierarquizava raças e culturas, essas coleções serviram para justificar políticas de extermínio e assimilação. Décadas depois, o peso ético dessas escolhas recai sobre as instituições que herdaram tais acervos — e que agora enfrentam a tarefa de desfazer, ao menos em parte, esse legado.

A decisão do museu nova-iorquino se insere num movimento crescente de repatriação que ganhou força nos Estados Unidos após a aprovação, em 1990, da lei conhecida como NAGPRA (Native American Graves Protection and Repatriation Act). Mesmo assim, o processo avança lentamente: identificar as origens de cada item, localizar as comunidades descendentes e conduzir as negociações exige tempo, recursos e, sobretudo, vontade institucional. Para muitos representantes indígenas, o prazo sempre foi longo demais — e a dor, urgente demais para esperar.

Devolver 2.700 mechas de cabelo é, ao mesmo tempo, um gesto simbólico e um reconhecimento tardio de que objetos de museu podem ser feridas abertas. Para as famílias que aguardam, trata-se de recuperar um fragmento de história que nunca deveria ter saído de suas mãos — ou de suas cabeças. A literatura e a cultura têm muito a aprender com esse debate: afinal, quem detém o direito de narrar, preservar e guardar a memória de um povo?

Artigo originalmente publicado em redir.folha.com.br
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