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Ópera baseada em Oscar Wilde vira espetáculo delirante com vacas e piano suspenso

Redação Recifes
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Ópera baseada em Oscar Wilde vira espetáculo delirante com vacas e piano suspenso

Quem diria que uma ópera inspirada em uma peça do século XIX poderia parecer tão contemporânea — e tão completamente fora do sério? É exatamente isso que entrega a nova montagem de The Importance of Being Earnest no festival Garsington Opera, em Stokenchurch, na Inglaterra. Com direção do irreverente Jack Furness e música do compositor irlandês Gerald Barry, o espetáculo transformou a comédia clássica de Oscar Wilde em uma experiência sonora e visual à beira do colapso — no melhor sentido possível.

O palco é um caos cuidadosamente orquestrado: um piano de cauda erguido sobre palafitas domina a cena como uma escultura surrealista, enquanto um verdadeiro rebanho de vacas invade a encenação em determinado momento, arrancando reações que oscilam entre o espanto e a gargalhada. Como se não bastasse, um canguru — que encontra um destino nada gentil ao longo da trama — garante que nenhum espectador saia da sessão sem ao menos uma história absurda para contar. A pilha de pratos brancos empilhados, já familiar para quem viu versões anteriores da ópera, volta como um símbolo quase ritualístico do caos que está por vir.

Gerald Barry assina a partitura com uma abordagem que poderia ser descrita como uma colagem em modo staccato: fragmentos da verborragia afiada de Wilde são transformados em blocos musicais secos, quase percussivos, que provocam tanto quanto encantam. O resultado é uma obra que não tenta ser fiel ao original de forma reverente, mas que captura com precisão cirúrgica o espírito do dramaturgo irlandês — aquele prazer malicioso em demolir convenções sociais com elegância e ironia.

Para os fãs de celebridades e cultura pop, a produção serve como um lembrete de que o entretenimento de alto nível não precisa ser comportado. A ópera — frequentemente associada a uma atmosfera sisuda — aqui se reinventa como performance de vanguarda, acessível justamente por abraçar o absurdo sem pedir desculpas. Furness conduz o elenco em um ritmo frenético, criando uma experiência que mais se parece com um número de comédia física do que com uma noite na casa de ópera tradicional.

O festival Garsington, realizado no campo inglês durante o verão, tem se consolidado como um dos espaços mais ousados da cena operística britânica, e esta montagem reforça essa reputação com louvor. Para quem tem a oportunidade de assistir, a dica é simples: abandone as expectativas e deixe o delírio tomar conta.

Artigo originalmente publicado em www.theguardian.com
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