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Por que a Antártica congelou 30 milhões de anos antes do Ártico?

Redação Recifes
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Por que a Antártica congelou 30 milhões de anos antes do Ártico?

Os polos da Terra guardam uma assimetria fascinante: enquanto a Antártica ostenta um manto de gelo com até 4 quilômetros de espessura formado há cerca de 34 milhões de anos, o Ártico só desenvolveu sua cobertura glacial permanente muito mais tarde, por volta de 2,7 milhões de anos atrás. Essa diferença de quase 30 milhões de anos sempre intrigou os cientistas, e uma nova pesquisa avança na explicação desse enigma duplo — como o polo sul congelou tão cedo e por que o polo norte demorou tanto.

A resposta começa com a geografia. A Antártica é um continente isolado no centro de um oceano, enquanto o Ártico é essencialmente um oceano cercado por massas continentais. Quando as placas tectônicas abriram a Passagem de Drake — o canal entre a América do Sul e a Península Antártica — e o Gateway da Tasmânia, entre a Austrália e a Antártica, o continente austral ficou completamente circundado por uma corrente oceânica circular e ininterrupta. Esse fluxo, conhecido como Corrente Circumpolar Antártica, funcionou como uma barreira térmica, bloqueando a chegada de águas quentes tropicais e permitindo que as temperaturas despencassem.

O novo estudo também aponta o papel decisivo dos níveis de dióxido de carbono atmosférico. No período em que a Antártica congelou, durante a transição Eoceno-Oligoceno, as concentrações de CO₂ cruzaram um limiar crítico de queda. A combinação entre o isolamento oceânico e a redução do efeito estufa criou as condições perfeitas para o acúmulo de neve e gelo que, ao longo de milênios, se consolidou no maior manancial de água doce do planeta. No Ártico, a ausência de uma corrente de isolamento equivalente manteve o calor oceânico em circulação por muito mais tempo.

A pesquisa também esclarece por que o Ártico finalmente cedeu ao congelamento permanente há cerca de 2,7 milhões de anos. Nesse período, a formação do istmo do Panamá reorganizou a circulação dos oceanos Atlântico e Pacífico, redirecionando correntes quentes e úmidas para o Atlântico Norte. Paradoxalmente, esse calor extra aumentou a evaporação e, portanto, a precipitação de neve nas regiões polares do hemisfério norte, alimentando o crescimento das camadas de gelo da Groenlândia e do Ártico — um mecanismo sutil em que mais calor, em determinadas condições, leva a mais gelo.

Compreender esses mecanismos vai muito além da curiosidade histórica. Os modelos climáticos usados para projetar o futuro do planeta dependem de uma compreensão precisa de como os grandes reservatórios de gelo respondem a variações na concentração de CO₂ e na configuração dos oceanos. Em um cenário de aquecimento acelerado, saber o que fez a Antártica congelar — e o que poderia fazê-la degelar — é uma das questões mais urgentes da ciência climática contemporânea.

Artigo originalmente publicado em super.abril.com.br
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